Fechamento de Ormuz expõe risco global e afeta Suíça
O fechamento do Estreito de Ormuz por mais de um mês, após a escalada militar envolvendo EUA, Israel e Irã, expôs fragilidades nas cadeias globais de energia e ajuda humanitária. Para a Suíça, o impacto ocorre sobretudo por seu papel central no comércio global de commodities.
As interrupções são consequência da escalada do conflito após os Estados Unidos e Israel lançarem ataques contra o Irã no final de fevereiro. Teerã respondeu com ameaças de retaliação e com ataques a embarcações no Golfo, elevando os riscos para a navegação e interrompendo, na prática, o tráfego pela estreita via marítima entre Omã e o Irã.
Os EUA e Israel continuam em guerra com o Irã. No entanto, o presidente americano Donald Trump anunciou, em 7 de abril, que suspenderia os ataques planejados contra o país por duas semanas, recuando horas antes do prazo, após alertar que “uma civilização inteira morreria”.
O cessar-fogo está condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz e ao progresso nas negociações. Teerã afirma que permitirá a passagem segura de embarcações que tenham se coordenado com suas forças armadas, reforçando seu controle contínuo sobre a região. A situação permanece volátil.
Cerca de um quinto do petróleo e do gás do mundo passa por esse ponto estratégico, juntamente com uma parcela significativa do comércio marítimo global. “Interrupções em Ormuz obrigam a um redesenho, em tempo real, dos fluxos energéticos globais, colocando as comerciantes suíças de commodities no centro dessa reconfiguração”, afirma Florence Schurch, secretária-geral da Suissenégoce, a principal associação do setor na Suíça.
O fechamento prolongado também desestruturou operações humanitárias, interrompendo o fluxo de insumos fundamentais que sustentam a produção global de alimentos e os suprimentos de socorro emergencial.
“Esta é a interrupção mais significativa nas cadeias de suprimento que vimos desde a pandemia de Covid e o início da guerra na Ucrânia”, disse Corinne Fleischer, diretora de cadeia de suprimentos do Programa Mundial de Alimentos ( (WFP, na sigla em inglês), a jornalistas em Genebra no final de março. “O que hoje é uma crise na cadeia de suprimentos se tornará uma crise de fome amanhã, à medida que as taxas do mercado local aumentarem.”
Qual é a exposição da Suíça?
As vulnerabilidades da Suíça estão menos nas importações diretas do que no seu papel de gerir os fluxos globais de mercadorias.
Como explica Schurch, “uma parcela significativa dos fluxos de petróleo e gás vinculados ao Golfo é estruturada, financiada e gerida a partir da Suíça, mesmo que as cargas nunca passem fisicamente pelo território do país”. Ela atribui a equipes de alto desempenho, que trabalham ininterruptamente, a capacidade de permitir que países na Europa e na Ásia garantam suprimentos apesar das interrupções.
O economista Peter Klimek concorda. “A Suíça tem uma exposição direta muito limitada às interrupções comerciais no Estreito de Ormuz”, afirma, citando dados de 2024. No total, a Suíça importou cerca de 14 bilhões de dólares diretamente da região do Golfo, o que representa menos de 4% de suas importações totais.
O principal fluxo foi de ouro não-monetário em estado bruto dos Emirados Árabes Unidos (EAU), totalizando cerca de 12,4 bilhões de d´ólares. Outras importações foram majoritariamente joias e bens preciosos, sendo o enxofre do Catar o principal insumo relacionado à energia.
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Quais são as consequências de um fechamento prolongado para a Suíça?
“O impacto mais imediato é a energia: preços mais altos de petróleo e gás atuariam como um imposto direto sobre as famílias, corroendo a renda real disponível e forçando uma realocação de gastos que antes seriam destinados ao consumo discricionário [gastos não essenciais]”, diz Rajeev De Mello, diretor de investimentos da Gama Asset. Se os preços elevados persistirem, o custo para reabastecer os estoques de gás e óleo de aquecimento aumentaria ainda mais a pressão.
Ao mesmo tempo, um crescimento mais fraco na Europa, principal parceiro comercial da Suíça, amplificaria o choque. Custos de energia mais altos reduziriam a demanda, pressionariam as margens das empresas e abalariam a confiança, resultando em uma desaceleração das exportações suíças, dos investimentos e da atividade econômica geral. “A Suíça não estaria imune a esse efeito de contágio”, acrescenta De Mello. “Uma demanda europeia mais fraca, a menor confiança interna e externa e um cenário de investimento corporativo mais cauteloso pesariam sobre a atividade suíça.”
Quais setores são os mais impactados?
Klimek afirma que os comerciantes de commodities são as primeiras atingidas, pois os fluxos de energia interrompidos reduzem os volumes e aumentam a volatilidade (instabilidade de preços). O aumento dos preços também eleva as exigências de colateral (garantias oferecidas em operações financeiras), criando uma pressão significativa de liquidez (disponibilidade imediata de dinheiro), mesmo que as oportunidades de negociação de curto prazo melhorem.
Os bancos seriam os segundos atingidos através do financiamento comercial, restringindo o crédito à medida que os riscos e a volatilidade das garantias aumentam. Isso cria restrições de liquidez que podem afetar os mercados físicos, reduzindo o fluxo de cargas e empurrando os preços para cima.
As seguradoras e resseguradoras (empresas que fazem o seguro das seguradoras) seriam as próximas afetadas caso os pedidos de indenização aumentem ou se o risco de navegação se tornar impossível de segurar, o que por si só poderia restringir diretamente os fluxos comerciais, como ocorreu no início da crise.
Os prêmios de risco de guerra para o transporte marítimo comercial saltaram para cerca de 0,2% a 1% do valor do casco em 48 horas, chegando a 5% ou 7,5% para embarcações com ligações com os EUA, Reino Unido ou Israel. O resultado foi o colapso do tráfego marítimo. “Os impactos na indústria e no setor farmacêutico suíços seriam majoritariamente indiretos, via preços de energia mais altos, aumento dos custos de insumos químicos e logística mais cara ou interrompida”, afirma Klimek.
Klimek ressalta que o tempo é um fator crítico. Após quatro semanas, as reservas já estão sob pressão, com sinais iniciais como paralisações temporárias na Índia. À medida que as remessas restantes chegam e os estoques se esgotam, as lacunas serão mais difíceis de preencher, mesmo que a interrupção termine. A duração dos estoques será decisiva, com empresas que possuem reservas limitadas sentindo o impacto mais cedo.
Como os comerciantes de commodities reagem?
“Essas empresas suíças estão na linha de frente para absorver o choque”, afirma Schurch. “Mas este é precisamente o papel delas: amortecer tais interrupções para o restante da economia. Gerir crises e incertezas faz parte do seu dia a dia.”
Quando as tensões aumentam no Estreito de Ormuz, as tradings priorizam a segurança das tripulações antes de passarem para medidas práticas, como o redirecionamento de remessas, a renegociação de contratos e o ajuste de estratégias de hedging (operações para proteção contra riscos de variação de preços). Essa resposta rápida ajuda a manter o fluxo de suprimentos de energia apesar dos problemas. “É o centro de comércio suíço como um todo que transforma uma crise global na busca por soluções concretas, tornando a Suíça um fator de estabilização para os mercados globais de energia”, argumenta.
A volatilidade pode criar oportunidades, mas “acima de tudo destaca o papel das tradings como gestoras de risco”, diz Schurch. Tradings sediadas na Suíça e bem capitalizadas podem absorver choques e “continuar a garantir o fluxo físico de mercadorias onde outros se retiram”.
Ainda assim, aumentos acentuados de preços pressionam a liquidez. “É uma sorte que os bancos suíços ainda tenham liquidez substancial para continuar financiando esta atividade econômica”, afirma. “Sem isso, os aumentos de preços seriam ainda mais acentuados. A confiança entre tradings e bancos é crucial em tempos de grandes interrupções.”
Como as interrupções em Ormuz afetam a ajuda humanitária?
O aumento dos preços dos combustíveis está tornando o transporte de ajuda mais caro, enquanto as interrupções logísticas estendem os prazos de entrega. De acordo com o Programa Alimentar Mundial da ONU, o bloqueio do Estreito de Ormuz atrasou 70 mil toneladas de suprimentos alimentares.
Para manter a ajuda em movimento, o WFP foi forçado a redirecionar comboios. Para chegar ao Afeganistão, onde 17 milhões de pessoas passam fome, os caminhões do programa mundial que partem dos Emirados Árabes Unidos agora contornam o Irã, passando por Arábia Saudita, Jordânia, Síria, Turquia, Azerbaijão e Turcomenistão. “Isso representa um custo adicional de cerca de mil euros por tonelada e três semanas extras”, disse Corinne Fleischer.
Em um contexto de orçamentos humanitários pressionados, o WFP teme ter que reduzir suas operações. “Se os custos sobem, o custo por beneficiário também sobe. E apoiaremos menos pessoas.”
Além do petróleo, o Estreito de Ormuz é uma passagem estratégica para o gás natural liquefeito e fertilizantes. Segundo um estudoLink externo da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) publicado em 10 de março, vários países menos desenvolvidos dependem fortemente das importações de fertilizantes do Golfo Pérsico. O Sudão importa mais de 50%, e a Somália, 30%.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicaLink externo que cerca de um quinto do gás natural liquefeito (componente fundamental dos fertilizantes nitrogenados) e até 30% dos fertilizantes comercializados mundialmente transitam pelo Estreito de Ormuz. Se a crise persistir, os preços podem subir de 15% a 20% no primeiro semestre do ano.
“Os agricultores enfrentam um duplo choque de custos: têm fertilizantes mais caros ao lado de custos de combustível crescentes que afetam toda a cadeia de valor agrícola”, disse Máximo Torero, economista-chefe da FAO, em conferência de imprensa. Esta situação pode levá-los a reduzir o uso de fertilizantes, sob o risco de diminuir as colheitas futuras.
Qual é o pior cenário se as interrupções continuarem?
Uma escalada acentuada poderia empurrar os preços do petróleo para os 150 dólares por barril e desencadear repercussões econômicas mais amplas, alerta De Mello, especialista em mercados globais. “O choque provavelmente se estenderia além de um aperto energético temporário e evoluiria para um risco de recessão global generalizada”, diz ele. “Como uma economia pequena e altamente aberta, a Suíça estaria particularmente exposta através dos canais de comércio, investimento e confiança.”
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Guerra eleva custos de energia e pressiona Suíça
Por sua vez, o WFP estima que, se o conflito continuar além do primeiro semestre do ano e os preços do petróleo permanecerem acima de 100 dólares por barril, 45 milhões de pessoas poderão cair em situação de insegurança alimentar aguda, somando-se aos 318 milhões que já passam fome no mundo.
“Se este conflito continuar, enviará ondas de choque por todo o globo, e as famílias que já não conseguem pagar pela próxima refeição serão as mais atingidas”, disse Carl Skau, diretor executivo adjunto do WFP, em conferência de imprensa em Genebra no mês passado. Segundo análiseLink externo da agência, os países da África Subsaariana e da Ásia são os mais vulneráveis, pois dependem da importação de alimentos e combustíveis.
Edição: Virginie Mangin/ts
Edição de imagens: Thomas Kern
Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl
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