Cineastas de Pernambuco levam romance queer a Locarno
A Margem do Rio, estreia de Enock Carvalho e Matheus Farias, transforma um romance queer no Recife em reflexão sobre fé, política, desejo e marginalidade. Exibido na competição principal de Locarno, o filme recebeu o Prêmio do Júri e reafirma a força autoral de Pernambuco no cenário internacional.
Onde o rio Capibaribe encontra as margens de Recife, capital do estado de Pernambuco, no Nordeste do Brasil, ele se transforma em um pântano lamacento. Relativamente isolado do frenesi da vida urbana, esse manguezal é um ponto de fascínio para os cineastas Enock Carvalho e Matheus Farias, cujo longa-metragem de estreia (primeiro filme com mais de 70 minutos de duração), A Margem do Rio, teve sua estreia mundial na principal mostra do festival) de Locarno.
Além de dar título ao filme, a margem do rio é um personagem essencial na história do protagonista Izaquiel (Caique Copque), que tem o hábito de frequentar a cena de cruising (prática de buscar parceiros casuais em locais públicos) do mangue. É lá que ele conhece Jeremias (Ítalo Martins), uma figura misteriosa impregnada da essência do rio que, embora inequivocamente humana, parece existir entre as fronteiras da magia e da realidade. À medida que o relacionamento dos dois se aprofunda, Jeremias se torna uma espécie de guia espiritual na jornada de autoconhecimento de Izaquiel.
A presença de Jeremias confere ao filme uma inclinação surreal que o afasta de categorizações fáceis; um encontro sexual com Izaquiel se transforma em algo semelhante a uma possessão espiritual. Seus encontros casuais, sempre à margem do rio e sempre à noite – fotografados em aveludados tons de azul pela diretora de fotografia Luciana Baseggio –, contrastam com o ritmo de thriller da vida cotidiana de Izaquiel, à medida que ele retorna involuntariamente ao ambiente do qual sua identidade como homem gay o forçou a fugir: a igreja evangélica.
A igreja no filme é o contraponto radical da margem do rio, um microcosmo de um espaço a partir do qual a extrema-direita brasileira moderna arquitetou sua ascensão com uma mistura de religiosidade e violência política. Durante o dia, Izaquiel trabalha como faxineiro na Igreja da Primavera, liderada por Eurico (interpretado pelo ator Robério Diógenes, que também trabalhou em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho), um pastor com noções megalomaníacas de como propagar o evangelho.
A combinação dos diretores entre um enquadramento folclórico e o ritmo de um suspense é parte da razão pela qual A Margem do Rio foi selecionado para competir na mostra principal de Locarno, em vez da Competição Cineastas do Presente, seção dedicada a cineastas estreantes.
Para os diretores, estar ao lado de cineastas consagrados como o sul-coreano Hong Sang-soo e o franco-canadense Denis Côté validou o apelo complexo da obra. “Quando Giona [Nazzaro, diretor artístico do festival] anunciou o filme na coletiva de imprensa de Locarno, ele o chamou de thriller erótico”, lembra Carvalho. “Nós acolhemos bem essa descrição.”
Há algo na água
A passagem de Izaquiel pela Igreja da Primavera coincide com a tentativa do filho de Eurico, Eliel, de concorrer a um assento no Congresso Nacional com uma pauta conservadora e de orientação evangélica. No Brasil, as diversas igrejas presbiterianas tornaram-se uma poderosa máquina política – deputados e deputadas evangélicos compõemLink externo mais de 40% da Câmara dos Deputados.
A influência desses grupos ajudou a eleger Jair Bolsonaro à presidência, um projeto presenciado em primeira mão por Farias, que cresceu na igreja antes de deixá-la para “abraçar o diabo” de sua identidade como homem gay. “Durante meus últimos anos na igreja, houve um esforço coordenado para eleger um presidente evangélico”, diz ele, observando que Bolsonaro não é, ele próprio, membro de igreja evangélica – é católico declarado, embora também tenha sido batizado por um pastor evangélico em Israel. Ainda assim, o ex-presidente é uma personificação conveniente da ideologia evangélica.
Farias recorda ter sentido uma desconcertante sensação de responsabilidade quando Bolsonaro foi eleito: “Aquilo que eu havia ajudado a construir durante tantos anos na igreja finalmente se tornou realidade. Só que eu não fazia mais parte da igreja e sofri as consequências do projeto dela, não apenas como homem gay, mas também como cineasta.”
Sob o bolsonarismo, o Brasil passou por um período que Farias chama de “quatro anos de esvaziamento cultural”, quando o financiamento estatal para artistas secou completamente. Agora, sob um novo governo, o cenário cultural do país atravessa um renascimento.
“Hellcife”, a capital do cinema brasileiro
Desde a década de 1990, o Recife – ou Hellcife, como a população local descreve o calor tropical escaldante da cidade – tem sido um polo gerador para o cinema independente brasileiro. Seu momento decisivo veio com o filme Baile Perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, no qual a marcante mistura de temas regionais e modernidade urbana caminhou lado a lado com o movimento musical Manguebeat do Recife.
>> Baile Perfumado* é ambientado na década de 1930, acompanhando um famoso bando de cangaceiros no sertão brasileiro. Grandes expoentes do movimento Manguebeat do Recife, Chico Science & Nação Zumbi compuseram a trilha sonora do filme:
Agora, com o sucesso ascendente de Kleber Mendonça Filho, cujo filme O Agente Secreto se passa inteiramente na cidade, o Recife manteve sua posição como o polo cinematográfico mais bem-sucedido e inovador do Brasil.
Seu programa de financiamento público permite que cineastas experimentem com forma e estilo sem a necessidade de atender às exigências comerciais de centros econômicos como São Paulo e Rio de Janeiro; além disso, uma comunidade unida faz com que os recursos sejam compartilhados: a mesma câmera que gravou O Agente Secreto, no qual Farias trabalhou como montador (profissional responsável pelo corte e edição das cenas), foi usada para filmar A Margem do Rio, e vários atores se repetem nos dois longas.
“Quando temos acesso à mesma qualidade técnica, ferramentas e equipe talentosa de produções como Ainda Estou Aqui ou O Agente Secreto, podemos contar uma história com tom e ponto de vista distintos que permanece no mesmo nível” dessas outras obras, enfatiza Carvalho. Essa diversidade de perspectivas é essencial para um cinema nacional pujante – não é por acaso que o Recife formou uma nova safra de realizadores ousados.
Por outro lado, se o financiamento público pode ser uma bênção, ele pode com a mesma facilidade se transformar na corda que sufoca a produção. Recursos vinculados ao Estado tornam-se vulneráveis à volatilidade do clima político, um problema que Farias e Carvalho conhecem muito bem. O financiamento ao cinema em Pernambuco agora é protegido por lei, um avanço que Farias destaca como primordial: “Temos que cuidar e proteger essas iniciativas para que elas possam continuar a existir”, afirma.
Cinema nas margens
Para cineastas brasileiros que buscam ir além das convenções, o Festival de Cinema de Locarno funciona como uma espécie de retorno ao lar: desde que premiou Terra em Transe, de Glauber Rocha, com seu prêmio máximo em 1967, o festival tem apoiado o cinema de arte (produções cinematográficas independentes voltadas a fins autorais e estéticos) brasileiro. O Cinema Novo (movimento cinematográfico nacional focado na realidade social e estética despojada), do qual Rocha foi figura central, abriu espaço para o mais cru “cinema marginal” (movimento contracultural brasileiro de baixo orçamento e linguagem experimental), linhagem à qual Carvalho e Farias se conectam por meio da preocupação temática com as margens – o filme que ‘inaugurou’ esse movimento chamava-se, precisamente, A Margem (de Ozualdo Candeias, 1967).
Na última década, muitos dos mais celebrados – e malditos – autores ‘marginais’ do país, como Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach, tiveram seus filmes exibidos em mostras paralelas que celebraram suas trajetórias. O primeiro longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor (2012), também impressionou o público internacional em sua segunda exibição, realizada em Locarno logo após a estreia em Roterdã. Mais recentemente, em 2022, Regra 34, de Julia Murat, conquistou o prêmio principal de Locarno, o Leopardo de Ouro.
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A Margem do Rio coloca no centro a experiência queer, que costuma ser marginalizada em contextos conservadores, mas também aborda as margens de maneiras mais abstratas – ao explorar, por exemplo, o espaço limítrofe entre a realidade e a magia ocupado por Jeremias.
Fantasia é a nossa realidade
Nesse sentido, o filme dialoga com a tradição latino-americana do realismo mágico: “É muito difícil separar o Brasil de um ponto de vista fantasioso, que faz parte da nossa cultura e da diversidade de experiências que temos no país”, explica Carvalho. “Se, por um lado, sofremos com muitos anos de violência e feridas abertas, por outro temos uma diversidade cultural e religiosa que alimenta o imaginário coletivo e nos dá formas alternativas de ver o país.”
Essa perspectiva alternativa é o que os diretores buscaram retratar por meio da história de Izaquiel e da própria margem do rio. “O manguezal é um lugar de vida e de morte, de permeabilidade, onde os animais nascem e também onde se decompõem”, comenta Farias, ao que Carvalho complementa: “Ele existe apesar do esgoto que corre ali; ele luta contra as adversidades impostas pela humanidade. Fez muito sentido para nós que uma atividade marginalizada e clandestina acontecesse em um lugar pelo qual a própria sociedade não demonstra preocupação.” No manguezal, diz Farias, “você pode se esconder diante de todos, subverter as regras e construir uma nova existência.”
Para Carvalho, a perspectiva do realismo mágico é inseparável da experiência da vida cotidiana brasileira como um todo: “A fantasia é a nossa realidade. Acolhemos a fantasia em nosso filme porque compreendemos que ela é possível; ela existe.” Para Izaquiel e para seus criadores, encarar a dura luz do dia não dissipa a magia do cair da noite – apenas enfatiza a necessidade de preservá-la.
Rafaela Bassili é uma escritora e crítica de cinema brasileira radicada em Nova York. Seus artigos sobre cinema, literatura e televisão já foram publicados em veículos como The Guardian, New York Magazine, Mubi e The Atlantic.
Edição: Eduardo Simantob/ts
Adaptação: Alexander Thoele
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