Meloni celebra recorde de permanência no poder e lança campanha para 2027
Com uma festa às margens do Mar Adriático, Giorgia Meloni, primeira mulher a chefiar um governo italiano, celebrou, nesta sexta-feira (4), o recorde de permanência no cargo desde o fim da Segunda Guerra Mundial e defendeu sua “credibilidade” para lançar a campanha para as eleições legislativas de 2027.
“A estabilidade é a primeira grande reforma oferecida à nação. Quando a Itália se senta à mesa, nossa nação é levada a sério, pode dizer que não ou marcar o caminho”, disse Meloni à tarde perante seus apoiadores em Bari, em Apulia (sul).
“Graças à estabilidade, protegemos nossa nação”, acrescentou.
“As batalhas que a Itália perdia antes, hoje vence; são feitos que queremos deixar aos italianos, quem quer que seja o vencedor” das próximas eleições, afirmou a chefe de governo.
– “Nos imitaram” –
“Fomos tachados de extremistas durante anos e depois nos imitaram”, ironizou, em alusão aos países europeus e ao tema migratório.
Aos 49 anos, Meloni completa nesta sexta-feira 1.413 dias (pouco menos de quatro anos) à frente do mesmo governo e supera Silvio Berlusconi, que, no entanto, governou o país por quase dez anos no total, à frente de quatro governos.
Para a ocasião, milhares de apoiadores se reuniram nesta sexta-feira em Bari, sob o olhar atento das forças policiais.
Os simpatizantes se reuniram no porto, onde tocava música e barracas ofereciam crepes, sanduíches e o famoso “espaguete all’assassina”, uma especialidade local muito apimentada.
“O governo de Meloni teve uma trajetória positiva; há resultados tangíveis, e o fato de ser o mais longo não é pouca coisa”, disse à AFP Maurizio Cecconelli, um advogado de 61 anos procedente do centro da Itália.
“Esperamos que ela tenha mais cinco anos para realizar tudo o que desejava”, acrescentou.
O Irmãos da Itália preparou um livreto de 30 páginas para destacar as conquistas do governo em pouco menos de quatro anos: o desemprego caiu para 5,8% em julho, seu menor nível; houve uma redução de 21 bilhões de euros (125 bilhões de reais) em impostos para pessoas físicas; e a chegada de migrantes irregulares caiu 80%.
Alguns especialistas, porém, criticam a valorização da estabilidade como uma conquista em si.
“A estabilidade é um instrumento, não um objetivo. O objetivo é o crescimento, e isso nós não vimos”, declarou na quinta-feira Veronica De Santis, professora de Economia da Universidade Luiss, em Roma, durante um encontro com a imprensa estrangeira.
A especialista criticou a ausência de uma estratégia econômica de longo prazo. O próprio governo prevê um crescimento muito moderado este ano, da ordem de 0,6%.
Segundo um levantamento da agência AGI, a maioria ultraconservadora formada pelo Irmãos da Itália, pela Liga anti-imigração de Matteo Salvini e pelo Força Itália aprovou cerca de 300 leis e decretos-leis.
A maioria dessas medidas está relacionada à segurança em sentido amplo e tem como alvo a imigração, os traficantes de pessoas, pequenos criminosos, participantes de festas “rave” e até manifestantes que bloqueiam estradas para protestar contra demissões. São temas que mobilizam a base eleitoral da coalizão governista.
– Realismo ou imobilismo? –
A Itália teve 68 governos em 80 anos. Executivos caíam em meio a crises e deserções políticas, um fenômeno crônico que Meloni conseguiu evitar desde que chegou ao poder.
Os principais jornais italianos fizeram um balanço do período. O La Repubblica, de centro-esquerda, destacou que o governo estabilizou as contas públicas e reduziu o custo do endividamento público nos mercados.
La Stampa e Corriere della Sera ressaltaram, por sua vez, o apoio de Meloni à Ucrânia, apesar das resistências de seu vice-primeiro-ministro Matteo Salvini.
Mas, acima de tudo, Meloni “terá que explicar como pretende aproveitar estes últimos meses antes das eleições”, que podem ocorrer em abril de 2027, comentou nesta quinta-feira Flavia Perina, colunista do La Stampa.
Na mesma linha, Alessandra Sardoni, jornalista política do canal La7, criticou “o realismo de Giorgia Meloni (…), transformado em um álibi para o imobilismo”.
“O governo deu uma importância central à comunicação e, muitas vezes, essa comunicação substituiu a ação”, acrescentou.
Sergio De Nardo, um advogado de 66 anos, discorda.
“Meloni demonstrou, sobretudo em nível internacional e europeu, suas qualidades. Soube se impor e nos fez conhecer. Demonstrou coragem na disputa com a Espanha sobre Ceuta”, quando a Itália suspendeu o país do espaço Schengen de livre circulação, declarou à AFP.
Sua opinião é compartilhada por Salvatore Sinopoli, um engenheiro de 37 anos, que considera que a primeira-ministra “recuperou a posição da Itália no cenário internacional”.
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