The Swiss voice in the world since 1935

Tiro, uma paixão sem fronteiras

Pessoas que disparam
Os suíços do exterior tiveram o seu dia dedicado durante a Festa Federal de Tiro, em Chur. Dirk Frischknecht

A Festa Federal de Tiro 2026, em Coira (Chur, em alemão), também reuniu suíços e suíças que vivem no exterior. Vindos da África do Sul, do Canadá, dos Estados Unidos e da Europa, quase 130 atiradores e atiradoras participaram da competição de 300 metros. Para muitos, o tiro não é só um esporte, mas também uma forma de manter o laço com a Suíça.

Os tiros de fuzil, amortecidos pelos protetores auriculares, se sucedem em intervalos irregulares. Logo depois, toma conta do ar um cheiro característico: uma mistura de pólvora queimada e graxa de arma.

Nos suportes, perfeitamente alinhadas, carabinas, fuzis de assalto 57 e 90. A 300 metros, uma dezena de alvos. Nas telas, as bandeiras da África do Sul, dos Estados Unidos, do Canadá, da França, da Alemanha, dos Países Baixos e do Principado de Liechtenstein.

É o dia da diáspora suíça no estande de tiro de Rossboden, em Coira.

O tiro como elo com a Suíça

“Existem, no mundo todo, suíços e suíças no exterior que compartilham essa mesma paixão pelo tiro. Se encontrar aqui para viver essa experiência junto é algo realmente especial”, conta Karin Schmid, integrante do Swiss Rifle Club da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Professora de francês na University of Cape Town, Schmid descobriu o esporte há seis anos, por influência do pai, que pratica tiro há décadas. “Praticando tiro, eu compartilho com ele uma tradição tipicamente suíça”.

pessoas que disparam
Prova dos 300 metros: Karin Schmid dispara com a carabina sob a supervisão de um especialista do campo de tiro. Dirk Frischknecht

A cada cinco anos, a Festa Federal de TiroLink externo celebra essa tradição. “O tiro está profundamente enraizado na Suíça”, explica Carl Frischknecht, secretário-geral do comitê organizador. “Seria uma pena não permitir que pessoas que vivem fora das fronteiras nacionais participem desse evento. Com cerca de 36 mil participantes, essa é a maior festa de tiro do mundo”.

Muitos suíços e suíças do exterior atenderam ao convite do comitê organizador. Cerca de 130 pessoas se inscreveram na competição de tiro de 300 metros, disputada tanto individualmenteLink externo quanto em equipesLink externo. Entre os clubes presentes estão a Société suisse de tir de Bruxelles, os München Schweizer Schützen, a Fürstentum Liechtenstein Schweizer Schiess-Sektion, os Tireurs suisses de LyonLink externo, a Société suisse de tir de Paris, a Schützensektion der NHG HollandLink externo, a Los Angeles Swiss Athletic Society, o Minneapolis Swiss Rifle Club, o Swiss Rifles of Washington, D.C., a Swiss Canadian Mountain Range AssociationLink externo, o Monterey County Swiss Rifle ClubLink externo, da Califórnia, o Cape Town Swiss Rifle ClubLink externo e o Johannesburg Swiss Rifle ClubLink externo.

Os clubes de tiro, um pedaço da Suíça no exterior

De Hong Kong ao Canadá, passando pelos Estados Unidos e pela Nova Zelândia, a tradição suíça do tiro acompanha quem deixou o país. “No século 19, muitos suíços emigraram e, nos países onde se estabeleceram, fundaram clubes de tiro para recriar um pedaço da Suíça no exterior”, relata Cedric Zbinden, historiador e pesquisador do Museu Suíço do Tiro. “Eram lugares onde podiam continuar falando sua língua e manter vivas as tradições de sua terra natal”.

Hoje, existem cerca de trinta clubes de tiro no exterior. O número de membros, porém, vem caindo continuamente, segundo um relatório do exército suíço de maio de 2023Link externo. Eram pouco mais de 900 em 2013, contra menos de 600 em 2022.

Uma queda que pode se acelerar por conta de uma decisão do Departamento Federal de DefesaLink externo. Em janeiro de 2020, a então ministra da Defesa, Viola Amherd, decidiu que o exército suíço deixaria de fornecer munição às sociedades de tiro no exterior, por razões de organização e segurança.

Durante décadas, as sociedades de tiro suíças no exteriorLink externo receberam o mesmo apoio que os clubes na Suíça. Reconhecidas pelo Departamento Federal de Defesa (DDPS), podiam receber armas emprestadas e comprar munição do exército para seus programas obrigatórios e suas competições. Em 2018, as 31 sociedades reconhecidas encomendaram cerca de 30 mil francos em munição, destinada a cerca de mil atiradores e atiradoras.

Em janeiro de 2020, porém, o DDPS decidiu encerrar essas exportações. A conselheira federal Viola Amherd [que fazia parte do conselho de sete ministros que compõem o Executivo Federal] justificou a decisão por razões de segurança, além de uma carga administrativa considerada desproporcional.

No exterior, Berna não tem como controlar o transporte, o armazenamento, os estandes ou as operações de tiro. Os clubes podem continuar suas atividades, mas agora precisam comprar a munição diretamente do fornecedor, a empresa RUAG.

Thomas Bader, do Minneapolis Swiss Rifle Club, não acha que será um grande problema. “Estamos estudando algumas alternativas”, diz o homem de 58 anos, que voltou para os Estados Unidos em 2003, após ter estudado culinária na Suíça. “No futuro, vai ficar mais complicado conseguir munição, mas o mercado americano oferece produtos equivalentes aos suíços. Por ora, temos um estoque bem abastecido”, conclui, sorrindo.

Na Cidade do Cabo, a preocupação é maior. “Os custos da munição correm o risco de ficar proibitivos”, teme Dierk Lüthi, presidente do Cape Town Swiss Rifle Club. “O transporte, as taxas alfandegárias e uma taxa de câmbio desfavorável pesam bastante no preço”, lamenta Lüthi, que é neto do célebre pintor sobre vidro Albert Lüthi, autor dos brasões cantonais que decoram a cúpula do Palácio Federal.

De Vancouver à Bregaglia, o tiro aproxima

No estande de tiro de Rossboden, a competição por equipes continua: cinco tiros de teste, seis tiros individuais e depois quatro em série. Entre os atiradores está Alexander Loeffler, integrante da grande delegação da Swiss Canadian Mountain Range Association.

“Para nós, é mais do que um clube de tiro, é uma grande família”, afirma o morador de Vancouver. Ele veio para a cidade de Coira com a esposa e as duas filhas. A família percorreu mais de 8.400 quilômetros para participar da Festa Federal de Tiro.

“Nossa sociedade tem cerca de 130 membros”, explica sua mulher, Rachel. “O coração da comunidade é um chalé construído nos anos 1970. Lá organizamos eventos com frequência, como a festa nacional suíça, torneios de jass [jogo de cartas tradicional da Suíça] ou a Santa Claus party”.

pessoas a posar
A família Loeffler, membro da Swiss Canadian Mountain Range Association, vinda de Vancouver, posa em frente ao campo de tiro de Rossboden. Esta é a primeira viagem à Suíça das filhas de Alexander e Rachel. Dirk Frischknecht

“É minha primeira viagem à Suíça, um país que acho maravilhoso”, continua a filha do casal, de 16 anos. “Meu avô era de Winterthur [cantão de Zurique], e o laço com a terra dele passa sobretudo pela comida. Cozinheiro de profissão, ele sempre nos presenteia com especialidades de seu país”.

A viagem da família Loeffler e da delegação de Vancouver não se encerra em Coira: ela continuará rumo ao sul do cantão. Eles foram convidados pela Società cacciatori Bregaglia para passar quatro dias neste vale dos Grisões.

Foi Attilio Tam quem organizou a excursão. “Numa viagem ao Canadá, conheci suíços do exterior que me fizeram sentir em casa. Há anos eu queria devolver essa hospitalidade, mas a oportunidade ainda não tinha surgido”, conta Tam, responsável pelos cursos para jovens atiradores na Bregaglia. “O programa inclui uma visita à barragem de Albigna, às fortificações de Maloja e a Soglio, além de uma competição de tiro com o clube local. A visita vai terminar com um jantar, no qual serviremos javali grelhado”.

Quando o tiro aproxima pessoas

Karin Schmid, da Cidade do Cabo, também está convencida de que o tiro une pessoas além das fronteiras nacionais. Os membros do Swiss Rifle Club passaram uma noite com a seção de tiro de Felsberg, outro vilarejo do cantão dos Grisões a cerca de seis quilômetros de Coira. “Eles nos convidaram para participar de uma competição amistosa no estande deles. O encontro terminou com uma fondue de queijo”.

O Swiss Rifle Club Cape Town nasceu em 1949, em parte graças a uma iniciativa vinda da Suíça. Em 26 de junho daquele ano, o Swiss Club da Cidade do Cabo recebeu uma carta da Rádio Suíça de Ondas Curtas, antecessora da Swissinfo, convidando a comunidade suíça no exterior a participar de uma competição ligada à Festa Federal de Tiro. No Cabo, não havia estande de tiro, nem fuzis, nem munição – mas o entusiasmo foi suficiente: 27 atiradores se reuniram no estande de tiro de Woltemade. Foi dessa experiência que nasceu o Swiss Rifle Club Cape TownLink externo.

A confraternização também é central para os suíços e suíças do exterior. Depois da competição por equipes da manhã, atiradores e atiradoras se reúnem no galpão principal do evento. No palco, uma banda acompanha a refeição com músicas folclóricas, que se misturam ao burburinho das conversas em alemão, francês e inglês. No cardápio, uma refeição tradicional: macarrão alpino [com queijo e batata] com purê de maçã.

Valérie Page faz parte do clube Schützensektion der NHG Holland. “Nos encontramos duas vezes por mês no estande”, conta ela, destacando que compartilha essa paixão com o marido irlandês. Em casa, falam inglês, holandês e suíço-alemão, para que os filhos mantenham um laço com os países de origem dos pais.

“Hoje, na Festa Federal de Tiro, percebi que essa tradição bem suíça se perpetua em quase todo canto do mundo”, conclui. “Mesmo sendo pequena, nossa seção faz parte de uma comunidade muito maior, espalhada pelos quatro cantos do planeta”.

Veja como foi a Festa Federal de Tiro em nosso vídeo:

Texte original en italien relu et vérifié par Daniele Mariani, version française adaptée et vérifiée par Pauline Turuban

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR