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Digitalizando a faxina em casa

Andreas Schollin-Borg posa ao lado do Batman no escritório em Lausanne. A figura do super-herói de histórias em quadrinho que lhe inspirou na hora de batizar a startup. swissinfo.ch

Três cliques e a tão esperada ajuda para fazer a faxina aparece na porta de casa. Essa é a promessa de uma startup criada há apenas seis anos, mas que hoje já dá trabalho a duas mil pessoas na Suíça. As críticas de "uberização" foram respondidas pela mudança de estratégia.

Este conteúdo foi publicado em 20. janeiro 2021 - 10:00

Uma semana de trabalho passou. O apartamento está um caos, o pó acumula-se por todos os lados e a cozinha, engordurada. No banheiro, as roupas se empilham em um canto e o chão está repleto de manchas e cabelos. Acordar no sábado pela manhã pode ser um pesadelo para muitos, a não ser que chamem a Batmaid.chLink externo.

Fundada em 2014 por Andreas Schollin-Borg e Éric Laudet, o nome da startup foi inspirado no super-herói de histórias em quadrinhos, Batman. A ideia surgiu quando Andreas vivia em Nova Iorque e teve a necessidade de limpar com rapidez o apartamento que ocupava. Então procurou ajuda no site handy.com. A faxineira apareceu logo depois, mas levou tempo para acreditar que funcionaria. "Não gastei mais de um minuto para fazer o pedido, mas tinha receio de deixar um estranho entrar. Então fiquei por lá para ver se tudo funcionava."

Quando retornou à Suíça, trouxe consigo a ideia. Até então, a forma mais comuns para encontrar ajuda nos trabalhos domésticos era pregando anúncios no supermercado ou nos jornais, uma forma com seus inconvenientes. "Você não sabia se a pessoa viria, se poderia confiar nela ou até se faria o serviço", lembra-se. Então percebeu o potencial de mercado e decidiu abrir o próprio negócio. Porém no início, a desconfiança dos investidores era grande. "Nenhum banco queria nos emprestar dinheiro. Achavam que o negócio não daria certo". 

Por fim os dois jovens empresários investiram suas próprias economias e iniciaram as operações inicialmente em Lausanne e Genebra. Ao longo dos anos, expandiram-se para outras capitais suíças. Hoje a empresa ocupa 85 funcionários, trabalhando em três escritórios na Suíça e um em Luxemburgo, aberto há dois anos, e um grupo de informáticos trabalhando em Varsóvia, Polônia, no desenvolvimento da plataforma.

Fim da precarização

Hoje Batmaid já tem uma carteira com mais de 16 mil clientes regulares na Suíça e em Luxemburgo. Ela emprega dois mil "agentes de limpeza", como denomina, dos quais, segundo a própria empresa, cinco por cento são homens. Através de marketing direto, a empresa contrata aproximadamente mil novos funcionários por mês. Diferenciando-se das empresas habituais do setor da gig-economy, a startup decidiu contratar seus agentes partir de 2021.

Até então a empresa não estava submetida às convenções coletivas de trabalhoLink externo, acordos firmados entre trabalhadores e empregadores de um setor para regular os salários e outras proteções sociais. A Batmaid era considerada apenas uma intermediadora, que conecta empregadores e empregados através de uma plataforma eletrônica. Porém os sindicatos criticavam fortemente essa condições: em 2019, a Federação de Sindicatos UniaLink externo denunciou a empresa em 2019 frente às autoridades federais e o cantão de Vaud por não respeitar o acordo coletivo da categoriaLink externo.

Finalmente a crise do Covid-19 levou os jovens empresários a mudar o sistema. "Vimos quando começou a crise do Covid-19 que os nossos agentes não tinham direito à ajuda do governo como o desemprego parcial", explica Andreas. Batmaid perguntou aos seus colaboradores se gostariam de mudar de regime contratual. "Aproximadamente 80% deles disseram que estavam interessados em ter um contrato de trabalho, mas continuando a oferecer seus serviços através do site. Porém 20 por cento preferiu continuar a trabalhar unicamente através da plataforma Batwork."

Além da vantagem de estar assegurado, o novo sistema também dá mais proteção aos agentes. Até então, se este trabalhasse para um cliente e não fosse pago, teria de processá-lo às suas custas. Ele também pode recusar de trabalhar para alguém caso tenha tido uma má experiência. 

Para contratar os serviços de um agente de limpeza, o cliente deve visitar o site da Batmaid e dizer onde vive. Então escolher quantas horas durará o serviço - o mínimo é de duas - e incluir tarefas adicionais como limpeza de janela, passar roupas, lavagem de roupa ou até da geladeira. O cliente paga 39 francos por hora. Desta soma desconta-se encargos sociais (aposentadoria, seguro-desemprego), imposto de circulação de mercadoria (chamado TVA na Suíça), taxas do cartão de crédito e remuneração para a Batmaid. 

Rosângela Forte posa frente ao cartaz onde aparece com a tenista suíça Martina Hingis em uma campanha publicitária da Badmaid. swissinfo.ch

Rosângela Forte, 57 anos, é uma das agentes de limpeza da Batmaid. Originária da cidade de Santos, no estado de São Paulo, a brasileira já vive há 26 anos na Suíça. Desde que chegou, já fez todos os tipos de trabalho, de babá até enfermeira caseira. Porém está satisfeita desde quando entrou para os quadros da Batmaid em 2017. "Tenho liberdade e flexibilidade nesse trabalho. Com isso ajudo no orçamento familiar", conta a mãe de dois filhos já crescidos. Questionada pela swissinfo.ch, afirma que tem uma renda média mensal de CHF 1.250, obtidas através de 10 limpezas que faz aproximadamente por mês. "Porém há meses em que limpo até 15 casas no mês, melhorando um pouco mais a renda". Seu salário varia de acordo com diferentes fatores, dentre eles a disposição de trabalhar um certo número de horas por mês.

80% das faxinas são ilegais

Encontrada na sede da Batmaid em Lausanne durante a entrevista, Rosângela aponta também o cartaz publicitário da empresa, veiculado em todo o país. Nele, a brasileira aparece como garota-propaganda ao lado da tenista suíça Martina Hingis, ganhadora de 25 títulos de Grand Slam em simples e duplas. No comercial de televisãoLink externo, a brasileira aparece limpando os troféus da atleta. "Todos precisamos de heróis. Como Martina Hingis, reserve você também a sua profissional da limpeza, assegurada e declarada", diz a voz em off. 

Para o cofundador da empresa, o comercial passa sua principal mensagem. "Meu objetivo é combater o trabalho ilegal", afirma Andreas, ressaltando que o mercado movimenta aproximadamente um bilhão de francos suíços, mas que 80% dos serviços prestados são irregulares, ou seja, as faxineiras e faxineiros são ocupados ilegalmente, sem declarar às autoridades. Após a decisão de contratar a maioria dos agentes, Batmaid contratou mais 15 funcionários para entrevistar os candidatos ao trabalho, avaliar seus currículos e se averiguar que exigências como a nacionalidade suíça ou um visto de residência no país fossem cumpridos. "Já fazíamos o controle de segurança e experiência dos nossos funcionários, mas agora precisamos explicar as condições do contrato de trabalho e cumprir todos os trâmites como recolhimento de impostos e contribuições sociais", completa.

Apesar de deter cinco por cento do mercado de limpeza doméstica na Suíça e em Luxemburgo, um mercado que, segundo declaração própria é disputado por pouco mais de três mil empresas, a startup suíça ainda não dá lucro. Desde que foi criada, já recebeu capital de investidores como a seguradora suíça Bâloise. Porém, até então, a prioridade foi a expansão da empresa. "Esperamos em 2021 a ter os primeiros resultados positivos, mas sem muita certeza pois estamos em plena crise da pandemia, o que nos traz muitas dificuldades", diz Andreas. 

Gig-Economy - o que é?

São formas de emprego alternativo, onde os empregados são considerados como trabalhadores independentes, sem contrato de trabalho. Seus serviços são oferecidos através de plataformas online e a remuneração é dada pelos serviços prestados. Exemplos de plataformas que pertencem à gig-economy : AirBnb (locação de moradias), Uber (transporte), Eat (entrega de refeições), Batmaid (intermediação de pessoal de limpeza) e outras. 

Segundo o Departamento Federal de Estatísticas (BFS, na sigla em alemão), aproximadamente 116 mil pessoas na Suíça trabalhavam em 2019 em plataformas da gig-economy. Três quartos o faziam de forma irregular. 

Uma pesquisa publicada pelo canal de televisão CNNLink externo indicava que, em 2017, a gig economy já representava 34% da força de trabalho nos Estados Unidos. Em 2020, esta proporção passaria a 43%. 

Fonte: dadosLink externo do Depto. Federal de Estatísticas (BFS)

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