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Neutralidade? Como os modelos suíço e irlandês se comparam

Dois soldados marcham numa pista de aterragem. Um deles carrega uma bandeira azul da ONU, o outro uma bandeira irlandesa.
Soldados irlandeses da Força Provisória das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) no aeroporto de Beirute, em 2022. Anwar Amro / AFP

A corrida europeia ao rearmamento tensionou antigas políticas de neutralidade na Irlanda e na Suíça – e provocou reações acaloradas dos defensores da neutralidade “tradicional” em ambos os países.

Ao procurar semelhanças entre a Irlanda e a Suíça, vemos um par de Estados pequenos e – pelo menos hoje em dia – ricos. Políticas fiscais envolvendo grandes empresas multinacionais também são tema comum.

Mas, à medida que a Europa enfrenta novas preocupações de segurança, marcadas pelo militarismo russo e pelas tensões entre EUA e OTAN, outra semelhança fica evidente. Há muitos anos, a Irlanda e a Suíça são neutras – a primeira desde 1937 e a segunda, 1815. Em 2026, elas fazem parte de um clube cada vez mais restrito. Como esses países estão se adaptando e como se comparam?

O impacto dos vizinhos

Historicamente, pelo menos, as duas versões de neutralidade possuem origens e motivações muito diferentes. “Nenhum país é neutro por coincidência”, diz Laurent Goetschel, diretor do instituto Swisspeace, sediado na Basileia. No caso suíço, sua neutralidade armada foi aprovada por outros países, quando as potências europeias a reconheceram no Congresso de Viena de 1815.

Explore o passado e o presente da neutralidade suíça em nosso artigo:

A neutralidade irlandesa, por sua vez, não buscava conquistar a aprovação de grandes vizinhos, mas se distanciar deles. Após conquistar a duras penas sua independência da Grã-Bretanha e formar uma república constitucional em 1937, a nova nação irlandesa viu a neutralidade sobretudo como uma forma de afirmar sua soberania no cenário mundial. Era também uma maneira de evitar ser arrastada para mais conflitos. Centenas de milhares de irlandeses lutaram no exército britânico na Primeira Guerra Mundial, inspirando o slogan pacifista utilizado até hoje por defensores da neutralidade: “Não servimos nem ao Rei nem ao Kaiser, mas à Irlanda”.

Após a política de neutralidade manter o país fora da Segunda Guerra Mundial, a abordagem da Irlanda se enraizou ainda mais frente à divisão do mundo em blocos durante a Guerra Fria. Já no final dos anos 1950, começou a enviar tropas para servir em missões de manutenção da paz das Nações Unidas, lançando as bases para uma concepção de neutralidade como meio para alcançar a paz e o desenvolvimento, e não como uma forma de defesa – uma visão um tanto “vaga” e ainda difundida no país, diz Kenneth McDonagh, professor de relações internacionais da Dublin City University.

Um século evitando conflitos – neutralidade irlandesa em imagens:

Ao mesmo tempo, inconsistências começavam a surgir. Por décadas, aeronaves militares dos EUA usaram o Aeroporto de Shannon como parada para reabastecimento quando estavam a caminho de conflitos mais distantes. Isso prejudicou a reputação da neutralidade irlandesa e, mais recentemente, rendeu até elogios à postura suíça em comparação. “A decisão da Suíça de recusar voos militares ligados à guerra com o Irã demonstra o que a neutralidade significa na prática”, disseLink externo o parlamentar Donnchadh Ó Laoghaire, do Sinn Féin, de esquerda, em março.

A adesão da Irlanda à União Europeia também gerou atritos. Na virada do século, quando os Estados da UE aprofundavam a cooperação em assuntos externos, a Irlanda enfrentou questões com as quais a Suíça, fora da União Europeia, não precisou lidar. Por exemplo: como um país neutro pode se encaixar em uma união com uma cláusula de defesa mútua? Em 2009, cidadãos irlandeses que viam a situação com ceticismo foram acalmados com uma cláusula de exclusão: o Tratado de Lisboa da UE só foi ratificado após uma garantia de que a neutralidade não seria afetada (a cláusula também é aplicável a outros membros neutros da UE, como a Áustria).

Novas realidades, velhas políticas?

Desde o ataque da Rússia à Ucrânia em 2022, a neutralidade não ficou mais fácil, nem para Dublin nem para Berna. A Suíça enfrentou acusações de se beneficiar gratuitamente da segurança de seus vizinhos, enquanto a Irlanda foi alertada por seus parceiros da UE de que o país não deveria se tornar um “elo fraco” na defesa do bloco. E, como a Suíça e a Irlanda aplicam sanções à Rússia, Moscou diz que nenhuma dos duas é neutra.

É possível ver pessoas a aplaudir na sala do parlamento e uma bandeira irlandesa
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky discursou no parlamento irlandês a 2 de dezembro de 2025; em junho de 2023, dirigiu-se aos parlamentares em Berna, por videoconferência. Tony Maxwell / AFP

As reações são variadas. A Suíça viu debates intensos sobre exportações de armas e sanções. E os cidadãos e cidadãs do país votarão sobre uma iniciativa que visa inserir uma interpretação estrita da neutralidade na constituição. Mas, no geral, mesmo que o ministro das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, tenha apelado por uma abordagem mais “cooperativa” da neutralidade, o fato é que o modelo suíço ainda se baseia nas regras da Convenção de Haia: nenhuma participação em conflito armado, nenhum favor militar para nenhum dos lados beligerantes (declarações políticas ou sanções econômicas são permitidas, no entanto).

Mais sobre a relação entre neutralidade e exportações de armas:

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Na Irlanda, a nova situação lançou luz sobre a diferença central entre seu modelo e o da Suíça: a palavra “armada”.

Embora seja um dos Estados mais ricos da UE, a Irlanda gasta pouco em defesa e não tem ilusões de que poderia repelir um ataque convencional. E isso não é mais apenas uma hipótese: navios espiões russos foram avistados em suas vastas águas territoriais, lar de quase 75%Link externo dos cabos submarinos de telecomunicações do Hemisfério Norte. Em fevereiro de 2026, a situação levou à elaboração da primeira estratégia de segurança marítima do país, que prevê laços mais estreitos com vizinhos da OTAN e duas novas bases para sua marinha, que tem poucos recursos – para The Economist, foi uma “ruptura com sua antiga política de neutralidade”.

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Ainda não sabemos se isso será suficiente para convencer aliados europeus de que Dublin está fazendo sua parte. Também não está claro quem ajudaria a Irlanda se o país fosse atacado. Segundo o professor da Dublin City University, McDonagh, “há um ‘entendimento’ com o Reino Unido sobre defesa aérea, e dois novos memorandos de entendimento com o Reino Unido e a França sobre segurança marítima – mas nenhum deles equivale a uma cláusula de defesa mútua”. Em contrapartida, a Suíça – que também evita alianças militares, mas mantém um exército funcional – é, na opinião de McDonagh, uma “boa ilustração de como um Estado neutro autônomo e funcional poderia ser”.

Resistência dos tradicionalistas

Mesmo assim, uma possível inspiração no modelo suíço não é algo frequentemente discutido em Dublin. McDonagh afirma que os debates focaram menos em questões concretas de defesa e mais em argumentos abstratos de neutralidade em geral. E, como na Suíça, as discussões foram impulsionadas por grupos manifestadamente cautelosos frente a qualquer flexibilização das posturas tradicionais.

Na Suíça, refletindo seu sistema democrático e político, o debate tomou notavelmente a forma da “iniciativa de neutralidade”, um texto que visa consagrar a neutralidade “perpétua e armada” na constituição federal do país. Impulsionada pelo Partido Popular Suíço (UDC/SVP), de direita, a iniciativa afirma que as sanções contra a Rússia significam que a Suíça está “abandonando sua neutralidade, pouco a pouco”. A proposta tornaria as sanções impossíveis, a menos que ordenadas pelo Conselho de Segurança da ONU. O eleitorado se manifestará ainda este ano.

O que está em jogo se os eleitores suíços aceitarem a “iniciativa de neutralidade”:

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Na Irlanda, também não faltaram vozes alertando sobre uma “deriva” militar em direção à OTAN e à União Europeia. Nesse caso, no entanto, as críticas vieram não da direita conservadora, mas principalmente da esquerda pacifista ou populista. Catherine Connolly, eleita para o papel amplamente representativo de Presidente no ano passado, é uma crítica proeminente da militarização. O Sinn Féin, o maior partido de oposição, também está ferozmente comprometido com a neutralidade tradicional, e almeja mesmo um modelo semelhante ao suíço: uma votação pública para consagrar a neutralidade na constituição irlandesa.

Mas tal votação é improvável. Ao contrário da Suíça, não há iniciativas populares na Irlanda, e referendos só acontecem se a maioria governante quiser (e, neste caso, ela não quer). Assim, o Sinn Féin provavelmente está “usando a carta populista de esquerda” como um esforço para ganhar terreno político contra o governo, acredita David Farrell, professor de política na University College Dublin. Mas o partido tem números fortes nas pesquisas, acrescenta Farrell, e “não se pode descartar a possibilidade de que consiga ser eleito para o governo” nos próximos anos – e implemente sua agenda.

Manifestantes com bandeiras e faixas
Manifestação em Dublin contra a utilização do Aeroporto de Shannon por aeronaves militares dos EUA, 15 de abril de 2026. Niall Carson / Getty Images

Amplo apoio dos cidadãos à neutralidade

E mesmo que o governo não concorde com o Sinn Féin sobre neutralidade, muitos na Irlanda concordam. Surge, então, a questão da legitimidade: deveria haver mais envolvimento dos cidadãos nos debates, dada sua importância? E, se sim, em que formato?

Sem perspectiva imediata de um referendo, uma assembleia de cidadãos foi sugerida: um grupo de cidadãos selecionados aleatoriamente se reuniria para discutir política de defesa e emitir recomendações. No entanto, o formato, que se tornou popular na Irlanda na última década, foi descartado em 2023. Um “Fórum sobre Política de Segurança Internacional”, baseado em especialistas, ocorreu em seu lugar. Para Farrell isso reflete uma tendência mais ampla de “esfriamento” das assembleias de cidadãos na Irlanda. Outros especularam que o governo não queria enfrentar a opinião pública.

O diretor da Swisspeace, Goetschel, que esteve no fórum de 2023 para explicar a abordagem suíça, lembra-se dele como uma espécie de “show itinerante” – muitos painéis, circulando por várias cidades irlandesas. Pareceu bem diferente do processo suíço padrão, acrescenta: consultas sóbrias por parte do lado oficial, votações públicas do outro. Os resultados também foram parcialmente inconclusivos: a neutralidade “claramente significa coisas diferentes para pessoas diferentes”, afirmou o relatório final.

Goetschel até apareceu na mídia irlandesa com a observação de que “neutralidade não é uma religião” – uma afirmação feita em resposta, segundo ele, a “declarações fervorosas” de alguns participantes. De fato, como na Suíça, a neutralidade é uma ideia altamente popular na Irlanda. Uma pesquisa de fevereiro de 2026 do Irish Times e do instituto de pesquisa IPSOS mostrou que até 71% da população é favor de consagrar a neutralidade na constituição. Mas, enquanto na Suíça os debates estão se formando antes de uma votação sobre o assunto, ainda em 2026, na Irlanda a opinião pública permanece – pelo menos por enquanto – amplamente confinada a pesquisas.

Edição: Benjamin von Wyl/fh
Adaptação: Clarice Domiguez

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