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A história por trás do maior acervo de arte chinesa contemporânea do mundo

Uli Sigg.
O colecionador de arte suíço Uli Sigg reuniu uma enorme coleção de arte contemporânea chinesa, grande parte da qual doou ao Museu M, em Hong Kong. Keystone / Peter Schneider

Ao longo de três décadas, Uli Sigg, empresário suíço e ex-diplomata, acumulou milhares de obras contemporâneas chinesas. Ai Weiwei o chama de “meu criador”.

Uma imagem de Mao Zedong no estilo de uma gravura pop de cores vivas chama a atenção, mesmo em uma sala bem colorida. Mao, o ex-líder chinês, está usando batom vermelho e sombra pesada nos olhos, à la Marilyn Monroe, exibindo traços mais femininos.

A pintura a óleo de Mao, feita por Yu Youhan, está exposta no museu M+ de Hong Kong e pode parecer uma representação ousada. Em março, Gao Zhen, um artista chinês conhecido por criar esculturas provocativas de Mao, foi detido após um julgamento na China, acusado pelas autoridades de difamar os heróis do país.

Embora Hong Kong não esteja sujeita às mesmas leis que a China continental, a liberdade de expressão na cidade semi autônoma tem sido restringida desde que Pequim impôs a lei de segurança nacional em 2020. Em 2024, o governo da cidade aprovou uma legislação de segurança adicional que ampliou restrições civis. As caricaturas políticas que satirizam Pequim e sua influência na cidade, que eram comuns nas colunas de jornais e dos protestos de rua em Hong Kong, praticamente desapareceram.

Mas compreender a obra colorida de Yu, “Sem título (Mao Marilyn)Link externo” (2005) como pura provocação é interpretá-la erroneamente, aponta uma das curadoras da exposição, Wu Mo. A obra é uma das três pinturas de Yu que retratam Mao e estão exibidas na exposição “M+ SiggLink externo Collection: Inner WorldsLink externo” no museu M+. A pintura reflete o que a curadora chamou de “uma tendência cultural” do final da década de 1990, quando a nostalgia por Mao cresceu e sua imagem reapareceu em todos os lugares, de camisetas a sacolas.

O museu de cultura visual «M» em Hong Kong.
O museu de cultura visual «M», em Hong Kong, onde Wu Mo foi o curador da exposição «M Sigg Collection: Inner Worlds». Mo afirmou que o objetivo era «desvendar a história» da China desde meados da década de 1990 até à década de 2010. Copyright 2021 The Associated Press. All Rights Reserved

“Mao, assim como Marilyn Monroe, tornou-se um ícone da cultura pop em vez de um símbolo político”, disse ela durante uma visita à exposição, ao comentar as obras de 38 artistas pertencentes à Coleção Sigg do M+.

Segundo o museu, a coleção é o maior acervo de arte contemporânea chinesa do mundo. Em 2012, as obras foram repassadas ao M+ pelo colecionador Uli Sigg. Mas, devido às mudanças políticas que Hong Kong vem passando desde a inauguração do M+ em 2021, o museu tem atraído atenção com mais frequência pelo que pode — e não pode — exibir.

Construindo uma coleção enciclopédica

Sigg doou 1.463 obras de arte contemporânea chinesa ao M+, e o museu também adquiriu 47 obras de sua coleção de cerca de 2.000 itens.

O colecionador suíço passou muitos anos na China. Visitou o país pela primeira vez em 1979 como empresário e ajudou a estabelecer uma das primeiras joint ventures entre o governo chinês e uma empresa ocidental no ano seguinte. Ele se interessou pela cena artística do país “desde o início”, disse em uma entrevista em vídeo de sua casa na Suíça no mês passado, poucos dias antes de seu 80º aniversário. Mas, a princípio, encontrou poucas coisas que gostasse de fato. “Eu simplesmente pensei: isso não é para mim”, lembra.

Foi somente na década de 1990, depois de deixar um cargo executivo no Grupo Schindler, que ele adquiriu suas primeiras obras. Sigg começou a colecionar a sério por volta da época em que se tornou embaixador da Suíça na China, na Coreia do Norte e na Mongólia, em 1995.

“Quando comprei algumas peças, percebi que ninguém estava colecionando arte contemporânea chinesa”, disse ele. “Nos primeiros anos, eu era o mercado na China, porque ninguém mais comprava arte como eu.”

E assim, Sigg, que até então vinha comprando obras que agradavam ao seu gosto, mudou sua abordagem.

“Assumi a missão de fazer o que um museu nacional deveria fazer, que é construir o que chamo de coleção enciclopédica”, disse ele. “Pensei: ‘sabe, este é o maior espaço cultural do mundo, mas ninguém se importa com o que os artistas contemporâneos estavam contribuindo para sua cultura’.”  A intenção de Sigg foi bem recebida por muitos artistas chineses.

Ai Weiwei, talvez o artista contemporâneo chinês mais conhecido da atualidade, credita a Sigg sua reputação internacional. “Eu o chamo de ‘meu criador’”, disse Ai sobre o colecionador em uma entrevista por e-mail.

A obra de arte «Fragments» (2005) de Ai Weiwei,
«Fragments» (2005), de Ai Weiwei, faz parte da Coleção M Sigg. Ai criou a obra utilizando madeira recuperada de templos da dinastia Qing, recorrendo a técnicas tradicionais chinesas de marcenaria. Keystone / Georgios Kefalas

“Sua coleção abrange uma gama muito ampla, refletindo não apenas suas preferências pessoais. Se baseia em sua compreensão do que é a arte chinesa e como a arte contemporânea chinesa difere da arte contemporânea de outros lugares”, escreveu Ai.

“Ele está enraizado na China”, acrescentou. “Seu interesse não é colonial, mas sim o de um descobridor.”

A amplitude da coleção de Sigg foi intencional. Ele sabia, quase desde o início, que as obras “teriam que ser doadas à China, para que o povo chinês pudesse ver sua própria arte”, disse.

Foi com esse espírito que Sigg fez a doação ao M+, dizendo na época que havia escolhido uma instituição em Hong Kong pelas liberdades da cidade e por sua proximidade com o público da China continental.

“Meu primeiro impulso foi pensar no continente”, disse durante uma coletiva de imprensa em 2012. “Mas as condições atuais não permitem que a arte possa ser exibida sem restrições.”

Através das emoções e da política

Sigg reconhece que as mudanças em Hong Kong desde 2012 “geram uma situação em que há limitações ao que pode ser exibido”.

O que é incomum é que tais restrições sejam explicitamente declaradas. Em março de 2021, antes da inauguração do museu, uma parlamentar mencionou uma fotografia da série “Study of Perspective” de Ai, na qual o artista mostra o dedo do meio para marcos históricos ao redor do mundo. A imagem em questão mostrava o dedo de Ai levantado na direção do Portão de Tiananmen. A parlamentar, Eunice Yung, chamou-a de “vulgar” e questionou por que obras de arte que eram um “insulto ao país” seriam exibidas em Hong Kong.

A obra continua listada no catálogo online da coleção Sigg, mas não há “imagem disponível” da foto. (Outra obra da série, com Ai mostrando o dedo médio para a Casa Branca, continua visível.)

Outras obras de Ai — que foi detido pelas autoridades chinesas por 81 dias em 2011 e deixou o país em 2015 após anos de vigilância — foram incluídas em cada uma das três exposições da coleção Sigg exibidas até agora no M+.

“Fragments” (2005), uma escultura monumental feita de madeira recuperada de templos da dinastia Qing e construída usando técnicas tradicionais chinesas de marcenaria, domina o salão principal da exposição “Inner Worlds”. Embora pareça não ter estrutura formal, vista de cima, suas bordas traçam o contorno da China.

“Trata-se de como revisitar ou repensar o patrimônio cultural que nos parece tão familiar”, disse Wu sobre a obra.

Wu, que foi curadora de “Inner Worlds” junto com Sigg, disse que eles buscaram “desvendar a história” do período coberto pela exposição, de meados da década de 1990 até a década de 2010, que foi uma época de rápida globalização e crescimento econômico, “usando fios emocionais”.

Em uma sala em que o texto na parede convida o público a refletir se existe “poder na dúvida”, uma escultura do Palácio Potala, no Tibete, intitulada “Don’t Touch!” (2010), feita inteiramente de couro cru, aparece suspensa no teto. Segundo a curadora, o artista da obra, Liu Wei, se inspirou na agressividade com que seu cachorro atacou um osso de couro cru. “Ele pensou: ‘Uau, isso é realmente uma metáfora muito boa para o comportamento ganancioso dos humanos na competição pelo poder’”, relembra a curadora.

Em uma outra sala, onde o texto curatorial convida à introspecção refletindo se “a ansiedade pode ser uma fonte de criatividade”, obras anteriores de Zhao Bandi que fazem referência a questões sociais são justapostas com algumas de suas pinturas a óleo mais recentes.

“China Lake C” (2015), mostra pessoas reunidas como se estivessem em uma festa, mas o cenário é incongruente com seus ternos e vestidos. “Elas estão em pé em um lago, o que simboliza de certa forma a instabilidade de seu status social”, disse Wu, acrescentando que, apesar de não ser tão explícita em seu comentário social quanto as obras anteriores de Zhao, “ainda é uma obra muito crítica”.

“China Lake C”, foi emprestada pela coleção particular de Sigg, o que também mostra que o colecionador não parou de adquirir obras de arte desde que fez sua grande doação ao museu.

Mas, disse ele por telefone, seu recente aniversário o levou a pensar no que aconteceria com sua coleção. “Como todos sabem a minha idade, preciso encontrar uma solução para as obras, e é importante para mim que elas estejam nos lugares certos”, disse ele.

Ele chamou o M+ de “um dos lugares certos”, dizendo que o museu permite que o público chinês experimente a arte contemporânea chinesa de uma forma que não seria possível na China continental.

“Temos substancialmente mais liberdade em Hong Kong do que se teria na China continental”, disse ele.

O M+ informou que registrou 2,6 milhões de visitantes em 2025, dos quais cerca de 40% eram residentes de Hong Kong. O restante veio da China continental e de outros lugares. Sigg, que ainda visita o local várias vezes por ano e já conduziu visitas guiadas ao museu, disse ter visto visitantes visivelmente emocionados com as obras expostas.

“Eles diziam: ‘Não fazíamos ideia de que essa arte existisse, de que a arte chinesa tivesse tal amplitude e profundidade’”, ouviu. “Muita gente diz: ‘Uau, vejo toda a minha vida refletida nessa arte’” Sigg diz que esse retorno confirma sua intenção original.

Já Ai Weiwei , que em dezembro voltou discretamente à China para uma primeira visita em dez anos, disse que um dia gostaria de ir ao M+ e ver suas obras expostas lá.

“Espero que sim”, disse ele sobre visitar a cidade e o museu, “mas não sei o quando será permitido”.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York TimesLink externo.

Adaptação: Clarissa Levy

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