The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

O guet, o guarda-noturno de Lausanne

Alexandre Schmid
A principal missão do guet começa após os toques do sino, que aqui em cima são ensurdecedores. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Quando o sino da catedral de Lausanne bate as dez horas, começa o trabalho de Alexandre Schmid, que grita a hora para os quatro pontos cardeais. Essa é a função do guet, um tipo de guarda-noturno que vigia a cidade há mais de 600 anos. Hoje, ele é um símbolo da identidade local.

Schmid pedala a bicicleta com força, ofegante. Depois, quando fica sem fôlego, empurra a bicicleta pelas ruas íngremes de Lausanne. Seu destino, a catedral, fica em cima e ele mora embaixo, perto da estação.

É uma noite de chuva e vento, faltam quinze minutos para as 22h. Não há pressa. Ainda dá tempo de encostar a velha bicicleta na parede, subir os 153 degraus da torre do sino e vestir o chapéu de feltro e a capa preta. São os trajes do guet.

‘C’est le guet. Il a sonné dix! Il a sonné dix!’

Há cerca de dois anos, Alexandre Schmid é o principal guardião da Catedral de Notre-Dame de Lausanne. Um ofício oriundo de um passado já desaparecido.

“É um lugar magnífico. Fico maravilhado toda vez que subo aqui. Tenho uma vista única da cidade. Eu amo Lausanne”, diz o rapaz de 34 anos, sua barba escura iluminada pela luz fraca da lanterna pendurada no parapeito. De repente, o vento traz as badaladas do relógio da igreja de Saint-François. Já é quase hora.

Há uma pessoa a gritar da torre do sino da catedral
Ao bater de cada hora, entre as 22h00 e as 02h00, Alexandre Schmid anuncia a hora nas quatro direções. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Schmid coloca os dedos indicadores nos ouvidos. Pouco depois, o sino centenário da catedral bate suas dez badaladas. Aqui em cima, a 30 metros da base do imponente edifício gótico, o som é ensurdecedor. Quando o eco para de ressoar sobre os telhados da cidade, cabe a Schmid anunciar a hora. Ele coloca as mãos em cone ao redor da boca e grita a plenos pulmões, em direção ao leste: “C’est le guet. Il a sonné dix! Il a sonné dix!” (“É o guet. Bateram as dez horas! Bateram as dez horas!”).

Em seguida, ele retira a lanterna do gancho, vai para o lado norte da torre e repete o anúncio. Seguem-se as demais direções cardeais. A ordem é sempre a mesma: leste, norte, oeste e sul.

>> Ouça o guet anunciar as dez horas neste vídeo da Cidade de Lausanne:

Conteúdo externo

Guardião de uma tradição centenária

Por uma hora, sua tarefa está cumprida. Schmid volta para a guarita, chamada loge du guet (“casa do guarda”), como indica uma placa de madeira pendurada na porta. É uma espécie de alcova, um cômodo de poucos metros quadrados com paredes de madeira, aquecido por um aquecedor elétrico.

O guet pendura o chapéu e a capa em um gancho. “O termo guet vem do verbo francês guetter [vigiar, ficar de olho]”, explica Schmid, que passa cinco noites por semana, das 22h às 2h, no alto da torre do sino, marcando as horas com sua voz. Ele não vigia nem toca os sinos; é simplesmente o guardião de uma tradição centenária.

“A primeira menção documentada da presença de um ‘guet de la cathédrale’ remonta a 4 de novembro de 1405. Mas essa figura já existia bem antes disso. Sua principal tarefa era soar o alarme em caso de incêndio”, conta o guarda-noturno, que estudou história na universidade e hoje consegue conciliar sua paixão pelo passado com esse ofício, já perdido na noite dos tempos. “O guet também tinha de tocar os sinos e gritar as horas, além de zelar pela ordem pública na cidade”, acrescenta.

Mostrar mais
imagem

Mostrar mais

Curiosidades suíças

Zytglogge, o coração mecânico da cidade de Berna

Este conteúdo foi publicado em O Zytglogge, em Berna, possui um dos poucos relógios astronômicos da Europa que ainda funciona e é totalmente mecânico.

ler mais Zytglogge, o coração mecânico da cidade de Berna

“Na Idade Média, as casas eram feitas quase inteiramente de madeira e palha. A única forma de cozinhar ou se aquecer era fazer fogo, e por isso havia incêndios o tempo todo. Quando isso acontecia, o único jeito de apagá-los era formar uma corrente humana e passar baldes de água de mão em mão. Era um método pouco eficaz, e bairros inteiros costumavam pegar fogo”, explica o guet.

Sinos
Os dois sinos à esquerda e à direita do campanário marcam as horas. Os grafitos encontrados no interior dos sinos da igreja sugerem que alguns visitantes subiram à torre sem autorização. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Pilar do sistema de vigilância contra incêndios

Foi justamente em 1405 que ocorreu um dos incêndios mais graves de Lausanne: boa parte das casas ao redor da catedral foi consumida pelas chamas. Segundo um registro da época, redigido pelos delegados do bairro e pelo bispo da cidade, uma das causas foi o atraso das sentinelas em dar o alarme. “Quando via um incêndio, o guarda da catedral pegava um martelo e batia num sino para avisar a população”, conta Schmid. “Mas naquela noite já era tarde demais quando ele percebeu o incêndio. Provavelmente tinha adormecido”.

Mas ele não era o único de guarda. Havia outro no campanário da igreja de Saint-François. E outros guardas, que ficavam nas ruas, faziam a ronda pelos bairros. “Eles se comunicavam gritando uns para os outros, sinalizando focos de incêndio e anunciando a hora. Essa também era uma forma de garantir que o colega não tivesse adormecido durante a ronda, talvez por ter ficado tempo demais numa taverna”, explica Schmid.

Até o início do século 20, o guarda-noturno da catedral continuou sendo o pilar do sistema de vigilância contra incêndios de Lausanne. Com o passar das décadas, porém, ele foi aos poucos perdendo importância. Em 1907, o alarme passou a ser dado pelas sirenes da cidade, não mais pelo guet, que mesmo assim seguiu ocupando a torre dia e noite. A verdadeira mudança veio no pós-guerra, com a instalação de um relógio automático e de um sistema mecanizado para tocar os sinos. Desde então, sua função ficou restrita ao simples anúncio das horas. No passado, era um serviço voltado principalmente para quem não sabia ler as horas ou contar.

Parte da identidade da cidade

A partir de 1960, diante da dificuldade crescente de encontrar candidatos para o cargo, as autoridades de Lausanne decidiram limitar seu turno à faixa entre as 22h e as 2h da manhã.

“Como a utilidade do guet se esvaziou de qualquer sentido prático, essa atividade passou a pertencer a outra categoria, certamente mais fantástica, talvez mais mítica. O guarda se tornou um personagem atemporal que surpreende e fascina”, diz a descrição do cargo no site das Tradições Vivas da SuíçaLink externo.

Uma pessoa a ler enquanto está deitada
À noite, Schmid tem paz e sossego – e tempo – para se dedicar à leitura. Esta noite, está lendo um livro sobre a luta de classes no Império Romano. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

“Seria essa aparente inutilidade que torna o guet uma figura tão lendária?”, perguntamos, de forma um tanto provocativa, a Schmid. “Acho que é justamente o fato de estar fora do tempo que torna essa figura tão fascinante”, responde.

“O sentido desse ofício está, sobretudo, no vínculo com o passado e no carinho que a população de Lausanne sente por ele. É um elemento que ajuda a moldar a identidade da cidade, de quem vive nela, nos fazendo dizer: ‘Em outros lugares não é como aqui!’”.

E, de fato, é possível contar nos dedos da mão quantas cidades da Europa têm um guarda ativo 365 dias por ano: são Ripon, no Reino Unido; Cracóvia, na Polônia; Ystad, na Suécia; e Annaberg e Celle, na Alemanha.

Além de Alexandre Schmid, há outros sete guardas suplentes que garantem a continuidade da tradição, entre eles Cassandre Berdoz, que em 2021 se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo.

Mesmo que o avanço técnico tenha tornado a função original do guet desnecessária, Lausanne nunca quis abrir mão do seu guarda-noturno.

Em 1946, a transferência do cômodo do guet do segundo para o primeiro andar da torre causou grande preocupação entre os moradores e moradoras. Temia-se que fosse o início do fim dessa figura à qual eram tão apegados.

Em 1960, quando as autoridades decidiram limitar a presença do guet na torre a quatro horas por noite, das 22h às 2h, a imprensa regional estampou manchetes como “Sauvons le guet” (Salvemos o guet) e “Serait-ce l’agonie du guet?” (Será esta a agonia final do guet?). Um sinal do profundo apego que a população de Lausanne sentia pela tradição, que se tornou parte da identidade municipal.

Sem arrependimentos

Amante da tranquilidade e dos livros, Alexandre Schmid não hesitou ao descobrir que a cidade procurava um novo guarda-noturno para a catedral.

Ele assumiu o posto de Renato Häusler, que havia dedicado quase quatro décadas à função, de 1987 a 2002 como suplente e depois como titular até 2024. Na parte de dentro da porta de um armário na torre, Häusler deixou um registro silencioso do tempo passado ali em cima: uma longa sequência de traços feitos a caneta, um para cada noite passada acima dos telhados de Lausanne. Foram 3.398 noites.

Depois de quase uma hora contando sua história, Schmid se levanta e pega novamente o chapéu e a capa no gancho. Ele precisa voltar lá fora para gritar a hora para os quatro pontos cardeais. Na saída, perguntamos se, passados dois anos, ele se arrepende da escolha. “Não, nunca”, diz sorrindo, enquanto observa as luzes da cidade a seus pés. “Para deixar um lugar assim, eu precisaria encontrar outro tão excepcional quanto este. Mas não acho que exista”.

Mostrar mais

Debate
Moderador: Zeno Zoccatelli

Você já ouviu algo peculiar sobre a Suíça que tenha achado interessante?

Há algo peculiar relacionado à Suíça que tenha despertado seu interesse? Compartilhe conosco e talvez possamos incluí-lo em um artigo!

109 Curtidas
112 Comentários
Visualizar a discussão

Edição: Zeno Zoccatelli/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR