O festival suíço que faz a alegria dos fãs de terror
Há 25 anos, o Festival Internacional de Filmes Fantásticos de Neuchâtel (NIFFF) transforma a cidade suíça em um ponto de encontro para fãs de terror, ficção científica e fantasia. Em sua 25ª edição, celebrada neste mês de julho, o evento continua sendo o único grande festival da Suíça dedicado inteiramente ao cinema de gênero.
Ao longo dos anos, o NIFFF construiu uma comunidade unida por rituais, piadas internas e tradições passadas de veteranos a novatos. A geografia do festival ajuda a criar essa atmosfera de intimidade. Em um raio de apenas 500 metros, os visitantes podem circular entre cinemas, exposições e um parque transformado em uma espécie de vilarejo, com barracas de comida e bares. Como muitos festivais suíços, o NIFFF se beneficia do pequeno porte da cidade onde ocorre: tudo fica perto, o que favorece encontros e familiaridade.
O espírito comunitário do festival também se estende para além das salas de cinema. Nesta edição, em uma das manhãs, espectadores e espectadoras escaparam do calor de 34°C mergulhando no Lago de Neuchâtel, trocando histórias sobre uma escultura de tubarão supostamente escondida dentro da água.
Bruce, uma escultura de tubarão criada para o curta-metragem Choc au LacLink externo, de 2007, exibido no festival no ano seguinte, realmente existe. Mas ele está, na verdade, 22 metros abaixo da superfície do lago – em uma cidade vizinha. No NIFFF, a fronteira entre fantasia e realidade se confunde tanto dentro quanto fora das salas de cinema.
Rituais e lendas do festival
A participação do público se tornou uma das marcas registradas do NIFFF. Os espectadores trocam gracejos e gritam bordões conhecidos durante os anúncios que antecedem os filmes. Segundo a diretora artística do festival, Katy Reidy, isso reflete uma cultura própria do cinema de gênero, termo utilizado para designar filmes produzidos e organizados segundo convenções narrativas e estéticas específicas, como as do terror, da ficção científica e da fantasia.
“Não é algo exclusivo do NIFFF”, afirma. “Acontece em outros festivais de cinema de gênero, onde o público é muito mais engajado, se sente mais livre para se expressar e brincar com suas próprias referências. O que é único aqui é que o público desenvolveu rituais próprios em torno de todo o bloco de anúncios antes das sessões”.
Outros rituais bebem do cinema cult. No breve momento em que o público permanece sentado no escuro antes do início do filme, alguém grita a famosa frase da comédia francesa RRRrrr!!!Link externo (2004) – “Ça va être tout noir!” (“Vai ficar tudo escuro!”) –, antes de o restante da plateia responder em uníssono: “Ta gueule!” (“Cala a boca!”).
No NIFFF, o bloco de anúncios exibido antes de cada sessão, que é mais longo que o normal, se tornou parte da própria performance. Algumas piadas remetem a favoritos de festivais passados. Desde que a saga de ação Baahubali, de S.S. Rajamouli, foi exibida pela primeira vez em 2016, um grito de “Baahubali!” é ouvido religiosamente em toda sessão do festival, levando o público a responder em coro.
Certos anúncios também viraram tradição anual. Durante um comercial do programa Le Film de Minuit, da emissora pública suíça RTS, o público recita as falas junto com o anúncio, antes de se unir em um grito final.
Novos bordões surgem quase todo ano. Nos primeiros dias do festival, os espectadores testam piadas e referências para ver o que pega. No fim de semana, um efeito contagiante já se instalou, e algumas dessas piadas passam a integrar o repertório coletivo. Para Roxane, de 26 anos, que está se formando professora, foi natural aderir ao ritual: “Eu via as pessoas gritando coisas engraçadas para a tela. Então pensei: eu também posso gritar coisas engraçadas para a tela”.
Uma comunidade construída em torno do cinema de gênero
Mas os rituais, sozinhos, não sustentam um festival. É preciso um público disposto a abraçá-los. Em um momento em que a frequência aos cinemas caiu em toda a Europa, o NIFFF continua lotando as salas em sessões diurnas, inclusive durante a semana.
Antonio, bancário de 61 anos, frequenta o evento há 15 anos. “No primeiro ano, fui só na metade do festival, para ver como era. Gostei tanto que, a partir do ano seguinte, tirei férias para acompanhar tudo”, conta.
Embora o público varie de adolescentes a aposentados, o festival atrai um número particularmente grande de jovens: nos últimos anos, pessoas com menos de 35 anos representaram cerca de 47% dos frequentadores, segundo o relatório anual de 2025 do festival. “Para as pessoas da região, é um encontro anual, algo que passa de geração em geração”, diz Reidy. “Quem vinha quando era mais jovem hoje traz os próprios filhos, que por sua vez se tornam voluntários [no festival]”.
Reidy também acredita que o próprio gênero ajuda a explicar o forte apelo entre o público jovem. “O cinema de gênero interessa particularmente a um público jovem, provavelmente porque explora temas sociais, políticos, filosóficos e existenciais, e porque permite viver uma espécie de catarse em relação a angústias ou sentimentos que essas pessoas possam ter, mas de forma lúdica”, afirma.
O espírito coletivo do festival ficou especialmente evidente durante a sessão comemorativa de The Rocky Horror Picture Show. O cineasta francês Bertrand Mandico, convidado de honra deste ano, cujos filmes fantasmagóricos, transgressivos e que atravessam gêneros lhe renderam um público fiel, disse ter se surpreendido menos com o filme do que com a plateia.
“Há algo muito permissivo nesse filme”, diz ele. “Sua estrutura é incomum: muito musical, muito livre. E, acima de tudo, o público acaba se apropriando dele. O filme literalmente transforma a sala de cinema em um cabaré. As pessoas se permitem fazer coisas que provavelmente não fariam em outro lugar. É um pouco como um carnaval. Existe essa ideia de transgredir a própria identidade, ou pelo menos brincar com essa transgressão. O que realmente me tocou foi ver uma geração mais jovem chegar fantasiada, conhecendo todos os rituais em torno do filme […] enquanto, às vezes, ainda estava descobrindo o filme em si”.
Histórias que mantêm o NIFFF vivo
Essa conexão entre o cinema de gênero e a comunidade local é reforçada pela cultura mais ampla de cinema fantástico da região. O NIFFF não existe isoladamente: faz parte de um ecossistema que inclui eventos como o festival Plan 9Link externo, de La Chaux-de-Fonds, o que ajuda a tornar a região um terreno fértil para o cinema de gênero.
E, embora suas raízes sejam profundamente locais, a identidade do festival vai além de Neuchâtel. Como membro da Federação Internacional de Festivais Méliès, o NIFFF está conectado a uma rede global de festivais de gênero, como o Festival Internacional de Cinema Fantástico de SitgesLink externo, na Catalunha, e o Morbido FestLink externo, no México.
Em última instância, o que mantém o NIFFF vivo não é apenas sua programação, mas o imaginário coletivo que o cerca. Uma escultura de tubarão vira mitologia local, uma fala de uma comédia esquecida vira ritual compartilhado, e cada nova geração de espectadores acrescenta novas referências à memória do festival, que está em constante evolução.
A origem dessas tradições é difícil de identificar. Frequentadores de longa data acreditam que muitas começaram com voluntários incentivando o público a “esquentar” antes das sessões, mas, com o tempo, passaram a fazer parte do folclore do próprio festival. Para Reidy, essa reinvenção constante está no centro da identidade do NIFFF. “As pessoas tentam entender o porquê e o como, mas para mim o mais importante é que as pessoas estão contando histórias umas às outras”.
>> O time de celebridades do NIFFF – muito além do nicho:
Edição: Catherine Hickley/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
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