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A vida de uma brasileira no teatro suíço

Não se admire se, durante à peça "Bin ich Angekommen?" (Eu cheguei?, em português), achar que partes do texto foram inspiradas em sua vida. Assistir ao monólogo escrito a partir da experiência da baiana Katia Hofacker, que reside na Suíça desde 2004, tem mesmo esse objetivo.

Este conteúdo foi publicado em 08. setembro 2019 minutos
Liliana Tinoco Baeckert
Kátia Hofacker: "Abordo momentos em que eu questiono a minha decisão de viver fora do Brasil, em que sofro muito com os inúmeros nãos que recebi..." swissinfo.ch

É um convite ao olhar através do espelho, ao questionamento da realidade migratória de cada um e à superação dessa vivência, tão rica e desafiadora ao mesmo tempo.  

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Escrita e dirigida pela alemã Jasmin Hoch, a peça é encenada pela própria fonte de inspiração, Kátia Hofacker. O texto em alemão, que já fez a atriz chorar nos ensaios, traz à tona as dificuldades enfrentadas por essa baiana, mas também por milhares de migrantes que deixam seus países e se veem perdidos, lidando com questões identitárias, com poucas chances no mercado de trabalho e com todos as diferenças culturais que vêm junto com a mudança. "O meu sotaque ao interpretar é o meu diferencial nesse país. Quero que quem assista saia com essa mensagem. Somos diferentes, mas essa é a nossa vantagem", diz.  

A montagem é inusitadamente encenada em um salão de cabeleireiro, apresentada enquanto a atriz tem cabelo e unhas feitos. Bin ich angekommen? é uma produção do Teatro MaximLink externo

A peça integra o Festival Intercutural de Teatro de Zurique, o About UsLink externo, que acontece entre os dias 6 e 21 de setembro na cidade.   
Informação: 

Apresentações dias 9 e 11 de setembro – 20 horas.

Local: Fórum Brasil, Langstrasse, 21 – primeiro andar 

Gratuito – necessário fazer reserva Link externo

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swissinfo.ch: A peça é um monólogo sobre sua vivência aqui na Suíça. No que exatamente foca o texto? 

Katia Hofacker: Claro que é a visão da autora sobre a minha vida. É um texto biográfico, fruto de uma série de entrevistas, que conta minha história desde quando eu cheguei à Suíça, em 2004. A Jasmin conseguiu captar a essência dos meus desafios. Como é uma diretora experiente, colocou com primazia na linguagem teatral. 

Falo sobre diversos pontos da minha vida de estrangeira, que com certeza deve ter muitas semelhanças com a de muitos outros que migraram. Entramos no campo do "eu me sinto em casa?" O que significa para mim me sentir em casa?

Temos sketches sobre a dificuldade com a língua alemã, que é a minha maior barreira. Aliado a esse obstáculo, vem a ameaça à minha carreira de atriz, mas que vem sendo construída a duras penas. 

Abordo momentos em que eu questiono a minha decisão de viver fora do Brasil, em que sofro muito com os inúmeros nãos que recebi, a maternidade no exterior, a necessidade de relação com os suíços, quase que como uma bola mestra para entender a cultura desse país. Esse fio me conduz à dificuldade de se fazer amizade com eles. E por aí vai. Mas a peça não é um mar de lamentações, é um convite à reflexão. Tem partes cômicas, incentivo o público a participar. 

swissinfo.ch: E como se desenvolve a peça? Explique um pouco sobre a encenação em um salão de cabeleireiro.

K.H.: Como o espetáculo acontece dentro de um salão de beleza, enquanto eu falo o texto, profissionais farão meus cabelos e unhas. Eu vou contar minha história como se fosse uma conversa de salão mesmo, como se eu estivesse dialogando com o cabeleireiro.

Acho a proposta interessante porque o ambiente é muito brasileiro, faz parte do nosso cotidiano. E ali, durante a explanação, eu rio, eu choro, eu teorizo, sempre em alemão. Mas o resto eu não vou contar por que é surpresa.

swissinfo.ch: E quem é a Katia, como ela se enxerga nesse contexto? 

K.H.: A Katia (risos) é uma atriz baiana negra, mãe de duas crianças, que veio parar em Zurique por amor. Essa mudança deu uma reviravolta em sua vida. Até aqui, muito parecido com a maioria das brasileiras que moram na Suíça e que vieram porque encontraram um marido, um parceiro local. Só que a partir daí é que o bicho pega.

Eu sou uma pessoa que ama o teatro, sempre estive envolvida de alguma maneira com a atuação. A minha primeira formação é de psicóloga, mas posteriormente fiz várias formações em Teatro, ainda em Salvador. Morei durante um ano em Paris para estudar na Escola de Teatro de Jacques Le Coc. 

A barreira da língua alemã, entretanto, veio para cortar minhas asas. Pelo menos era como que eu via. Até eu entender que não necessariamente deveria ser assim. Em 2010, eu conheci o teatro Maxim de Zurique, que promove a diversidade. Aí tudo mudou. 

Então, eu acho que a Katia é uma brasileira que nadava contra a maré e hoje usa a correnteza para se reinventar. 

swissinfo.ch: E como você se reinventa? Como usar essa correnteza a favor?

K.H.: Em um determinado momento da minha caminhada, depois de sofrer muito por não falar um alemão perfeito, de levar tantos nãos, eu descobri que a minha maior ferramenta era ser exatamente quem eu sou. Eu sou estrangeira e não posso mudar. 

Não adianta querer falar igual ou competir com os suíços. Então, falar com sotaque é o que me torna diferente. Isso dá poder. A coragem vem de você usar a sua matéria-prima, que é você mesma. 

Até o fato de eu converter minhas dificuldades, meus dilemas e anseios em monólogo é um exemplo de como eu me transformo no meu próprio insumo. 

Acho que a minha vivência de teatro me ajudou muito a transformar dificuldade em arte, em uma ferramenta para dar voz a uma comunidade enorme que passa pelos mesmos desafios, mas que nem sempre encontra acolhida para expor o que sente. 

swissinfo.ch: E qual a mensagem que você e a diretora gostariam de passar ao público?

K.H.: A da possibilidade de transformação. Entre as missões que tenho, enquanto estou no palco, não cabe só a de entreter. Quero mostrar a capacidade de rir das nossas gafes, de conviver com as diferenças e transformar os nãos em novos caminhos nunca pensados. É uma responsabilidade social, não é?

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