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Um ícone suíço em duas rodas

Coluna de ciclistas do exército suíço
Infantaria ciclista com o seu equipamento a subir uma encosta, 1981. Médias numériques de l’armée MNA

São raros os equipamentos militares que foram utilizados por tanto tempo quanto a bicicleta do exército suíço, a Ordonnanzrad 05. Ela é o reflexo de quase um século de história militar e do cotidiano suíço. Devido à sua utilização militar e civil e à sua indestrutibilidade notória, ela representa um pedaço da identidade suíça.

A Swissinfo publica regularmente outros artigos do blog do Museu Nacional SuíçoLink externo consagrados a temas históricos. Esses artigos estão disponíveis em alemão, francês e inglês.

Com a dissolução das tropas de ciclistas em 2003, após 112 anos de existência, o exército suíço perdeu um símbolo de identificação incomparável. Embora as bicicletas ainda sejam utilizadas para fins militares (o último modelo está em produção desde 2012), elas não protagonizam mais combates.

Atualmente, quando ouvimos “bicicleta do exército”, pensamos principalmente na primeira bicicleta militar, introduzida em 1905: a Ordonnanzrad 05. Fabricada até 1988, ela só foi substituída em 1993. Como uma pequena tropa e seu meio de locomoção se tornaram tão emblemáticos da Suíça?

Esse status especial já se manifesta em sua denominação em alemão. Não se trata de uma Militärvelo, como frequentemente se chamam as bicicletas militares no vocabulário popular da Suíça germânica, mas de uma Ordonnanzrad ou “Frd” (para Fahrrad, bicicleta em alemão), segundo a terminologia militar oficial. Mas há aqui uma nuance importante: até 2003, as tropas ciclistas pedalavam Rads [outra forma de abreviar Fahrrad] e olhavam com desdém para as Militärvelo de outras especialidades militares.

Desde a Segunda Guerra Mundial, outras unidades também possuíam até 20 bicicletas em seus estoques de equipamento, mas as chamavam de Velo. Na Suíça francófona e no Ticino [de língua italiana], por outro lado, a terminologia é uniforme: as bicicletas de ordenança [bicicletas militares] são chamadas simplesmente de vélo d’ordonnance ou bicicletta d’ordonnanza.

Quem a inventou?

As tropas ciclistas suíças têm a reputação, pelo menos na Suíça, de terem sido únicas no mundo. Será que realmente foram?

Em 1891, o exército suíço não era nem o primeiro nem o único a introduzir a bicicleta. A partir dos anos de 1880 e 1890, quase todos os grandes exércitos europeus, assim como o americano, testaram utilizar a bicicleta para fins militares, sobretudo para o envio de mensagens. Naquela época, a bicicleta havia acabado de alcançar a maturidade técnica enquanto meio de locomoção, assumindo um formato e mecanismos padrão. Além disso, uma rede de estradas contínuas e pavimentadas estava tomando forma, inclusive entre os grandes Alpes suíços.

Assim, a bicicleta logo se tornou uma alternativa ao cavalo, mostrando-se menos cara e mais eficaz. Ao mesmo tempo, a bicicleta militar precisava ser suficientemente robusta para conseguir encarar todos os tipos de caminhos. Ou seja, precisava fazer de tudo.

Primeiro para os ricos, depois para os atletas

Até 1905, os soldados precisavam comprar suas próprias bicicletas. Nem os agricultores nem os trabalhadores podiam se dar ao luxo de ter tal meio de locomoção ultramoderno. Até a introdução da Ordonnanzrad 05, as tropas ciclistas eram reservadas para aqueles com mais condições financeiras, os filhos das classes altas urbanas que nutriam ambições esportivas.

A bicicleta passa então a rivalizar com a cavalaria, igualmente elitista. Com a chegada da Ordonnanzrad 05, o governo suíço passou a custear metade do valor da bicicleta, enquanto o soldado podia pagar o restante com o seu salário, iniciando assim uma democratização da tropa. Paralelamente, a bicicleta se tornava consideravelmente mais barata também para os civis, graças a uma produção industrial em série que a transformou no principal meio de locomoção da classe trabalhadora e da população rural. A exigência para integrar as tropas ciclistas não era mais financeira, e sim de condicionamento físico.

Durante ambas as guerras mundiais, as tropas ciclistas de outros países eram enviadas ao front, o que, evidentemente, não ocorreu na Suíça [devido à sua neutralidade]. Após a Segunda Guerra Mundial, outros exércitos iniciaram a mecanização progressiva de suas tropas de infantaria e dissolveram suas unidades ciclistas, mas a Suíça optou por mantê-las.

Essa decisão foi fruto da estratégia militar adotada no contexto da doutrina de defesa da Suíça durante a Guerra Fria. As tropas ciclistas são, aliás, muito autônomas do ponto de vista logístico, e não custam caro. Silenciosas e flexíveis, elas conseguem se mover mesmo quando as infraestruturas estão destruídas, o que as torna perfeitamente adaptadas para conduzir um combate assimétrico e produzir um efeito surpresa contra formações pesadas.

Ciclistas do exército suíço durante a Primeira Guerra Mundial
Patrulha ciclista suíça com pombos-correio, imagem retirada de um álbum fotográfico que data aproximadamente de 1914 a 1918. Musée national suisse
Bicicleta militar suíça
Bicicleta de serviço n.º 05 do fabricante Schwalbe (produzida entre 1906 e 1951) com bolsa de quadro. O seu peso total, incluindo os acessórios, era de 22,5 kg. DDPS / Stefan Tschanz

Atemporal

Verdade seja dita: a particularidade militar das tropas ciclistas suíças reside, sobretudo, no longo tempo em que se mantiveram ativas e no contexto histórico desse período. A partir dos anos de 1980, a Suíça passou a ser o último país industrializado moderno a dispor de unidades de combate regulares equipadas com bicicletas plenamente operacionais.

Até o início dos anos de 1990, o país também era o único país do mundo a utilizar, em suas manobras militares, um modelo antigo com uma única marcha, quadro padronizado e sistema de frenagem que remetiam a 1905. Pesando 22,5 kg, a bicicleta Ordonnanzrad 05 é, até hoje, famosa por ser indestrutível e exigir manutenção mínima.

Sua excelente qualidade de fabricação é mais uma razão pela qual essa bicicleta, em particular, e as tropas ciclistas, de modo geral, são consideradas tipicamente suíças. Foram produzidas mais de 68.000 unidades por diferentes fabricantes suíços. Para os leigos, todas as bicicletas se parecem, mas, ao longo das décadas, os ciclistas (e, atualmente, os colecionadores e colecionadoras) aprenderam a distingui-las pela marca e pelo modelo: Condor, Cosmos, Schwalbe, Zesar e outras, como a MaFag, são reconhecíveis pela coroa dentadaLink externo [peça dentada por onde passa a corrente]. Para os fabricantes, essas encomendas eram prestigiosas e permitiam promover modelos civis, com o selo de qualidade do exército como aval.

A empresa Condor de Courfaivre (JU) é a principal fabricante das bicicletas militares. Ela forneceu os primeiros modelos ao exército ainda em 1904 e continuou fabricando a Ordonnanzrad 05 até 1988. Apenas entre 1931 e 1981, mais de 30.000 exemplares saíram de suas oficinas.

Fábrica de bicicletas Condor em 1943
Vista da oficina de esmaltagem da fábrica Condor em Courfaivre (JU), 1943. Condor international SA Courfaivre

Em 1993, o exército substituiu a Ordonnanzrad 05 pela Ordonnanzrad 93, do qual a Condor produziu 5.500 exemplares até 1995, quando a empresa encerrou sua produção de bicicletas. Extremamente popular e robusto, mas “low-tech”, o modelo 05 tornou-se obsoleto.

Mais uma vez, o exército reagiu a uma evolução tecnológica: a ascensão da mountain bike, também chamada de bicicleta de montanha. A nova bicicleta militar é apenas ligeiramente mais leve, mas vem equipada com pneus largos e com cravos [para dar tração em terreno irregular], câmbio de mountain bike e freios hidráulicos de mountain bike. Apesar disso, apenas 20 anos depois, o exército encerra o uso de bicicletas como meio de combate.

Assim como a construção de uma rede de estradas havia impulsionado o surgimento da bicicleta militar, foi a construção de rodovias, a partir dos anos de 1960, que selou inexoravelmente seu fim. O tráfego rodoviário motorizado civil explodiu, enquanto o transporte militar passou a ser realizado por caminhões e veículos blindados. O desenvolvimento vertiginoso de tecnologias militares e a falta de proteção contra estilhaços tornaram a infantaria ciclista definitivamente redundante no campo de batalha dos anos 2000.

Bicicleta militar suíça com o seu equipamento
Bicicleta de serviço 93 com sete velocidades. O porta-bagagens traseiro está equipado com fixações para armas e munições, como um Panzerfaust (anteriormente designado por «tubo de foguete») com as respetivas munições. DDPS / Stefan Tschanz

Um símbolo do sistema de milícias

Apesar de tudo, o mito do ciclista militar suíço ainda persiste. Antigos militares ciclistas lembram do extraordinário espírito de coesão que reinava entre a tropa: “Um dia ciclista, sempre ciclista!”, exclamou o último comandante de um regimento ciclista na ocasião da dissolução oficial da tropa.

Os militares ciclistas também demonstram muito orgulho: a partir da organização das tropas de 1936, eles passam a ser vinculados às tropas leves, no mesmo nível que a cavalaria e as tropas motorizadas e, mais tarde, as tropas mecanizadas.

Os ciclistas cultivam, portanto, uma cultura própria e recebem uma doutrina de emprego dedicada [conjunto de diretrizes sobre a utilização das tropas ciclistas em combate] em 1965. No entanto, talvez seja a percepção do público geral que contribui mais para o status particular da bicicleta militar. Essa percepção está intimamente ligada ao modelo Ordonnanzrad 05, que, devido à democratização já mencionada, encarnou, mais do que qualquer outro símbolo, o exército de milícia [sistema típico da Suíça no qual a maioria dos soldados são cidadãos comuns, que mantêm seu próprio equipamento em casa, em vez de militares de carreira].

Até a década de 1960, a bicicleta era o meio de transporte por excelência no cotidiano, e sua utilização pelo exército contribuiu para aumentar a simpatia pelos militares. Até 1961, os soldados eram autorizados a manter suas bicicletas e elas faziam, por assim dizer, parte da paisagem. Depois, quando passaram a ser pagas integralmente pelo governo, os soldados precisavam comprá-las caso desejassem mantê-las consigo. Uma vez que a classe econômica não era mais um fator [para integrar as tropas ciclistas], os ciclistas do exército passaram a ser vistos como uma tropa de elite, recrutada com base em critérios de desempenho e força de caráter.

Ciclistas militares em frente ao seu quartel
As bicicletas do exército exigiam pouca manutenção e tinham uma grande durabilidade. Soldados a fazer a manutenção das suas bicicletas, 1981. Médias numériques de l’armée MNA

Outra manifestação desse status especial foram as corridas militares, organizadas desde a criação das tropas ciclistas. Até a Segunda Guerra Mundial, essas corridas, que eram muito popularesLink externo, tinham como objetivo selecionar os recrutas mais aptos para as tropas ciclistas.

A partir dos anos de 1950, as corridas de ciclistas militares se transformaram em grandes festas populares, como a tradicional corrida entre St. Gallen e Zurique e o ciclocross [modalidade disputada em circuito de terra, grama e obstáculos] em Fehraltorf. Os ciclistas do exército chegam mesmo a disputar suas próprias provas no velódromo do Hallenstadion, durante os Seis Dias de Zurique [prova realizada ao longo de seis dias consecutivos, na qual dois ciclistas se revezam em cada equipe]. Na época, a maioria deles era composta por ciclistas competidores ativos, e até mesmo alguns profissionais. A dissolução das tropas ciclistas em 2003 marcou o início do declínio dessas corridas militares de bicicleta.

Atualmente, as poucas corridas que restam constituem um momento de nostalgia que atrai um público fiel. Em 2009, um episódio do programa alemão Wetten, dass..? no qual o ciclista militar Daniel Markwalder vence o competidor profissional Jens Voigt no sprint se tornou cult, mas também virou símbolo do lado “divertido” cada vez mais presente e embelezado do ciclismo militar.

Neste episódio do programa “Wetten, dass..?”, transmitido em 2009, uma bicicleta militar enfrenta uma bicicleta de corrida (YouTube/hansiperner):

Conteúdo externo

Item de colecionador

Esse culto se perpetua entre os colecionadores e colecionadoras. Nos anos 2000, ainda era possível adquirir antigas bicicletas militares, sobretudo em lojas de excedentes do exército, pelo preço unitário de CHF 150. Atualmente, o preço praticado é mais de dez vezes maior, dependendo da raridade e do equipamento da bicicleta.

As peças de reposição que não são mais produzidas são raras. Elas também são colecionadas e comercializadas, o que leva alguns mecânicos a recusarem reparos. Para suprir essa carência, entusiastas de bicicletas militares, mecânicos e colecionadores não apenas colocam bicicletas à venda, como também mantêm uma verdadeira cultura da bicicleta militar em seus sitesLink externo e blogs, nos quais compartilham dicas de reparos e artigos históricos.

Mas ainda é comum cruzar, de vez em quando, com uma Ordonnanzrad 05 nas ruas. Embora muitas vezes não esteja mais em seu estado original, ela continua sendo uma aliada fiel e indestrutível, e provavelmente permanecerá assim pelos próximos 100 anos.

Bicicleta militar estacionada em frente a uma loja em Zurique
Uma bicicleta do modelo 05 em frente a uma padaria em Zurique, em 2026. Thomas Bochet

Thomas Bochet é historiador e curador de exposições no Museu Nacional de Zurique, e cocurador da exposição “Nós e a guerra”.

O artigo original no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo

Adaptação: Clarice Dominguez

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