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Sem mulheres, a paz dura menos

As mulheres são essenciais para uma paz duradoura, mas os seus conhecimentos são frequentemente ignorados
As mulheres são essenciais para uma paz duradoura, mas os seus conhecimentos são frequentemente ignorados Copyright 2026 The Associated Press. All Rights Reserved

Um quarto de século após uma resolução da ONU ressaltar o papel das mulheres na resolução de conflitos, elas continuam praticamente ausentes das negociações de paz. Estudos mostram que a participação feminina contribui para acordos mais longevos.

Na foto que registra o encontro da cúpula da OTAN, realizado nos dias 7 e 8 de julho em Ancara, na Turquia, aparecem apenas quatro mulheres entre os 29 homens. É um desequilíbrio que ilustra uma realidade mais ampla: os homens iniciam as guerras e os homens negociam a paz.

No entanto, pesquisas realizadas nos últimos 20 anos mostram que, quanto mais as mulheres participam dos processos de paz, mais sustentáveis são os acordos. Apesar das evidências, as mulheres continuam notavelmente ausentes das negociações formais.

“No Sudão, nenhuma mulher sudanesa participou das negociações de paz”, afirmou Sima Bahous, diretora executiva da ONU Mulheres, durante um debate recente na Organização das Nações Unidas (ONU). A mesma ausência se verifica no cenário da Ucrânia, do Líbano, da Palestina, da República Democrática do Congo e de outros lugares, acrescentou ela.

Uma resolução ignorada

No entanto, há mais de 25 anos, a ONU reconheceu formalmente o papel das mulheres na promoção da paz. A Resolução 1325Link externo, adotada em 31 de outubro de 2000, incentiva os Estados-membros a “garantir que as mulheres estejam melhor representadas em todos os níveis […] nas instituições e mecanismos […] para a prevenção, gestão e resolução de conflitos”.

O objetivo não era apenas promover a igualdade, mas também reconhecer a realidade do que acontece na prática: devido ao seu lugar na sociedade, as mulheres estão na linha de frente quando se trata de construir uma paz tangível e duradoura. Elas também são, juntamente com as crianças, as principais vítimas civis dos conflitos armados, enfrentando um risco maior de deslocamento, violência sexual, pobreza e perda de acesso à saúde.

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A woman soldier standing in front of a military car

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Força de paz suíça no Kosovo aumenta efetivo de mulheres

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Valiosas, mas negligenciadas

Assim como outros países, a Suíça apoia essa resolução da ONULink externo que clama por uma participação mais ativa das mulheres nos processos de paz.

Sibylle Obrist, vice-chefe da divisão de paz e direitos humanos do Ministério das Relações Exteriores, destaca a expertise específica das mulheres. “Na maioria das sociedades, são as mulheres que organizam a vida cotidiana”, afirma ela. “Elas cuidam das redes comunitárias, dos idosos e das crianças.” Elas, portanto, possuem informações cruciais sobre as reais necessidades da população, acrescenta.

Durante as negociações de cessar-fogo no Sudão, por exemplo, realizadas na Suíça em 2024, um grupo de mulheres identificou um problema que ninguém havia pensado antes: o acesso à infraestrutura de telecomunicações. De fato, os centros de telecomunicações eram frequentemente ocupados por grupos armados que exigiam favores sexuais ou dinheiro em troca do acesso.

Essa questão acabou não sendo incluída em um acordo, já que as negociações não chegaram a uma conclusão. No entanto, a Suíça incorporou-a em sua defesa diplomática.

O declínio do multilateralismo

Por que a situação não melhorou 25 anos após a resolução da ONU? Uma razão é que as negociações estão se tornando cada vez mais opacas e transacionais, e agora costumam ser realizadas fora do quadro multilateral da ONU. No entanto, foi a própria ONU que, em primeiro lugar, ressaltou a importância de esforços para incluir as mulheres.

Entre 2019 e 2024, a ONU alcançou uma taxa de participação feminina entre 16% e 23% – “um número insuficiente, mas que, mesmo assim, representa o dobro da média global”, afirma Bahous, da ONU Mulheres. Mas esse progresso está ameaçado pela marginalização atual do papel da ONU. A organização liderou apenas três processos de paz no ano passado; há 15 anos, foram 14, observa Bahous.

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Demonstrierende

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O que é uma política externa “feminista”?

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Trabalho invisível, mas essencial

As mulheres são muito ativas na construção da paz, mas permanecem invisíveis durante as etapas formais e divulgadas pela mídia. “A maior parte das discussões pela paz ocorre em outros lugares”, afirma Liv Halpérin, consultora-chefe da ONG PeaceWomen Across the Globe.

Antes do início das negociações, as mulheres identificam e previnem a violência ou negociam o acesso humanitário. Durante as negociações, elas participam de sessões paralelas, propondo visões alternativas de paz. Após a conclusão de um acordo, elas continuam a trabalhar por décadas em questões como justiça de transição, reintegração de combatentes e reconstrução do tecido social. “Esse trabalho permanece invisibilizado e recebe muito menos apoio financeiro”, diz Halpérin.

Financiamento irrisório

Em um contexto de militarização, menos de 0,5% da ajuda internacional ao desenvolvimento é destinada a organizações de mulheres em países afetados por conflitos. “Há um subfinanciamento geral do trabalho pela paz”, diz Halpérin. Ela acredita que a erosão dos direitos das mulheres, aliada à ascensão ao poder de líderes populistas ou de extrema direita, está criando um clima menos aberto a processos participativos.

“Há uma sensação de que tudo deve ser resolvido muito rapidamente”, diz Joëlle Germanier, diretora do Centro de Competência em Negociação Humanitária, em Genebra. Dá-se menos atenção aos detalhes e à implementação. Mas se os processos não forem participativos, há poucas chances de resultados positivos”, ressalta ela.

Para Halpérin, o trabalho dessas pacificadores no terreno está se tornando cada vez mais arriscado. Ao mesmo tempo, acrescenta, é um trabalho que a cada dia fica mais necessário.

Adaptação: Clarissa Levy

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