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Este ano será de desafios para os sindicatos

Cerca de 200 mil pessoas devem ficar desempregadas na Suíça em 2010. Keystone

A crise econômica provocada pelo setor financeiro não poupou a Suíça e os assalariados não deverão novamente pagar a conta.

A opinião é da União Sindical Suíça, que denuncia novos cortes nos seguros sociais e pede a introdução de um imposto sobre os bônus dos executivos.

“A Suíça presencia como nunca uma ofensiva conjunta dos partidos burgueses contra o Estado social”, declara Paul Rechsteiner, presidente da União Sindical Suíça (USS), maior central sindical do país, durante uma entrevista coletiva à imprensa em Berna, capital suíça.

E justamente nessa época de recessão, esses partidos pretendem desmantelar o seguro-desemprego, diz Rechsteiner. No entanto, a crise econômica atual “não foi provocada pelos desempregados, mas pelos excessos do setor financeiro”, o mesmo que “apoia e financia os partidos burgueses”. Os partidos de centro e de direita na Suíça são frequentemente chamados “partidos burgueses”.

Em 2010, a taxa de desemprego deverá ultrapassar 5% em média nacional, atingindo mais de 200 mil pessoas. No entanto, acrescenta o presidente da USS, os partido de centro-direita pretendem fazer novos cortes na área social, penalizando os que mais sofrem com a crise, ou seja, os jovens e os assalariados com idade avançada.

Seguridade social na mira

Segundo os sindicatos, o que está mais ameaçado é sistema de aposentadoria mínima, chamado seguro-velhice e de sobreviventes (AVS). A revisão do AVS, que será debatida este ano no Parlamento, prevê diminuir a reposição da inflação para as pensões dos aposentados e um aumento da idade de aposentadoria para as mulheres, sem qualquer medida compensatória para os aposentados menos favorecidos.

Os inválidos também devem ser atingidos pelo desmantelamento progressivo do Estado social, afirma Colette Nova, secretária-geral da USS. O seguro-invalidez (AI) já foi reduzido em 2007 e a nova revisão visa limitar ainda mais o número de inválidos aposentados.

Ainda são visados pelos partidos burgueses o seguro contra acidentes que, ao contrário do AVS e do AI, não é deficitário. Segundo as novas propostas de revisão submetidas este ano ao Parlamento, o benefício do seguro-acidente básico deveria ser bastante reduzido, forçando as pessoas fazerem um seguro complementar, cujos taxas mais altas favorecem as companhias de seguros.

Desafios sem precedentes

“Os conflitos ligados à política social programados para este ano representam desafios sem precedentes para os sindicatos”, afirma Paul Rechsteiner. Ele explica que não são os cortes que estão em jogo, mas “os próprios valores do Estado social em tempo de globalização que cria cada vez mais insegurança e injustiça.”

Segundo Daniel Lampart, economista da USS, a globalização sozinha não explica a piora da situação econômica e social das últimas duas décadas na Suíça. A produtividade e o estresse dos assalariados aumentam constantemente, seu poder aquisitivo diminui, enquanto os lucros do capital são cada vez maiores, em benefício dos acionistas e dos bônus pagos aos executivos.

Para este ano, o economista prevê um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) suíço de apenas 0,3%. A retomada do crescimento será contida principalmente por dois fatores: os salários estagnados, que vão frear o consumo, e a recessão em vários países europeus que pesa sobre as exportações suíças.

Imposto sobre os bônus dos executivos

Este ano será, portanto, cheio de batalhas para os sindicatos. A primeira será na votação de 7 de março sobre a Lei da Previdência Profissional (LPP).

Os sindicatos e os partidos de esquerda lançaram um referendo contra a decisão da maioria do Parlamento de reduzir a taxa de conversão dos capitais da poupança e, consequentemente, das pensões dos futuros aposentados.

A USS pretende também lutar para criar urgentemente um imposto de 50% sobre os bônus pagos aos executivos. Para a central sindical, essa taxa permitiria recolher pelo menos 2 bilhões de francos suíços por ano, que seriam redistribuídos aos salários mais baixos. Uma família de quatro pessoas receberia assim mil francos, o que permitiria aumentar o consumo em 0,5%.

“Sem esse tipo de medida e sem mudança radical da política econômica, os assalariados vão novamente suportar sozinhos as consequências da crise, enquanto os executivos e os acionistas poderão recomeçar a embolsar lucros exorbitantes”, afirma Daniel Lampart.

Armando Mombelli, swissinfo.ch
(Adaptação: Claudinê Gonçalves)

Nos anos 1980, a taxa de desemprego na Suíça era, em média, inferior a 2% (em alguns anos, inferior a 1%).

Nos últimos 20 anos, o número de desempregados aumentou progressivamente para 100 mil pessoas, ou seja, uma taxa de 3% a 5%.

Durante esse período, o número de pessoas beneficiadas pela assistência social aumentou para 150 mil, ou seja, um crescimento de mais de 100%.

O mesmo ocorreu com o número de beneficiários do seguro-invalidez (AI), que aumentou para aproximadamente 130 mil pessoas.

Criada em 1980, a União Sindical Suíça é a maior central sindical do país, com 16 sindicados afiliados e aproximadamente 380 mil trabalhadores.

Trabalho.suíça, segunda central sindical, representa 13 sindicatos e um total de 160 mil membros.

As duas centrais se dizem independentes no plano político e religioso. Mas, historicamente, a USS é próxima dos socialistas e Trabalho.suíça congrega sindicatos de inspiração cristã.

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