
Ex-presidente da Colômbia, Uribe pega 12 anos de prisão domiciliar e diz que vai apelar

O ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe foi sentenciado a 12 anos de prisão domiciliar nesta sexta-feira (1º) por suborno e fraude processual, uma decisão histórica que faz dele o primeiro ex-chefe de Estado condenado e privado de liberdade no país.
O líder da direita colombiana, de 73 anos, recebeu em primeira instância a pena máxima possível, em uma audiência que durou mais de seis horas e à qual ele assistiu de maneira virtual e visivelmente incomodado.
A juíza Sandra Heredia assegurou que a sentença tem aplicação “imediata” para evitar que Uribe abandone o país.
O ex-presidente (2002-2010) apresentou oralmente suas razões para recorrer da decisão. A juíza lhe deu prazo até 13 de agosto para apresentar seus argumentos por escrito.
“Em muitas ocasiões ao longo deste julgamento, a senhora juíza referiu-se com animosidade à minha defesa […] Aqui não houve respeito por nós […] aqui houve parcialidade”, disse Uribe, que rejeita um julgamento que considera politizado e sob pressão da esquerda no poder.
Seu partido, o Centro Democrático, convocou manifestações para 7 de agosto em sua defesa, e o chamou de “homem inocente”.
O ex-presidente, que chegou ao poder quando a Colômbia sangrava pelo conflito interno entre guerrilhas de esquerda, milícias de extrema direita e forças do Estado, foi considerado culpado na segunda-feira de obstrução de justiça e manipulação de testemunhas para evitar que fosse vinculado aos paramilitares.
Além da pena de prisão domiciliar, Uribe também foi inabilitado a ocupar cargos públicos durante mais de oito anos e terá que pagar uma multa equivalente a 837 mil dólares (R$ 4,63 milhões, na cotação atual).
Uribe é um dos políticos mais populares do país, com uma imagem positiva que supera os 50%, segundo pesquisas, mas também é um dos mais controversos.
“Justiça ajoelhada!”, “Juíza corrupta!”, gritaram nesta sexta cerca de 30 pessoas que se reuniram nas imediações do tribunal em Bogotá.
Outros aplaudiram a decisão de Heredia.
“Sentimos que nossa dignidade está sendo restituída”, disse à AFP Edgar Velasco, de 41 anos, com a voz entrecortada.
– ‘Da pior maneira’ –
No começo da audiência, a juíza se queixou de que o veredicto teria sido vazado para a imprensa antecipadamente e assegurou que um dos filhos do ex-presidente ajudou a divulgá-lo.
“Protesto energicamente”, reagiu Uribe. “A senhora tem me tratado da pior maneira. Eu a tenho respeitado, mas não aceito que se meta com a minha família”.
Após a apelação formal, o caso agora seguirá para o Tribunal Superior de Bogotá, que tem até 16 de outubro para ratificar a condenação ou revogá-la, absolvendo-o. Se passar desta data, o processo será arquivado.
O caso começou em 2012, quando Uribe processou o senador de esquerda Iván Cepeda perante a Suprema Corte de Justiça por afirmar que paramilitares presos diziam ter vínculos com o ex-presidente.
Mas em uma reviravolta em 2018, a corte começou a investigar o ex-presidente por manipular testemunhas para prejudicar Cepeda.
Dois anos depois, Uribe, que na época era senador, renunciou ao mandato em uma manobra que o fez perder o foro privilegiado, o que fez seu caso ir para a justiça comum.
– Impacto na corrida presidencial –
O processo contra Uribe foi retomado em 2024, após a chegada da procuradora-geral Luz Camargo, nomeada pelo presidente de esquerda Gustavo Petro.
Uribe e Petro frequentemente entram em choque sobre o caso.
A defesa do ex-presidente apresentou uma denúncia contra o governante de esquerda por “assédio e calúnia” perante uma comissão da câmara baixa do parlamento com poderes para investigar presidentes.
Juristas afirmam que, durante a semana, Petro fez acusações infundadas contra Uribe, atribuindo-lhe crimes como tráfico de drogas.
A sentença de hoje marca a corrida para as eleições presidenciais de 2026, nas quais o Centro Democrático tentará recuperar o poder. Seu candidato líder nas pesquisas, Miguel Uribe (que não é parente do ex-presidente), está em estado grave em um hospital após ser vítima de um atentado a tiros em junho.
Yann Basset, professor de ciência política na Universidade do Rosario, disse à AFP que a condenação poderia levar o partido a “defender o legado de Uribe”.
Contudo, advertiu que isso poderia deixar o debate político “focado no passado”, e não no “que mais preocupa o eleitorado neste momento”.
Para a esquerda, segundo Basset, esta é a oportunidade de “visibilizar um pouco mais Iván Cepeda”, diante da falta de um sucessor claro para Petro.
Cepeda, de 62 anos, afirmou esta semana ao canal do YouTube do jornalista Daniel Coronell que sempre foi “relutante” a ser candidato à presidência, mas ponderou que os últimos acontecimentos o “obrigam a pensar nisso”.
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