Alta montanha investe em infraestrutura para manter esqui
Com invernos mais imprevisíveis, estações de esqui na Suíça tentam reinventar o turismo para sobreviver. Sob risco de venda a investidores estrangeiros, algumas foram assumidas por municípios. O que está em jogo?
1. Mudança de proprietário
As pistas de esqui geralmente pertencem às empresas de teleféricos na Suíça, das quais os municípios frequentemente têm participação, mas sem o controle majoritário. As comunas (municípios) de Flims, Laax e Falera chamaram a atenção no outono de 2025 ao comprarem sua área de esqui “Weisse Arena” (Arena Branca, em tradução livre). Os habitantes dos três municípios decidiram nas urnas (ou em assembleia municipal), com grande aprovação, assumirLink externo toda a área por 94,5 milhões de francos.
Com esse passo, eles querem evitar que a “Weisse Arena” caia nas mãos de investidores estrangeiros. Estes prometemLink externo investir milhões no futuro. Porém, os atores locais perdem seu poder de participação nas decisões.
Com a Vail Resorts, dos Estados Unidos, a maior operadora de pistas de esqui do mundo estendeu seu interesse para os Alpes. A Vail Resorts já assumiuLink externo os teleféricos de Crans-Montana e Andermatt-Sedrun. Seu interesse frequentemente se volta a locais com potencial de expansão, onde teleféricos, hospedagem e ofertas de lazer podem ser agrupados em resorts completos.
Com os novos investidores, as regiões de montanha se transformam, como em Andermatt. Lá, o investidor egípcio Samih Sawiris molda o desenvolvimento turístico e até criou um novo centroLink externo na vila. Em Saas Fee, a família austríaca Schröcknadel detémLink externo a maioria da área de esqui, bem como vários imóveis.
Mas, assim como na “Weisse Arena”, outras áreas de esqui suíças também resistem às aquisições estrangeiras, por exemplo os teleféricos de Lenzerheide, que apostam em um conceito com mais de 3.500 acionistas, no qual o município detém quase metade das participações.
2. Áreas de esqui em altitudes mais elevadas ampliam sua infraestrutura
Para que uma pista possa ser preparada e operada de forma rentável, a camada de neve precisa ter 30 centímetros de espessura durante 100 dias: essa é uma regra prática. Uma nova ferramenta, a Kompass SchneeLink externo, ajuda as áreas de esqui a determinar se no futuro ainda disporão de uma camada de neve como essa.
O instrumento desenvolvido pela Associação Suíça de TeleféricosLink externo e pela Organização do Turismo SuíçoLink externo (Suíça Turismo), em parceria com o Instituto de Pesquisa de Neve e Avalanches, a Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH) e a MeteoSuisse, cria prognósticos científicos para as pistas do futuro. Na ferramenta, torna-se visível que a temporada de inverno em certas altitudes será drasticamente encurtada.
O que os desenvolvedores da ferramenta também mostram: teleféricos e as respectivas localidades de esportes de inverno continuam fortemente dependentes do negócio de inverno. O inverno continua atraindo hóspedes de forma confiável, e é na estação fria que se ganha mais dinheiro. A consequência: quem ainda terá neve no futuro, investe.
Áreas de esqui em grandes altitudes substituem teleféricos antigos por instalações modernas e renovam restaurantes. Saas Fee renovou o funicular mais alto do mundo até o Mittelallalin, a quase 3.500 m acima do nível do mar. O teleférico para Mürren, no Oberland bernês, foi modernizado por 130 milhões de francos, e na área de esqui Flims Laax Falera foram investidos 80 milhões de francos em novas gôndolas. O jornal Berner Zeitung fala de uma “corrida nas montanhasLink externo“.
Veja abaixo como funciona o “Kompass Schnee”…
3. Trabalho em conjunto de áreas de esqui
Onde é possível, áreas de esqui suíças se unem para viabilizar os investimentos em conjunto. As maiores e mais interligadas oferecem aos praticantes de esportes de inverno mais quilômetros de pistas, opções de alimentação e programação complementar.
Os operadores podem dividir os custos e organizar conjuntamente sua presença e o sistema de bilhetes. Regiões de esqui interligadas conhecidas são, por exemplo, Arosa-Lenzerheide, nos Grisões, ou Les Portes du Soleil, no Valais. Nesta última, é possível inclusive esquiar atravessando a fronteira para a França.
Na mais recente união, os pontos de partida das áreas de esqui situam-se em três vales diferentes, em dois cantões: no outono de 2018 foi concluídaLink externo a área de esqui Andermatt-Sedrun, e meio ano depois Disentis se juntou a ela. Para a ligação pelo passo de Oberalp, foram construídos novos teleféricos e restaurantes em grande altitude. Também houve investimentos em snowfarming e em neve artificial. Os operadores norte-americanos prometem uma temporada de esqui de sete meses.
4. Apostam em atividades que precisam de menos neve
“Todo mundo esquia” é um sucesso popularLink externo suíço dos anos 1960. Ainda hoje a Suíça é uma nação de esqui. 62% dos suíços entre 14 e 70 anos praticam esportes de inverno, conforme registra uma análiseLink externo. Essa proporção teria permanecido constante nos últimos anos. Para as áreas de esqui, porém, é vantajoso que os hóspedes não se detenham apenas às pistas de esqui.
Especialmente em altitudes mais baixas, as regiões de esqui tentam criar ofertasLink externo além do esporte de inverno alpino, que exigem menos neve e menos manutenção dispendiosa. Assim, algumas áreas se especializaram em caminhadas com raquetes de neve ou caminhadas de inverno. Como, por exemplo, a Stockhornbahn, perto de Thun, que abandonou completamente o turismo de esqui.
O mesmo vale para o Monte Tamaro (cantão do Ticino), ou para a região Les Paccots (Friburgo). Com um turismo mais suave, essas regiões apostam em hóspedes que viajam para se manter longe do agito, e também se dirigem a grupos como pessoas idosas, hóspedes estrangeiros ou pessoas sem experiência em esqui.
Embora o negócio de inverno seja o mais lucrativo, destinos de montanha e associações de turismo tentam atrair turistas durante todo o ano. Eles apostam em retiros de yoga, férias de mountain bike ou polos gastronômicos. O aquecimento do clima é uma maldição para o inverno, mas o outono recebeu um melhoramento.
Em comerciais, a Suíça Turismo promoveLink externo mundialmente o outono na Suíça com celebridades como Roger Federer e Halle Berry. Férias de caminhada agora são possíveis até novembro, depois a temporada de esqui começa de forma contínua. Porém, para poder receber hóspedes também no outono, hotéis e teleféricos precisam abrir mão de uma pausaLink externo.
Outra solução é revirar completamente as estações. Devido à falta de neve, a área de esqui de Atzmännig, no cantão de St. Gallen, mudou para operação de verãoLink externo no inverno. Financeiramente, porém, isso não compensa.
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5. Encerrando as atividades
A maioria das áreas de esqui mencionadas neste artigo é grande e se estende bem acima do limite crítico de 1.600 metros acima do nível do mar. Aqui vale a pena investir no futuro. Abaixo disso, a situação é diferente.
Por causa da falta crônica de neve, dezenas de áreas de esqui na Suíça encerraram as atividades; outras estão prestes a fazê-lo. Em muitos casos trata-se do teleférico do povoado, que antes operava regularmente e hoje geralmente permanece sobre um gramado verde. O portal Watson contaLink externo 167 áreas de esqui que encerraram as atividades.
Após o fechamento surge o problema da desmontagem da infraestrutura. Isso geralmente custa grandes somas – que muitas vezes ninguém quer ou pode assumir. Em todo o país, dezenas de teleféricos de esqui abandonadosLink externo enferrujam.
Mas até mesmo no Planalto suíço ainda existem alguns teleféricos que, quando neva, permitem rapidamente algumas horas de diversão de esqui. Como em Seon, no cantão da Argóvia, onde em janeiro de 2026 foi realizada até uma corrida de esquiLink externo, depois 30 anos de pausa.
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Edição: Balz Rigendinger
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
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