Indústria farmacêutica gera um em cada dez francos na Suíça
A indústria farmacêutica continua sendo um dos pilares da economia suíça. Porém, a expansão da China, o sucesso dos medicamentos contra obesidade e a pressão dos Estados Unidos para atrair investimentos colocam novos desafios para a competitividade do setor.
1- Um setor que emprega mais de 50 mil pessoas na Suíça
2- Um dos maiores contribuintes para o crescimento nacional
4- Exportações no valor de 100 bilhões de francos
5- Roche e Novartis, duas multinacionais sediadas na Suíça
6- A indústria farmacêutica suíça é uma das mais competitivas, mas a concorrência está aumentando
7- Os Estados Unidos continuam sendo o líder indiscutível, e a China está em plena expansão
1- Um setor que emprega mais de 50 mil pessoas na Suíça
Em 2023, quase 350 empresas estavam ativas na indústria farmacêutica na Suíça, segundoLink externo o Depto. Federal de Estatísticas (BfS, na sigla em alemão).
A grande maioria atua no mercado externo. Entre elas estão grandes multinacionais controladas por investidores suíços como Novartis, Roche ou Sandoz. Também fazem parte desse grupo as filiais suíças de concorrentes estrangeiros como Pfizer, Takeda ou AstraZeneca.
As grandes estruturas, contudo, representam a minoria: cerca de sei em cada 10 empresas farmacêuticas são microempresas que empregam menos de 10 funcionários.
O número de trabalhadores no setor farmacêutico cresceu em mais de 30 mil funcionários desde a sua expansão em meados da década de 1990. Hoje, mais de 56 mil trabalham nessa indústria, principalmente nas grandes multinacionais.
Além disso, o setor gera emprego indireto para cerca de 250 mil pessoas, conforme aponta um estudoLink externo publicado em 2024 pelo instituto BAK Economics e encomendado pela Interpharma, a associação que representa o setor.
Essa força de trabalho possui alta qualificação: 67% das pessoas ativas no setor têm diploma de ensino superior, em comparação com a média suíça de 45%.
2- Um dos maiores contribuintes para o crescimento nacional
Após um quarto de século de avanço contínuo, o valor adicionado (a riqueza gerada pela atividade produtiva) da indústria farmacêutica registrou uma leve queda em 2022 e 2023 (últimos dados disponíveis). Mesmo assim, o setor contribuiu com 6% da geração de riqueza do país. Isso o posiciona como o quarto setor econômico mais relevante da Suíça, atrás do comércio atacadista, do setor imobiliário e do funcionalismo público.
Ao incluir a geração indireta de valorLink externo, estimada em 30 bilhões de francos, o BAK Economics calcula que toda a cadeia produtiva da indústria farmacêutica responde por cerca de um em cada dez francos gerados no país. Os setores de máquinas-ferramenta e de construção civil, por exemplo, são diretamente beneficiados pelos investimentos da indústria farmacêutica.
3- Motor da inovação na Suíça
Segundo as estatísticasLink externo divulgadas em 2025 pelo BfS, a indústria farmacêutica é a área que mais investe em pesquisa e desenvolvimento (P&D — o processo de investigação e criação de novos conhecimentos e produtos) no país: foram quase 5,5 bilhões de francos em 2023, o que corresponde a quase um terço dos cerca de 18 bilhões de francos investidos pelo setor privado naquele ano.
Proporcionalmente, a Suíça é o país da OCDELink externo (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) onde as empresas farmacêuticas dedicam a maior fatia de recursos para P&D: a média dos países desenvolvidos que integram a organização é de 8%.
4- A indústria farmacêutica impulsiona o crescimento das exportações
Os produtos farmacêuticos – especialmente o segmento de soros e vacinas – são a segunda categoria de mercadorias mais exportada pela Suíça, atrás apenas do ouro. Em 2025, o país vendeu mais de 100 bilhões de francos desses itens para o exterior, representando cerca de 22% do valor total das exportações suíças.
É na comercialização de produtos farmacêuticos que a Suíça obtém seus maiores superávits comerciais (quando o valor das exportações é maior do que o das importações): o saldo positivo foi de quase 35 bilhões de francos no ano passado.
Em 2024, assim como em anos anteriores, a Suíça manteve o posto de segundo maior exportador mundial de produtos farmacêuticos, superada apenas pela Alemanha e posicionada à frente dos Estados Unidos.
5- Roche e Novartis, duas multinacionais sediadas na Suíça
Além do papel de grande destaque que o setor farmacêutico desempenha para a economia suíça, as empresas do país mantêm uma força expressiva no cenário global. Esse posicionamento se deve, em grande parte, à Roche e à Novartis.
O faturamento dessas duas multinacionais sediadas na Basileia cresceu nos últimos anos, subindo de aproximadamente 49 bilhões de dólares em 2020 para cerca de 57 bilhões de dólares em 2025, o que garante a permanência de ambas entre as 10 principais companhias do setor no ranking elaborado pela plataformaLink externo especializada Drug Discovery & Development.
Contudo, a Roche e a Novartis recuaram posições nessa lista nos últimos anos. Em 2020, as duas multinacionais ocupavam a 2ª e a 3ª colocação, respectivamente.
Entre 2024 e 2025, elas perderam um posto cada uma. Esse recuo não decorre de uma queda no desempenho das empresas suíças, mas sim do avanço notável da Eli Lilly. A fabricante americana, responsável por vários medicamentos “blockbusters” (produtos de grande sucesso comercial e com faturamento bilionário) contra a obesidade, subiu da 9ª para a 1ª colocação em um ano, elevando seu faturamento de 45 bilhões de dólares em 2024 para 65 bilhões em 2025.
A Roche e a Novartis também são referências em inovação, de acordo com o relatórioLink externo anual da Citeline voltado para a área de P&D farmacêutica. No período entre 2025 e 2026, a Roche subiu do segundo para o primeiro lugar da classificação. A Novartis perdeu duas posições, sendo ultrapassada pela AstraZeneca e pela Sanofi, mas segue figurando entre os líderes do mercado global.
Seis medicamentos produzidos na Suíça (quatro da Novartis e dois da Roche) estão na lista dos 50 remédios que registraram o maior faturamento em 2025. A Novartis aparece como a segunda fabricante com mais moléculas (as substâncias ativas que compõem o medicamento) presentes nesse grupo dos 50 principais, empatada com a Pfizer.
O Ocrevus, desenvolvido pela Roche para as áreas de neurologia e imunologia, e o tratamento cardiovascular Entresto, da Novartis, foram as medicações suíças que atingiram os maiores volumes de vendas, registrando 8,4 bilhões e 7,8 bilhões de dólares, respectivamente.
Mesmo com esses resultados, esses medicamentos operam distantes do recorde de faturamento alcançado pelo tratamento oncológico Keytruda, produzido pela Merck. Em 2025, as vendas desse medicamento ficaram próximas de 32 bilhões de dólares.
Essa listagem de remédios evidencia a rápida transformação no cenário da indústria farmacêutica e o impacto revolucionário trazido pelos análogos dos receptores do GLP-1 (uma classe de medicamentos que simula hormônios intestinais e ajuda no controle do açúcar no sangue e na saciedade), receitados para o tratamento do diabetes e para a redução de peso.
O Ozempic e o Wegovy (produto semelhante da mesma fabricante), ambos da Novo Nordisk, além do Mounjaro, desenvolvido pela Eli Lilly, mantiveram em 2025 os desempenhos de destaque que já haviam apresentado em 2024. Já o Zepbound, também produzido pela Eli Lilly, registrou o ritmo de crescimento mais forte em 2025, após não constar no ranking em 2024.
As pressões exercidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que as indústrias tragam a produção de volta para o território americano têm levado as duas grandes multinacionais suíças a ajustarem seus planos para o mercado dos Estados Unidos, fato que pode trazer impactos negativos para o setor na Suíça.
Tanto a Novartis quanto a Roche projetam investimentos bilionários destinados a ampliar a sua capacidade produtiva do outro lado do Atlântico. Analistas do setor demonstram preocupação de que essa mudança estratégica provoque uma redução no volume de postos de trabalho, no faturamento e nas atividades de inovação na Suíça, atingindo especialmente a região da Basileia.
6- A indústria farmacêutica suíça é uma das mais competitivas, mas a concorrência está aumentando
A Suíça se posiciona anualmente entre as três primeiras colocadas do Global Industry Competitiveness Index (GICILink externo — Índice de Competitividade Industrial Global), indicador calculado pelo BAK Economics que avalia o nível de competitividade internacional do setor químico e farmacêutico. O país ocupa a 3ª colocação na avaliação de 2025, atrás dos Estados Unidos (1ª posição) e da Irlanda (2ª).
O documento ressalta que a Suíça apresenta marcas bastante positivas em todas as quatro vertentes avaliadas (“Desempenho”, “Posição de mercado e capacidade operacional”, “Inovação e liderança tecnológica” e “Qualidade do ambiente de negócios”), não demonstrando pontos fracos expressivos. O estudo também aponta que a indústria farmacêutica suíça conta com o ambiente de negócios de melhor qualidade no cenário global, além de apresentar elevados índices de produtividade e crescimento consistente.
O fator de atenção reside no recuo da posição relativa da Suíça em comparação a outros mercados, principalmente na área de inovação. Diferentes países conseguiram acelerar seu desenvolvimento e diminuir a distância nesse segmento, como o Dinamarca – empatada na 3ª colocação –, os Países Baixos e o Reino Unido.
7- Os Estados Unidos continuam sendo o líder indiscutível, e a China está em plena expansão
Os Estados Unidos permanecem como o mercado farmacêutico de maior competitividade em nível global, impulsionados sobretudo por sua forte presença comercial e por uma capacidade de inovação bastante acentuada.
O país mantém a liderança isolada nas atividades globais de P&D no setor farmacêutico, concentrando mais de 40% das sedes de companhias voltadas para a criação de novos medicamentos, segundo os dados da Citeline. Essa liderança, porém, apresentou uma redução de espaço em poucos anos.
A mudança se deve à rápida evolução das atividades de P&D farmacêutico na China, que assumiu a 2ª colocação global. Cerca de 20% das empresas inovadoras do setor estão estabelecidas em território chinês, um salto expressivo frente aos 5% registrados em 2017. Diante desse cenário, a fatia correspondente ao grupo de nações europeias do qual a Suíça faz parte encolheu para 7% em 2026, comparada aos 13% medidos um ano antes.
Esse panorama se repete quando são avaliados os locais onde os medicamentos são efetivamente desenvolvidos. Sob essa ótica, os Estados Unidos também lideram, concentrando mais de 50% de todas as medicações em estágio de desenvolvimento. Apesar disso, essa participação apresentou retração, considerando que atingia 56% em 2021. No sentido inverso, o volume de remédios sendo desenvolvidos na China saltou de 18% em 2021 para mais de 30% em 2026. A Suíça, por sua vez, responde por uma fatia ligeiramente inferior a 7% dos medicamentos em desenvolvimento, apresentando estabilidade nesse patamar ano após ano.
Os grandes mercados representados por Estados Unidos e China vêm aplicando “estratégias com perfil bastante agressivo para atrair as atividades de pesquisa, as linhas de fabricação e os aportes financeiros”, pontuou Annette Luther, presidente da ScienceindustriesLink externo (a entidade nacional que reúne as indústrias químicas e farmacêuticas), em entrevista concedida em janeiro de 2026.
Edição: Virginie Mangin
Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl
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