Escassez de água preocupa autoridades na Suíça em 2026
Cinquenta anos após a "seca do século", a Suíça se aproxima do verão com reservas hídricas extremamente baixas. Um alerta já foi emitido para muitas regiões do país. A seca pode ter efeitos inesperados, mas medidas simples podem evitar situações críticas.
“Não estamos na melhor posição para enfrentar o período mais quente do ano”, afirma Vincent Humphrey, do Departamento Federal de Meteorologia e Climatologia (MeteoSchweizLink externo, na sigla em alemão).
Cinquenta anos se passaram daquela que foi considerada a “seca do século” de 1976, e após os verões escaldantes de 2003, 2015, 2018 e 2022, a Suíça pode ter que enfrentar um novo e grave déficit hídrico este ano. O mês de abril esteve entre os mais secosLink externo da história e há menos água do que o habitual nos lagos artificiais nas montanhas.
A Suíça, apesar de seus inúmeros rios, lagos e geleiras, não está imune à seca. As mudanças climáticas aumentam a intensidade e a duração dos períodos de escassez de água, com impactos às vezes inimagináveis que vão além de rios secos e gramados amarelados. Por exemplo, a seca pode comprometer o abastecimento de produtos petrolíferos, algo que, até agora, nem mesmo a guerra no Irã provocou.
Em 21 de maio, o sistema nacional de monitoramento da seca emitiu um alerta para os Alpes e para o Planalto Central e Oriental. Este é o segundo alertaLink externo desde o lançamento da plataforma, há pouco mais de um ano. “A tendência daqui até o final de junho é preocupante”, segundo Vincent Humphrey. Sem precipitações regulares, a situação no país alpino se tornará crítica muito rapidamente neste verão, de acordo com o especialista em secas.
Risco de seca no verão
Na maior parte da Suíça, as vazões dos rios estão de baixas a muito baixas para a estação, indicam os técnicos da MeteoSchweiz. O acúmulo de neve nas montanhas abaixo do normal reduz a contribuição do derretimento primaveril, com efeitos nos principais cursos de água nas planícies. Os níveis de vários lagos, incluindo os de Constança e dos Quatro Cantões, estão incomumente baixos.
Os lençóis freáticos também apresentam níveis de normais a muito baixos, especialmente nos Alpes. No cantão dos Grisões (sul da Suíça), várias estações de medição registram valores inferiores aos mínimos históricos sazonais, afirma Vincent Humphrey.
O nível de enchimento das represas de acumulação é atualmente de 13%Link externo, um valor inferior à média plurianual de 2013-2021, que era de 20%. “Isso pode ter um impacto na produção hidrelétrica”, diz Vincent Humphrey, acrescentando que a situação ainda não é preocupante. “O nível dos lagos artificiais costuma ser baixo nesta estação”, pondera.
A seca é uma falta prolongada de água devido a chuvas insuficientes ou a uma forte evaporação.
Existem três tipos de seca. A seca meteorológica indica a ausência de chuvas por um período prolongado. Na Suíça, ela é definida como o período mais longo no qual uma estação meteorológica mede menos de um milímetro de chuva.
A seca hidrológica ocorre quando a água nos lagos e rios fica abaixo de um determinado limite. Fala-se em seca agrícola quando a taxa de umidade no solo é particularmente baixa e as raízes das plantas não recebem uma quantidade suficiente de água.
O mês de maio, apesar de algumas chuvas, acabou sendo menos úmido do que a média plurianual. As previsões para junho indicam uma tendência de tempo seco, embora com uma alta margem de incerteza. “Minha impressão é que a Suíça está atualmente muito exposta ao risco de seca: duas ou três semanas sem chuva podem ser suficientes para estarmos em dificuldades, especialmente na presença de ondas de calor”, afirma Humphrey.
No entanto, continua ele, chuvas regulares durante o verão, mesmo que abaixo da média, podem ser suficientes para evitar uma situação de seca grave.
Reservatórios naturais desaparecem
In 2025, a seca atingiu quase um terçoLink externo da superfície do planeta. A causa é a diminuição das chuvas, mas não apenas isso. A atmosfera mais quente devido ao aquecimento global acelera a evaporação do solo e a perda de água por parte da vegetação.
A seca não afeta mais apenas as regiões desérticas. Ela se estende também às zonas temperadas e densamente povoadas. Algumas áreas do Mediterrâneo, dos Estados Unidos e da Austrália enfrentam períodos de seca persistentes há anos. Até 2050, a seca poderá afetar três quartosLink externo da população mundial e reduzir significativamente a produção agrícola.
A seca é um desafio crescente também para a Suíça. As geleiras estão recuando e a cobertura de neve no final do inverno está diminuindo. “Esses reservatórios naturais que permitiam compensar o déficit hídrico no verão estão desaparecendo”, afirma Humphrey. Ao mesmo tempo, aumenta o consumo de água para irrigar os campos.
A seca é um fenômeno relativamente novo em algumas regiões da Suíça, pouco acostumadas a gerenciar a escassez de água ou conflitos no uso do recurso, diz o especialista, citando o Planalto Central, os Pré-Alpes e o Jura. As regiões historicamente mais expostas do país, como os vales alpinos internos e o Ticino, também são afetadas, mas possuem maior experiência e infraestrutura para enfrentar as secas.
País se tornando mais seco?
De acordo com um estudoLink externo do University College London e do jornal britânico The Guardian, a Suíça está entre os países europeus que registraram a maior redução nas reservas de águas subterrâneas desde o início dos anos 2000. O estudo baseia-se em dados de satélite que detectam variações no campo gravitacional terrestre.
Vincent Humphrey conhece esses dados. No entanto, ele levanta a hipótese de que o mapa elaborado pelo The Guardian também incluiu o derretimento das geleiras alpinas. “Isso explicaria por que o declínio parece tão acentuado na Suíça”.
Os dados históricos das estações de medição na Suíça mostram que as águas subterrâneas não diminuíram de forma generalizada e a longo prazo, explica ele. “Também não se observa uma exploração excessiva dos lençóis freáticos”.
Impacto sobre o preço da gasolina
A seca pode ter graves repercussões nos níveis ambiental, econômico e social. Causa danos severos à agricultura, reduz a biodiversidade e aumenta o perigo de incêndios florestais.
A escassez de água afeta negativamente a produção de energia, e não apenas a hidrelétrica. Quando a vazão dos rios diminui, a água se aquece mais rapidamente, com possíveis efeitos para as usinas nucleares.
Em julho de 2025, a usina de Beznau, no norte da Suíça, foi temporariamente paralisada devido às altas temperaturas do rio Aare, que não permitiam o resfriamento dos reatores dentro dos limites ambientais permitidos.
Durante as secas de 2018 e 2022, lembra Humphrey, a Suíça teve que recorrer às suas reservas estratégicas de produtos petrolíferos. O nível do rio Reno havia caído para mínimos históricos, dificultando a navegação e, consequentemente, a importação por via fluvial de parte da gasolina, do diesel e do óleo para calefação consumidos no país.
A seca também pode limitar fortemente a produção de forragem. Quando importá-la se torna caro demais, os criadores são forçados a abater parte do rebanho. Humphrey recorda que, durante a seca de 1976, 25 mil animais a mais do que o normal foram abatidos na Suíça.
Reservas de água para combate a incêndios
“A seca afeta muitos setores e vastos territórios: a combinação desses efeitos é frequentemente subestimada”, ressalta Humphrey. “Pensa-se que é possível gerenciar cada impacto individualmente, mas é o conjunto que cria o maior problema”.
Na Suíça, não existe uma prioridade padronizada para o uso da água em nível nacional. Geralmente, os municípios e as empresas que gerenciam a rede de distribuição de água definem com antecedência as estratégias e as restrições a serem aplicadas em caso de seca. Os usos de menor prioridade costumam ser aqueles sem valor econômico ou ecológico, como lavar o carro, explica o colaborador da MeteoSchweiz. “Parte-se do princípio de que, para a sociedade, é mais útil irrigar as plantações, abastecer as piscinas públicas ou manter as reservas de combate a incêndios”, afirma.
A captação de água em cursos de água é severamente regulamentada e a lei estabelece vazões residuais mínimas (quantidade mínima de água que deve continuar correndo no rio para preservar o ecossistema).
Gestão da seca: modelo para outros países
A Suíça dispõe, desde maio de 2025, de um sistema de monitoramentoLink externo e alerta para secas. A nova plataforma combina dados meteorológicos, hidrológicos (relativos ao comportamento das águas) e de satélite. Ela fornece informações atualizadas sobre chuvas, vazões de rios e níveis de lagos em todas as regiões do país. “Nós nos inspiramos também no que foi feito no exterior, por exemplo, na República Tcheca, na Eslováquia e nos Estados Unidos”, explica Humphrey.
A Suíça, por sua vez, serviu de modelo para outros países: foi a primeira nação a tratar a seca da mesma forma que outros perigos naturais, como tempestades, avalanches e incêndios florestais. “Também optamos por correr o risco de emitir alertas de seca com duas semanas de antecedência”, diz o meteorologista. O primeiro alerta foi divulgado no final de junho de 2025, sendo cancelado graças às chuvas de meados de julho.
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Mudança climática leva Suíça a adotar alerta antecipado de secas
Medidas preparatórias
O sistema nacional de alerta “incentivou muitas autoridades cantonais (estaduais, referentes aos cantões, que são os estados da Suíça) e municipais a definir ou melhorar os protocolos a serem ativados em caso de alerta”, diz Humphrey. “Esta preparação permite reagir de forma mais rápida e eficaz”.
Um exemplo concreto ocorreu no verão passado: o nível do lago de Zurique foi elevado preventivamente em cinco centímetros (com uma intervenção na represa de Letten, ao longo do rio Limmat), pois o sistema sinalizava um risco de seca nas semanas seguintes. Uma medida simples, que permitiu aumentar as reservas disponíveis.
Até 2027, o sistema de alerta para secas será ainda mais aprimorado, com a criação de uma rede nacionalLink externo de medição da umidade do solo. Em cerca de vinte localidades, sensores posicionados em diferentes profundidades medirão a disponibilidade de água na terra.
Edição: Gabe Bullard / VdV
Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl
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