ONU e Suíça condenam destruição da sede da UNRWA por Israel
A UNRWA vive sua pior crise: cortes de verbas, pressões políticas e a destruição de sua sede em Jerusalém. A Suíça, tradicional financiadora, redirecionou recursos após 7 de outubro, agravando o impasse.
O centro de saúde nas vielas estreitas não é tão sombrio quanto os prédios vizinhos, mas já viu tempos melhores. Aqui, palestinas e palestinos que vivem no Líbano podem receber atendimento médico. A Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWALink externo, na sigla em inglês) administra o centro; a organização existe desde 1949.
Wafaa El Hajj (55 anos) está aqui para conseguir medicamentos para sua mãe idosa. “Minha renda é baixa demais para que eu possa comprá-los no mercado”, diz El Hajj, que trabalha na administração de um jardim de infância. “Aqui às vezes eles podem ajudar, às vezes não.”
Palestinas e palestinos estão excluídos do sistema de saúde libanês. A taxa de pobreza nesse grupo está entre 70% e 80%. Por isso, os cortes na UNRWA os atingem fortemente. El Hajj sabe o que isso significa na prática: uma irmã sua morreu de uma doença porque a família não pôde pagar o tratamento médico. “Vivemos uma vida injusta. Até por remédios precisamos implorar. Sem a UNRWA não teríamos absolutamente nada”, confirma.
O centro de saúde foi co-financiado pela Suíça, que há muito tempo está entre os patrocinadores da organização. A relação entre a Suíça e a UNRWA é especial por motivos de pessoal: o atual diretor, Philippe Lazzarini, assim como seu antecessor, Pierre Krähenbühl, são suíços.
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Houve uma ruptura após o atentado terrorista de 7 de outubro de 2023: a Suíça suspendeu seus pagamentos à organização até que fossem investigadas as acusações do governo israelense de que funcionários da UNRWA teriam participado do atentado. (A UNRWA demitiuLink externo nove funcionários potencialmente envolvidos.)
Desde então, recursos suíços não podem ser usados para operações nos Territórios Palestinos Ocupados, ou seja, não em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. A Suíça agora apoia outras organizações nessas áreas.
Situação financeira precária
Já antes do atentado terrorista de 7 de outubro de 2023 e das acusações decorrentes dele, a UNRWA tinha problemas financeiros. O chefe da organização, Philippe Lazzarini, já havia alertado à Swissinfo.ch na primavera de 2023 sobre o colapso da organização.
Palestinas e palestinos não podem trabalhar no setor público no Líbano. Além disso, não podem registrar empresas próprias, possuir imóveis e estão excluídos de 38 profissões. Por isso, a organização é uma “corda salva-vidas”, como afirma Dorothee Klaus, diretora da UNRWA no Líbano.
Ao mesmo tempo, a própria UNRWA está ocupada com sua sobrevivência. Como organização da ONU, ela é diretamente afetada pela erosão do sistema multilateral. Ataques políticos e recursos retidos ou que deixaram de ser prometidos a enfraquecem ainda mais. “A situação financeira continua extremamente precária e imprevisível, de modo que somos obrigados a administrar o orçamento mês a mês”, diz Klaus.
Esse orçamento já é modesto: 110 milhões de dólares estão à disposição da UNRWA no Líbano, o que representa pouco menos de 490 dólares por ano para cerca de 225 mil palestinas e palestinos. Em comparação: segundoLink externo o Banco Mundial, o PIB per capita no país é de cerca de 3.500 dólares.
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A relação das palestinas e palestinos com a organização é forte. Pelos relatos de Wafaa El Hajj, fica claro que ela não é vista apenas como uma agência de ajuda, mas há muito tempo se tornou parte da identidade nacional: “A UNRWA é, desde o início, testemunha de nossa expulsão, a Nakba.”
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Há muito tempo também existe a crítica à UNRWA de que, ao transmitir o status de refugiado por herança, ela estaria perpetuando o conflito israelense-palestino. Exemplo disso foi a declaração do ministro suíço das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, em 2018: a organização seria “parte do problema“. Isso representou um afastamento da posição de suas antecessoras e antecessores no cargo, que apoiavam fortemente a organização.
Com a destruição da sede central da UNRWA em Jerusalém Oriental em 20 de janeiro de 2026, o governo israelense intensificou ainda mais seu conflito com a organização. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, condenou o ataque como uma violaçãoLink externo do direito internacional.
Também a Suíça condena a demolição, como escreve o Ministério suíço das Relações Exteriores (EDA, na sigla em alemão). “Estamos muito preocupado com as destruições e a demolição do quartel-general da UNRWA em Jerusalém Oriental. Como todas as organizações da ONU, a UNRWA, seu pessoal, seu trabalho e todas as suas instalações são protegidos pelo direito internacional. Qualquer medida contra instalações e bens das Nações Unidas é proibida segundo a Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, como o Tribunal Internacional de Justiça confirmou em seu parecer de 22 de outubro de 2025”, escreve Patricia Danzi, chefe da Direção Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação (DEZA, na sigla em alemão).
Que uma agência de ajuda não pode oferecer uma solução política para o conflito israelense-palestino é evidente. Tampouco a UNRWA pode pôr fim à exclusão das palestinas e palestinos no Líbano. Dorothee Klaus afirma: “Atualmente não há sinais de mudanças políticas maiores em seu status jurídico.”
À UNRWA, no momento, não resta alternativa senão manter seu mandato da melhor forma possível, e evitar uma piora adicional para a população “até que uma solução política justa e duradoura possa ser alcançada”.
Edição: Benjamin von Wyl
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
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