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Agricultores suíços ganham consolo milionário por acordo com Mercosul

Agricultores e,m protesto em frente ao Parlamento suíço em Berna: a categoria conseguiu unir direita e esquerda contra o acordo de livre-comércio com o Mercosul, e a decisão agora vai às urnas.
Agricultores e,m protesto em frente ao Parlamento suíço em Berna: a categoria conseguiu unir direita e esquerda contra o acordo de livre-comércio com o Mercosul, e a decisão agora vai às urnas. Keystone/Peter Schneider

Após anos de negociações, e uma votação perdida em junho na câmara baixa do Parlamento, o Senado suíço conseguiu aprovar o tratado de livre-comércio com o bloco econômico sul-americano. Mas para tanto teve que concordar em destinar CHF 517 milhões ao setor agrícola, um dos principais grupos contrários ao acordo.

O assunto foi destaque em todas as mídias dessa semana, que tentaram não se ater ao relato factual dos debates parlamentares. Afinal, o acordo afeta diversos setores econômicos, da agricultura à questões ambientais, e até mesmo o futuro da bresaola suíça.

O noticiário da semana também chamou a atenção para o perigo que cerca os ambientalistas na América Latina. Já a campanha para a presidência da República e os embates entre ministros do Superior Tribunal Federal, que ocuparam toda a mídia brasileira, mal foram tocados. Os 50 anos do ex-craque Ronaldão tiveram mais destaque.

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“Acordo com Mercosul é importante para a Suíça”

Essa é a conclusão do jornal zuriquenho Tages-Anzeiger em análise publicada após a votação no senado suíço. Mas essa posição está longe de ser unânime e colocou do mesmo lado blocos da esquerda – socialistas e verdes – junto com a extrema direita do Partido do Povo Suíço (SVP/UDC). Os adversários do acordo conseguiram forçar um referendo popular para uma aprovação definitiva – ou seja, o assunto está longe de encerrado.

O comentarista do Tagi procura se ater a fatos e números. “Em muitos lugares, dizia-se que o Parlamento pretendia destinar ‘meia bilhão de francos para os agricultores’. Essa afirmação é muito simplista. Desse montante, 480 milhões correspondem a empréstimos reembolsáveis sem juros. Para a União Federal, que consegue se financiar a taxas de juros quase nulas, isso praticamente não representa custos adicionais.

Além disso, ao longo de seis anos, serão destinados 37 milhões à chamada promoção de vendas, o que onerará os cofres da União Federal. Esse valor é 43 milhões a menos do que os agricultores exigiram inicialmente e, em comparação com os 3,5 bilhões em pagamentos diretos anuais aos agricultores, é uma quantia insignificante.

É compreensível que os agricultores exijam uma compensação pelo fato de a Suíça ter flexibilizado suas tarifas agrícolas para importações da América do Sul. Permitir a entrada no país, isenta de impostos, de mais 1.000 toneladas de frango, 3.000 toneladas de carne bovina e 200 toneladas a mais de carne suína e de cordeiro parece, à primeira vista, uma quantidade significativa.

No entanto, as importações já estão hoje bem acima desses valores. Isso significa que, com o acordo, os preços desses produtos cairão e outros parceiros comerciais poderão reduzir seus fornecimentos. Os agricultores suíços, por outro lado, poderiam continuar vendendo sua carne. Na verdade, o acordo seria problemático sobretudo para os viticultores, pois nesse setor a proteção tarifária não é tão eficaz quanto em outros.

Mas — por mais cínico que pareça: a situação lá já é tão desastrosa que aqueles poucos milhares de hectolitros já não fazem mais diferença. A maioria dos agricultores no Parlamento, portanto, aprovou o acordo ou se absteve. O presidente da Federação dos Agricultores, Markus Ritter, fez valer seu poder de veto e conseguiu uma boa compensação para sua base. Para a votação, será decisivo se Ritter conseguirá convencer sua base com isso. Nos últimos meses, ele exigiu indenizações significativamente mais altas. Ele terá que explicar bem sua reviravolta.”

Ritter, por seu lado, já começou a se explicar no dia seguinte à votação em entrevista ao diário Le Temps, de Genebra. Para tentar apöaziguar a sua base, declarou, defensivamente, que “se o governo conceder novos limites, voltaremos com nossas reivindicações.”

O outro lado, por Kari Guajajara

A advogada e ativista Kari Guajajara.
A advogada e ativista Kari Guajajara. ZVG

A advogada indígena brasileira foi convidada pelo portal Schweizheute para oferecer um contraponto aos debates na Suíça. Para ela, “a esquerda exige medidas eficazes para impedir o desmatamento da floresta tropical. Os consumidores na Suíça também têm sua parcela de responsabilidade.”

“Um oceano inteiro separa a Suíça da minha terra natal. E, no entanto, o dia a dia de vocês está mais ligado ao nosso do que muitos de nós imaginam. Sou advogada e integro o povo Guajajara, do Território Indígena de Araribóia, no estado do Maranhão, no Brasil. Nosso território está entre as áreas indígenas mais ameaçadas do Brasil. Há muitos anos, venho lutando pelos direitos dos povos indígenas e pela proteção da floresta tropical. Pois o futuro dela está intimamente ligado ao futuro do nosso povo.

Araribóia abrange mais de 4.000 quilômetros quadrados e é o lar de cerca de 16.000 Guajajara, bem como de membros do povo Awá-Guajá, que vivem em isolamento voluntário. Vista do espaço, nossa terra se assemelha a uma ilha verde, cercada por uma paisagem que, nas últimas décadas, foi amplamente transformada em pastagem. A floresta remanescente torna Araribóia valiosa, mas também vulnerável: grileiros, madeireiros ilegais e pecuaristas avançam cada vez mais em nosso território. Especialmente em regiões com pouca fiscalização, áreas são cercadas para dar lugar a pastagens para gado.

Isso gera conflitos fundiários e violência. A situação se assemelha a uma guerra. Carne bovina, couro e madeira, extraídos ilegalmente em nossos territórios e arredores, não são comercializados apenas nos mercados locais.

Parte desses produtos chega às cadeias de abastecimento internacionais. Casos documentados mostram, por exemplo, que carne bovina proveniente de pecuária ilegal pode chegar às lojas europeias. No entanto, como a rastreabilidade é incompleta, é difícil determinar a origem exata de muitos produtos. Isso, porém, não pode servir de desculpa para a inércia. Pelo contrário: é necessário um controle mais rigoroso.

E o que a bresaola tem a ver com isso?

Iguaria: a bresaola original de Valtellina, boa parte produzida com carne brasileira.
Iguaria: a bresaola original de Valtellina, boa parte produzida com carne brasileira. Mottolini

O NZZ (Neue Zürcher Zeitung), um dos jornais mais prestigiosos da Suíça, relata que a produção dessa iguaria, proveniente de Veltlin (Valtellina), na região fronteiriça entre a Itália e a Suíça, emprega cerca de 1.500 pessoas. Agora, o abastecimento está ficando escasso. E o medo de uma crise começa a se espalhar.

Anualmente, são produzidas cerca de 12.000 a 13.000 toneladas de “Bresaola della Valtellina IGP”, conforme a denominação oficial. Há muito tempo que a bresaola expandiu sua conquista do norte da Itália para todo o país, e no exterior. Mas agora começam a surgir preocupações.

Em 3 de setembro de 2026, a Comissão Europeia suspendeu provisoriamente a importação de carne bovina brasileira e outros produtos de origem animal para a UE. Na opinião de Bruxelas, o Brasil não está, atualmente, em condições de comprovar que não são utilizados, na criação de gado, antibióticos proibidos na Europa.

Segundo a mídia italiana, isso está relacionado ao Acordo Comercial com o Mercosul, que está em vigor provisoriamente desde 1º de maio deste ano. De acordo com o acordo, o Brasil deveria ter introduzido um sistema de certificação adequado. A Argentina, o Paraguai e o Uruguai, os outros países signatários do acordo do Mercosul com a UE, aparentemente não têm dificuldades em cumprir as normas.

O que parece ser um problema burocrático e facilmente solucionável tem graves consequências para os produtores de carne da Valtellina. A carne bovina brasileira é, há décadas, a principal matéria-prima da bresaola. Mais de 80% dessa bresaola é produzida com carne sul-americana, sendo que 60% dessa carne provém do Brasil.

Onde todo dia é temporada de caça aos ambientalistas

Memorial de cruzes em homenagem aos defensores e defensoras da floresta assassinados na Amazônia brasileira.
Memorial de cruzes em homenagem aos defensores e defensoras da floresta assassinados na Amazônia brasileira. EPA/GREENPEACE

De acordo com dados da organização não governamental Global Witness, pelo menos 124 defensores da terra e do meio ambiente foram mortos em todo o mundo no ano passado. Só na América Latina, 105 deles foram assassinados – o que fez com que a região voltasse a ocupar, com grande vantagem, o triste primeiro lugar.

Mais uma vez, o risco maior foi na Colômbia, onde 39 ativistas ambientais foram mortos. Com isso, o país lidera as estatísticas pela quarta vez consecutiva. Vêm em seguida o Brasil (26 mortes), Honduras e as Filipinas (12), o México (10) e a Guatemala (8).

Mais de três quartos das vítimas fatais em todo o mundo eram pequenos agricultores, membros de povos indígenas ou pessoas de ascendência africana. Além disso, em mais de um terço dos casos registrados mundialmente, havia indícios de ligações com o crime organizado ou com assassinos de aluguel.

No entanto, o número total de mortes documentadas diminuiu. Em 2024, segundo a Global Witness, houve 142 mortes; no ano anterior, foram 196. No entanto, a Global Witness também ressalta que o número real de casos provavelmente é maior.

A situação é particularmente perigosa onde há disputas por terras e recursos naturais. Mais da metade dos assassinatos, segundo dados da Global Witness, estava relacionada a conflitos fundiários. Entre as áreas afetadas estão regiões com atividades de mineração e extração de matérias-primas, desmatamento e agricultura. Reivindicações de terra não esclarecidas ou não reconhecidas fizeram com que comunidades indígenas e pequenos agricultores sofressem com a apropriação ilegal de terras, intimidação e violência, afirmou Gabriella Bianchini, da Global Witness.

Ronaldo, o “Verdadeiro”

Para terminar nossa Revista da semana: por ocasião dos seus 50 anos, Ronaldo Fenômeno, o “original”, ganhou de presente uma crônica apaixonadaLink externo do correspondente do NZZ em Barcelona, Florian Haupt.

O original. Não aceite imitações.
O original. Não aceite imitações. Oliver Lang/dapd

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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 25 de setembro. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!

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