Como as farmacêuticas negociaram com Trump
Acordos bilionários entre a indústria farmacêutica e a Casa Branca foram anunciados como transformadores, mas análises indicam impacto limitado; nesse cenário, Novartis e Roche ampliam sua presença nos EUA.
No dia 10 de outubro, a Casa Branca anunciou um acordo entre os Estados Unidos e a gigante farmacêutica britânica AstraZeneca, que incluía um investimento de 50 bilhões de dólares nos EUA e a criação de 3.600 empregos. O comunicado à imprensa também mencionava preços com desconto para pacientes estadunidenses e um inalador para asma que seria vendido com um “desconto equivalente a 654%”.
A declaração não continha muitos detalhes. O novo preço do inalador não foi revelado, nem quanto os consumidores nos EUA passariam a pagar pelos medicamentos da AstraZeneca. Um comunicado da própria empresa mencionou apenas descontos de até 80%.
A negociação foi concluída dez dias após um acordo semelhante com a farmacêutica estadunidense Pfizer, sendo seguido por uma enxurrada de releases à imprensa feitos por nove executivos das maiores empresas farmacêuticas do mundo, durante uma visita à Casa Branca no dia 19 de dezembro.
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Suíça escapa de tarifas pesadas com acordo bilionário com os EUA
Os diretores-executivos que representam as gigantes farmacêuticas suíças Novartis e Roche, por meio de sua subsidiária Genentech, estavam presentes na sala quando o presidente Donald Trump declarou: “Esta é a maior mudança já ocorrida em relação aos preços dos medicamentos e ao setor da saúde”.
Mas será que é isso mesmo?
Os detalhes das negociações que inundaram as notícias no ano passado são confidenciais, o que é usual quando se trata de investimentos tão grandes. Nos bastidores, há quem digaLink externo, porém, que as empresas farmacêuticas aceitaram enormes concessões aos EUA, incluindo preços baixos para novos medicamentos a serem lançados no mercado interno – o que poderia afetar os preços em outros países.
A Swissinfo analisou os comunicados à imprensa, os planos de investimento, os preços de medicamentos, os faturamentos das empresas e a evolução da indústria farmacêutica suíça, a fim de compreender a história por trás dessas manchetes.
Qual a dimensão dos investimentos dos EUA?
Em abril de 2025, a Novartis e a Roche estiveram entre as primeiras empresas do setor farmacêutico a anunciar grandes investimentos nos EUA, com um capital total de 73 bilhões de dólares nos próximos cinco anos. Isso mais pareceu uma tentativa de conquistar o governo dos EUA e evitar tarifas. A título de comparação: em toda a última década, a Roche investiu 63 bilhões de dólares nos EUA e 66 bilhões de francos na Europa, dos quais 40 bilhões de francos suíços somente na Suíça.
As empresas geralmente concordam de início com os planos através uma carta de intenção não vinculativa, antes que um contrato formal seja finalizado. Os termos e as condições podem diferir entre os documentos.
Uma análise mais detalhada mostra que alguns investimentos estão alinhados com anúncios anteriores das mesmas empresas farmacêuticas. De acordo com o comunicadoLink externo de imprensa da Roche feito em abril, um investimento de 50 bilhões de dólares, por exemplo, poderia levar à criação de mil empregos nos EUA. O que não fica claro na declaração publicada em abril é se metade desses empregos incluiria aqueles que a empresa havia anunciadoLink externo um mês antes, relacionados à expansão de um centro de inovação na Universidade de Harvard.
De forma semelhante, o anúncioLink externo da Novartis de abril mencionava também investimentos em dez localidades dos EUA, incluindo um novo centro de inovação e nove instalações de fábrica. A expansão de três desses pontos já havia sido apresentadaLink externo em 2024.
O que fica claro nas declarações posteriores das duas empresas é que os investimentos estão prosseguindo. As duas empresas receberam aprovações oficiais, assinaram contratos de locação com imobiliárias e deram início às obras. Em janeiro de 2026, o diretor-executivo da Roche, Thomas Schinecker, afirmou que pretendia aumentar a participação estadunidense no investimento global para 50% e confirmou que sua empresa havia assinado um contrato com os EUA. Schinecker não revelou se esse acordo que isenta a Roche de tarifas por três anos havia também formalizado o compromisso de investimento.
Qual o impacto nos preços dos medicamentos nos EUA?
A Swissinfo examinou também o potencial impacto dos acordos sobre os preços dos medicamentos nos EUA (se já caíram ou ainda vão cair), conforme descrito no “Grande Plano de SaúdeLink externo” de Donald Trump.
No início de fevereiro de 2026, os EUA lançaram o TrumpRxLink externo, um site federal que o consumidor pode acessar diretamente (DTC, direct-to-consumer) e que pretende listar os preços mais baixos de medicamentos de referência vendidos sob prescrição nos EUA. Por enquanto, 43 medicamentos estão disponíveis no site, mas, de acordo com os acordos entre as farmacêuticas e os EUA, vários outros tratamentos serão incluídos, entre estes o Mayzent, da Novartis, para esclerose múltipla, que será vendido por 1.137 dólares em vez do preço de tabela de 9.987 dólares; e o Xofluza, da Genentech, para gripe, que passaria a custar 50 dólares em vez de 168 dólares.
Isso significa que, em tese, a Novartis e a Roche irão vender medicamentos a um preço mais baixo do que aquele que os pacientes pagam atualmente. No entanto, esses números são enganosos, pois a maioria dos medicamentos é vendida com descontos consideráveis e não pelos preços de tabela disponíveis ao público.
Quando um medicamento é fabricado, a empresa responsável leva em consideração vários critérios e propõe um preço para o produto. Esse é o valor de tabela divulgado publicamente. O preço real de um medicamento, que é pago pelos distribuidores, é decidido a portas fechadas. Na Europa, as autoridades nacionais negociam com os fabricantes, para obter o melhor preço possível para todo o país. Nos Estados Unidos, onde o sistema não é centralizado, as seguradoras e os intermediários negociam individualmente com as empresas farmacêuticas. Na Suíça, os preços dos medicamentos estão se tornando cada vez mais sigilosos e, globalmente, os preços líquidos vêm sendo mantidos propositalmente em segredo pelas empresas, a fim de evitar que os países negociem o menor valor.
O TrumpRx está disponível para qualquer pessoa nos EUA, mas é mais atraente para quem não tem plano de saúde (cerca de 8 a 10% da população), de acordo com especialistas. Além disso, a maioria dos medicamentos listados tem versões genéricas mais acessíveis, como constatadoLink externo pela Stat News. A plataforma vai passar a incluir apenas medicamentos que não requerem supervisão médica, deixando de fora tratamentos mais caros, como a imunoterapia.
Além dos acordos de venda direta ao consumidor, releases de imprensa de empresas e do governo dos EUA também indicam que os preços dos medicamentos inovadores recém-lançados seriam alinhados ao preço da Nação Mais Favorecida (MFN, na sigla em inglês) – um princípio fundamental do comércio internacional. De acordo com o MFN, os preços dos medicamentos de marca nos EUA passariam a ser os mesmos daqueles de um país de alta renda comparável (como a Suíça). Isso representaria uma mudança substancial em relação aos preços atuais.
Não está claro, contudo, se os estadunidenses com seguro privado, que representam a maior fatia do mercado no país, se beneficiariam desses preços. Por enquanto, a medida pode ser aplicada apenas a pacientes assegurados por planos de saúde governamentais, que são voltados para idosos e pessoas de baixa renda. Os pacientes com esse tipo de seguro já pagam pouco por seus medicamentos, de forma que especialistas não esperam um efeito significativo da política MFN sobre os preços pagos pela população do país como um todo.
Qual o impacto sobre a indústria farmacêutica?
Excluindo os medicamentos para perda de peso (agonistas do receptor de GLP-1), que estão se tornando um setor à parte, os acordos DTC têm o potencial de economizar aproximadamente 2 bilhões de dólares no mercado farmacêutico dos EUA. Isso representa menos de 0,3% do mercado, estimado em 700 bilhões de dólares, de acordo com uma pesquisaLink externo do grupo Internationale Nederlanden Groep (ING).
Mesmo assim, as empresas farmacêuticas não vão arcar com a diferença. Em vez disso, as economias serão obtidas às custas dos gestores de benefícios farmacêuticos (PBMs, na sigla em inglês) –intermediários específicos, que, segundo estudos, negociam preços com os fabricantes nos EUA e distribuem medicamentos às farmácias. De acordo com uma pesquisa do Berkeley Research Group, 50 centavos de cada dólar gasto em medicamentos de marca nos EUA vão para uma parte que não esteve envolvida na pesquisa nem na fabricação do medicamento; os PBMs recebem metade do valor que não vai para os fabricantes de medicamentos.
Os produtos que os fabricantes de medicamentos concordaram em oferecer por meio das plataformas diretas ao consumidor não são os mais populares, portanto, o impacto nos lucros será insignificante. Entre os três medicamentos que a Novartis afirma que disponibilizará (Mayzent, Rydapt e Tabrecta), nenhum deles jamais figurou entre os 20 produtos mais vendidos da empresa.
“Reconhecemos que não seja viável disponibilizar todos os medicamentos diretamente aos pacientes. Muitos deles, por exemplo, precisam ser administrados dentro de um hospital ou de um consultório médico. Esse foi um fator fundamental para determinar quais dos nossos medicamentos estariam disponíveis através da TrumpRx”, disse um representante da Novartis à Swissinfo.
Não foi explicado, porém, por que a empresa escolheu o Mayzent em vez do Kesimpta, uma injeção subcutânea autoadministrada que também trata a esclerose múltipla, mesmo que de maneira diferente. O Kesimpta foi o terceiro medicamento mais vendido da Novartis em 2025, depois do comprimido para insuficiência cardíaca Entresto e da caneta de autoinjeção para psoríase Cosentyx – que também não será vendida diretamente aos consumidores nos EUA.
Ainda não está claro como as empresas irão implementar a parte do acordo relacionada ao critério MFN. Isso vai depender de como os países MFN, como a Suíça, decidirão fixar os preços dos futuros medicamentos. As empresas poderiam, por exemplo, estipular preços elevados nos EUA e exigir que outros mercados se alinhem a esses valores, correndo risco de perder completamente a comercialização do medicamento nesses mercados. Em 2025, a Roche criou um precedente, ao retirar seu mais recente tratamento contra o câncer, o Lunsumio, da lista suíça de medicamentos reembolsáveis, devido a divergências de preço com a autoridade nacional.
Segundo especialistas, no futuro, isso poderá se tornar cada vez mais frequente.
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Roche e Novartis batem recordes, mas alertam sobre competitividade
Em sua teleconferência de resultados de 2025, a Novartis indicou que aspirava lançar seus medicamentos mais inovadores, incluindo o medicamento autoimune Ianalumab, em todos os mercados em 2027, mas que isso “certamente não afetaria negativamente o mercado dos EUA”.
Embora os EUA sejam o maior mercado das empresas farmacêuticas e seja esperado que uma queda nos preços dentro do país prejudique as vendas e os lucros, os investidores não parecem preocupados. A Novartis e a Roche reportaram lucros excepcionais em 2025 e, embora chamem a atenção para um possível impacto adverso no quesito preços (tanto nos EUA quanto na Europa), esperam que as vendas líquidas em 2026 cresçam entre 1% e 5%. Especialistas afirmam que a perspectiva positiva se deve à certeza das isenções tarifárias nos próximos três anos e ao fato de que, por enquanto, as reduções nos preços dos medicamentos são mínimas.
“É muito difícil determinar qual foi o impacto dessas negociações, mas, se você observa a resposta dos mercados de ações a esses acordos, de modo geral, ela tem sido bastante positiva”, afirmou Diederik Stadig, economista especializado em saúde do ING.
Edição: Virginie Mangin/sb/jdp
Adaptação: Soraia Vilela
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