Moradores retornam às suas casas na Espanha, enquanto fogo reacende na França
A Espanha suspendeu nesta terça-feira (28) sua ordem de evacuação em várias localidades, enquanto na França bombeiros e voluntários lutam para impedir a reativação das chamas, em horas críticas para conter incêndios de proporções históricas antes de uma nova onda de calor.
Dias de angústia deram lugar a um otimismo moderado nas últimas horas nos dois países, que somam mais de 120 mil hectares queimados, centenas de casas destruídas e centenas de milhares de moradores e turistas desalojados.
O governo espanhol mantém desde a semana passada o estado de emergência nacional devido a incêndios na região de Madri, nas províncias vizinhas de Ávila e Toledo e na área de Castellón, no leste do país. O incêndio em Ávila é o pior da história recente da Espanha.
Na localidade de Navas del Rey, a oeste de Madri, onde moradores puderam retornar a suas casas, jornalistas da AFP viram áreas reduzidas às cinzas, assim como carros incendiados.
“A casa foi salva. Todo o resto pode ser reconstruído, replantado, e o mais importante é que nós e toda a família estamos vivos”, afirmou Fernando Bolaños, de 68 anos.
“Foi uma incerteza que não desejo a ninguém”, declarou María Paz, de 62 anos.
Ada López, vice-prefeita de Navas del Rey, disse que é difícil fazer uma avaliação, mas estima que cerca de “50 casas foram queimadas e cerca de 50 foram danificadas, que são recuperáveis”.
O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, afirmou que a Espanha enfrenta “horas críticas”, antes de um aumento das temperaturas, acompanhado de ventos que podem reavivar as chamas.
Em Pelayos de la Presa, cerca de 55 km a oeste de Madri, os dias mais difíceis do “monstro”, como o prefeito chama o incêndio, foram quinta e sexta-feira. No entanto, a fumaça, o confinamento e o risco de reativação persistem.
“Estivemos em guerra contra o fogo e agora temos uma zona de guerra ao redor (…) Foi um monstro que passou por cima de nós”, disse à AFP o prefeito Antonio Sin.
Na França e na Espanha, os incêndios são consequência da maior inflamabilidade das florestas e da vegetação devido à seca e às ondas de calor excepcionais registradas desde junho, fruto das mudanças climáticas.
“O alarme climático soa com força de todas as direções”, declarou o chefe da ONU Clima, Simon Stiell.
– “Tememos cada dia que passa” –
Na França, o grande incêndio que devastou 42 mil hectares no sudoeste do país, perto de Bordeaux, foi “estabilizado”, apesar de terem sido registrados “14 reacendimentos do incêndio” nesta terça-feira, segundo as autoridades locais.
“Tememos cada dia que passa”, afirmou Pierre Marie, um voluntário que ajuda a combater o incêndio em Lege Cap-Ferret.
Ele já nem sabe que horas são depois de passar o dia tentando conter o fogo e conta que despejaram 8 mil litros de água em uma área onde, uma hora depois, o incêndio voltou a se acender.
Quando perguntado se os bombeiros recebem apoio suficiente das autoridades, respondeu que não e relatou que o grupo teve de comprar suas próprias bombas portáteis e seus tanques de água.
A oposição critica a gestão em matéria de segurança civil do presidente Emmanuel Macron, a apenas alguns meses de eleições, previstas para abril, nas quais a extrema direita aparece como favorita nas pesquisas.
Durante o dia, 4 mil pessoas precisaram deixar hospedagens turísticas em Lacanau e se juntaram à lista de 220 mil evacuados desde 22 de julho pelo incêndio, o mais intenso desde 1949.
Desde janeiro, 92 mil hectares foram queimados no país, um recorde em 20 anos, segundo o sistema europeu EFFIS. Na Espanha, o número sobe para 207 mil hectares desde o início do ano, muito perto do máximo histórico.
Em Biscarosse, uma localidade mais ao sul onde o fogo destruiu cerca de 200 edifícios, os moradores que retornaram na terça-feira se dividem entre a consternação e o alívio.
Após “três dias dignos de cenas de guerra (…) todo mundo está feliz por voltar a abrir”, afirmou a padeira Célina Serveau.
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