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Crise ressuscita movimento

Anarquismo Keystone

O anarquismo já teve uma certa relevância na sociedade portuguesa. Hoje, por razões diversas que têm a ver com a atual situação política, económica e social de Portugal, o movimento acaba por gerar interesse nas novas gerações.

Numa situação de crise económica, social e política, a questão das alternativas ao sistema atual, capitalismo e Estado, colocam-se de forma mais premente. É dentro da lógica da procura de um alternativa ao existente, que se insere o interesse de alguns sectores, de alguns extractos soiciais, por uma idéia, que já tem mais de um século, que é o anarquismo, uma das correntes dentro do socialismo. Um interesse que em Portugal , para o sociólogo e investigador João Freire,  atualmente “continua muito disperso”.

Para alguns anarquistas, o que se pode discuitir é se o anarquismo, enquanto projecto colectivo, encontra, ou não, as fórmulas adequadas às mudanças que sofremos na sociedade ao longo do século XX e à realidade atual. Como é que o organismo, enquanto projeto coletivo, se pode expressar, ou não, de forma organizativa. Que tipo de organizações, que tipo de associações ele pode constituir e que sejam adequadas à realidade contemporânea.

Um suíço proudhoniano na fundação do Partido Socialista Português

“O surgimento do anarquismo em Portugal pode ser datado em 1887, mas desde cerca de 1870, com o impacto das notícias da Comuna de Paris, que aqui há uma corrente libertária assumida.” Só que, em grande parte, ainda está misturada com os socialistas. “Então, considera-se que é a proclamação, feita no Porto em 1887, o início do movimento anarquista em relação à nebulosa mais vasta do socialismo,” afirma o sociólogo João Freire.

O suíço José Fontana, de seu nome Giuseppe Silo Domenico Fontana, e os portugueses Antero de Quental  e Augusto Maria Fuschini são referências que, desde os anos 70 do século XIX, se encontram na origem movimento anarquista em Portugal.  Fontana, Antero de Quental, e Fuschini  que, em 1875 sob a influência do socialismo experimental de Proudhon, estiveram entre os fundadores do Partido Socialista Português.

O explendor anarquista em Portugal

“A maior influência social do anarqusimo em Portugal ocorre no início do Século XX – 1906, 1907, 1908 – em 1909 constituem a primeira organização nacional operária de sindicatos. Vão reforçando-se progressivamente e em 1919 fundam a Confederação Geral do Trabalho (CGT). Era a única Central existente em Portugal. Mesmo alguns sindicatos que eram dirigidos por socialistas, estavam no interior da confederação. Uma confederação bastante poderosa, a ponto de ter um jornal diário, de grande tiragem, que foi A Batalha. Eles tinham uma difusão de presença social, política, cultural e opinativa bastante grande,” afirma o investigador João Freire.

Desde finais do século XIX, sem abdicar das posições de princípio quanto à questão social e aos objectivos últimos, anarquistas e socialistas colaboraram com os republicanos por considerarem que a República seria um passo qualitativo na tão desejada transformação social. Mas após a Revolução Republicana de 1910, tal como com o regime monárquico, o patronato continuou a explorar a mão-de-obra, e os anarquistas, apesar da sua proximidade com os republicanos agora no governo, continuaram a ser perseguidos.

A decadência do movimento anarquista

A partir de 1921 parte do movimento anarquista adere ao bolchevismo e à Terceira Internacional. O exito dos partidos comunistas, que dentro dos movimentos sociais e do sindicalismo disputaram a quase hegemonia anarquista, e as mudanças profundas que as sociedades sofreram após a Primeira Guerra Mundial contribuiram para a decadência do anarquismo.

Em Portugal, os anarquistas “continuam dentro dos sindicatos apesar das manobras de divisionismo dos comunistas” e, segundo João Freire, “em 1925 o movimento sindical atinge o maior número de filiados.”Mas em 1926 chega a ditadura e ilegaliza os organsimos sindicais de nível superior.

Entre 1926 e 1933 o movimento ainda consegue funcionar, mas com grandes limitações políciais e a sofrer uma repressão muito forte. “Algo a que já estavam habituados”, acrescenta o sociólogo, pois “os primeiros deportados para as colónias são de 1917 e nos anos 20 há sucessivas vagas de centenas de militantes que são deportados. E a ditadura prosseguiu isso de maneira ainda mais violenta.”

Em 1934 tentam organizar uma greve geral revolucionária, que incluia atentados e  sabotagens, para derrubar o governo da ditadura de Salazar, mas não conseguem.  A partir daí os anarquistas ficam completamente clandestinos, tal como todas as forças de oposição. Mas em 1937 ainda tentam assassinar Salazar. E a repressão acentuou-se ainda mais.

“Só a partir da II Guerra Mundial, 1945, é que recomeçam a fazer alguma actividade, embora clandestinamente. E nos anos 50/60 renovam a sua atividade, não tanto em termos políticos e sindicais, porque aí perderam o terreno para os comunistas, mas lançam-se no campo do cooperativsimo  e do associativsimo de locatários. Atividade que subsiste até à Revolução de 25 de abril de 1974,” explica o investigador.

E depois da Revolução dos Cravos

Após o 25 de abril houve uma multiplicidade de experiências com viés auto-gestionário, cooperativo, mas que foi destruido com a implosão da corrente anti-capitalista que se deu após o 25 de novembro. E, por razões do interesse do próprio estado, a política foi sempre contrária a esses processo de auto-gestão e de auto-organização. O que fez com que muitas dessas empresas fossem depois reprivatizadas, entregues aos antigos donos.

Numa fase mais recente, têm aparecido algumas experiências do tipo cooperativo ou auto-gestionário, mas são estremamente marginais em relação ao contexto geral.

Anarquia significa ausência de coerção e não a ausência de ordem. A noção equivocada de que anarquia é sinónimo de caos se popularizou entre o fim do século XIX e o início do século XX, através dos meios de comunicação e de propaganda patronais, mantidos por instituições políticas e religiosas. Nesse período, em razão do grau elevado de organização dos segmentos operários, de fundo libertário, surgiram inúmeras campanhas antianarquistas.

Outro equívoco banal é se considerar anarquia como sendo a ausência de laços de solidariedade (indiferença) entre os homens, quando, em realidade, um dos laços mais valorizados pelos anarquistas é o auxílio mútuo. À ausência de ordem – ideia externa aos princípios anarquistas -, dá-se o nome de “anomia”.

Há diversos tipos e tradições de anarquismo, os quais não são mutuamente exclusivas. Cada vertente do anarquismo tem uma linha de compreensão, análise, acção e edificação política específica, embora todas vinculadas pelos ideais base do anarquismo. Correntes do anarquismo tem sido divididas em anarquismo social e anarquismo individualista, ou em classificações semelhantes.

A maioria dos anarquistas se opõe a todas as formas de agressão, apoiando a autodefesa ou a não violência (anarcopacifismo); outros, contudo, apoiam o uso de outros meios, como a revolução violenta. Outro conceito, a propaganda pelo ato, apesar de ter tido um início violento, hoje em dia incorporou diversos tipos de acções não violentas.

(Fonte: Wikipédia em português)

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