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Recrudescimento de episódios de calor extremo leva a agricultura mundial ‘ao limite’

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O recrudescimento dos episódios de calor extremo está levando a agricultura “ao limite” em todo o mundo e ameaça a saúde e os meios de subsistência de mais de 1 bilhão de pessoas, alertam nesta quarta-feira (22) a FAO e a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

O fenômeno, ligado ao aquecimento climático gerado pelas atividades humanas, provoca a perda de 500 bilhões de horas de trabalho por ano na agricultura. Com tendência de se intensificar, ele ameaça a segurança alimentar mundial, destaca o relatório “Calor extremo e agricultura”.

O calor extremo se refere a temperaturas “excepcionalmente altas” em comparação com o normal, tanto de dia quanto à noite. Sua intensidade pode dobrar se o mundo atingir +2°C em relação à era pré-industrial – e quadruplicar a +4°C -, alertam os cientistas.

O calor extremo também afeta a umidade e a radiação solar, gerando chuvas torrenciais ou secas “repentinas”.

“É o principal detonador”, explica à AFP Kaveh Zahedi, diretor do Escritório de Mudança Climática da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Vimos isso há dois anos no Brasil. Um calor extremo prolongado, combinado com seca, provocou incêndios na Amazônia e a secagem de afluentes do Amazonas, com impacto imediato em todo o sistema alimentar, incluindo pesca e aquicultura. Mais ao sul, gerou chuvas anormalmente intensas”, descreve.

“Esse é o tipo de convergência que estamos apenas começando a compreender. Não é apenas ‘calor extremo’, mas um multiplicador de riscos”, acrescenta.

Os casos se acumulam nos Estados Unidos, Rússia, China… e todos os setores são afetados.

Para o gado, quando o calor extremo não provoca falhas digestivas ou cardiovasculares, reduz a produção de leite e seu teor de proteínas.

Os peixes podem sofrer falhas cardíacas em águas cujo nível de oxigênio diminui devido às altas temperaturas. Em 2024, 91% do oceano em escala global experimentou pelo menos uma onda de calor, das quais metade foi considerada “forte”, aponta o relatório.

Para a maioria das lavouras, a produtividade começa a cair acima de 30°C, e até antes no caso da batata ou da cevada.

O desaparecimento de polinizadores, as doenças e a falta de alimento aumentam os riscos, agravados pela uniformidade das variedades.

– Arroz indiano, caranguejo do mar de Bering –

No Marrocos, seis anos de seca, coroados por duas ondas de calor históricas, em 2023 e 2024, reduziram a produtividade dos cereais em 40% e arruinaram as colheitas de azeitonas e cítricos, lembra Zahedi.

Isso também ocorre em áreas montanhosas, como na primavera de 2025, quando temperaturas superiores a 30°C – 10°C acima do normal – na cordilheira quirguiz de Ferganá submeteram frutas e cereais a um choque térmico e a uma invasão de gafanhotos. Resultado: 25% menos colheitas.

Por fim, no leste do mar de Bering, uma onda de calor marinha em 2018-2019 provocou a morte de 90% dos caranguejos-das-neves, o que levou ao fechamento de uma das pescarias “mais lucrativas” do Ártico, aponta o relatório.

Diante dessa situação, “vemos exemplos de ações inovadoras”, destaca Zahedi, que menciona a Índia, onde agricultores testam variedades de arroz mais precoces. Trata-se de um enorme desafio para um país que obtém dessa cultura 70% de suas calorias e onde a agricultura sustenta milhões de trabalhadores.

Os picos de calor já afetam mais de 1 bilhão de pessoas, principalmente agricultores e suas famílias, em aspectos como saúde e produtividade.

Também enfraquecem uma segurança alimentar já muito incerta – em 2024, 2,3 bilhões de pessoas sofriam algum tipo de insegurança alimentar.

O relatório pede a adoção de sementes e raças adaptadas às novas condições, além da disponibilização de sistemas de alerta aos agricultores, já que o calor extremo é um dos fenômenos meteorológicos mais previsíveis.

“Vemos ações, mas elas são insuficientes”, insiste o responsável da FAO, ressaltando a importância “crítica” dos sistemas de alerta.

Mas, sem uma redução “ambiciosa” dos gases de efeito estufa, “a gravidade dos calores extremos superará cada vez mais a capacidade de adaptação”, aponta o relatório. “Construir resiliência é essencial, mas não pode substituir uma ação climática decidida”, destaca.

cho/abb/jco/mab/pc/lm-jc

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