Startups suíças miram liderança europeia em robótica com IA
Startups suíças de robótica buscam transformar pesquisas de ponta em negócios globais, combinando hardware avançado e inteligência artificial em máquinas para construção, logística, manufatura e manutenção.
As empresas do país enfrentam agora o enorme desafio de transformar pesquisas inovadoras em negócios viáveis – tendo em vista a intensa concorrência global, sobretudo dos Estados Unidos e da China.
De humanoides, drones e veículos autônomos a máquinas que operam em ambientes perigosos, os robôs estão ampliando os limites da mobilidade, da flexibilidade e do autoaprendizado.
Dotados de capacidades sensoriais aprimoradas e de habilidades para tomada de decisão, os robôs agora conseguem se adaptar a novos desafios em ambientes imprevisíveis. Essa aplicação prática da inteligência artificial no mundo real é chamada de “IA física”.
Um número cada vez maior de empresas suíças está desenvolvendo uma nova geração de robôs para linhas de produção, reconhecimento aéreo, inspeção de plataformas de petróleo, canteiros de obras, limpeza de escritórios, manutenção de centros de dados e outras aplicações. Algumas delas chamaram a atenção de investidores, fabricantes e empresas de tecnologia de todo o mundo.
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Europa aposta em robôs inteligentes para competir com China e EUA
A Gravis Robotics, por exemplo, conseguiu um financiamento de 200 milhões de dólares da empresa de investimentos japonesa Softbank. A Gravis ganhou notoriedade ao projetar escavadeiras e carregadeiras automatizadas para o setor da construção civil.
Não está à venda
O investimento na Gravis faz parte da segunda grande onda de investimentos em robótica da SoftBank na Suíça, após a conclusão de um acordo de 5,4 bilhões de dólares para adquirir a divisão de robótica da gigante ABB em 2025.
No início deste ano, a gigante tecnológica estadunidense Amazon adquiriu a startup suíça Rivr, que fabrica robôs quadrúpedes autônomos para o setor de logística.
No entanto, em vez de depender exclusivamente de aquisições e fusões com empresas estrangeiras de maior porte, a indústria suíça pretende trilhar seu próprio caminho para se consolidar como potência europeia no campo da robótica.
Isso inclui a jovem empresa mimic robotics, sediada em Zurique, que está desenvolvendo uma plataforma física de IA para robótica de uso geral.
A mimic combina suas mãos robóticas semelhantes às humanas com modelos de base, que treinam os robôs em novas habilidades a partir de demonstrações humanas. Os sistemas robóticos podem realizar tarefas repetitivas de fabricação e trabalho de logística sem a necessidade de recodificação, algo que as máquinas tradicionais exigem para alternar entre tarefas.
A empresa não tem interesse em ser engolida por um concorrente maior. “Temos uma oportunidade real de nos tornarmos uma empresa pioneira em IA de grande escala na Europa”, afirma o diretor de tecnologia da mimic, Elvis Nava, à swissinfo.ch. “Estamos bem posicionados para desempenhar um papel muito mais relevante do que simplesmente sermos absorvidos por uma empresa maior dos EUA”, completa Nava.
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Suíça, um gigante discreto da robótica
A Associação Suíça de Robótica identificou 182 pequenas e médias empresasLink externo que atuam no setor. Muitas delas são spin-off das Escolas Politécnicas Federais de Zurique (ETH) e Lausanne (EPFL), que se destacam pela pesquisa de nível mundial em robótica e inteligência artificial.
Otimista, porém realista
Robert MacKenzie, sócio da ellipsis Venture, sediada em Zurique, afirma que as startups suíças devem se concentrar em inovações que resolvam problemas específicos na cadeia de suprimentos, em vez de competir com concorrentes maiores que produzem sistemas robóticos completos em massa.
“Algumas empresas suíças estão muito bem posicionadas no momento e, se se fizerem escolhas estratégicas certas, poderão se tornar indispensáveis no mercado da robótica”, declara MacKenzie à Swissinfo.ch. Ele cita o exemplo da holandesa ASML, que domina o mercado de máquinas de litografia em ultravioleta extremo (EUV, na sigla em inglês), tecnologia que transformou a fabricação dos chips de computador.
As chances de se tornar uma empresa do tipo “unicórnio” – avaliada em mais de 1 bilhão de francos suíços – também dependem de as startups estabelecerem parcerias com os setores que pretendem atender e de incorporarem líderes empresariais experientes às suas equipes. MacKenzie descreve a si mesmo como um otimista em relação ao futuro da robótica, especialmente na Suíça, mas realista o suficiente para não se deixar levar pelo hype em torno do setor.
“Muitas empresas recém-criadas são lideradas por estudantes de doutorado sem nenhuma experiência na construção de uma organização tão complexa quanto uma empresa de robótica”, diz MacKenzie. “Na Europa, a margem de erro é menor. As empresas precisam desenvolver seu produto de forma eficiente para sobreviver. Caso contrário, vão aprender da pior forma, depois de desperdiçar milhões de dólares no processo”, completa.
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Robôs suíços participam de missão espacial
A Suíça oferece muitas vantagens para startups de robótica, que atuam em contato próximo com instituições de pesquisa de ponta e com grandes empresas de tecnologia que se estabeleceram no país.
As startups também têm acesso a uma ampla base industrial europeia, que está disposta a reestruturar suas linhas de produção diante da crescente ameaça da China e de outras economias mais ágeis.
Polo de atração de capital de risco
A mimic, por exemplo, está colaborando com a Audi para testar seus robôs em tarefas reais de produção que a robótica convencional não consegue realizar.
“Queremos ajudar a Europa a recuperar a competitividade como centro de produção”, afirma Mattia Arduini, líder de desenvolvimento de negócios da mimic, à Swissinfo.ch. “Permitimos que as empresas superem a escassez de mão de obra por meio da automação inteligente e flexível”, acrescenta.
Atualmente, o capital de risco está fluindo para o setor de robótica em ritmo acelerado. De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Crunchbase, as empresas de robótica atraíram 18,8 bilhões de dólares em financiamento nos primeiros seis meses deste ano, em comparação com os 15 bilhões de dólares em todo o ano de 2025. Outras estimativas apontam para números ainda maiores.
Na Suíça, o volume correspondente de investimentos é bem menor: 1,1 bilhão de dólares desde 2020, de acordo com o Swiss Deeptech Report 2026, publicado pela Deeptech Nation, uma fundação sem fins lucrativos que apoia startups de tecnologia de ponta na Suíça.
O volume relativamente baixo de investimentos na Suíça pode ser explicado pela escassez de grandes aportes em estágios mais avançados, já que a maioria das startups suíças tem pouco tempo de existência. O recente investimento de 200 milhões de dólares na Gravis Robotics não foi incluído no relatório da Deeptech Nation.
Esperar pelo potencial máximo
Mas o número absoluto de startups está crescendo. A Suíça tem mais startups de robótica per capita do que a Grã-Bretanha, a Alemanha e os EUA, de acordo com o estudo.
No entanto, os dias de financiamento generoso para a robótica podem estar chegando ao fim, acredita Robert MacKenzie. Isso porque a promessa da robótica pode demorar mais tempo para se concretizar do que esperam até mesmo os otimistas mais convictos.
“Os investidores vão começar a perceber que a robótica é muito mais difícil do que imaginavam, que os fundadores das empresas subestimaram a complexidade de suas tarefas e que a IA física está mais distante do que se previa”, observa MacKenzie. “Acredito que os investimentos possam se estabilizar, migrar para a fase de implantação ou até mesmo diminuir em 2027”, completa o sócio da ellipsis Venture.
“A velocidade depende da complexidade: poderemos ver braços robóticos de última geração realizando novas tarefas com confiabilidade nas áreas de produção e logística nos próximos dois anos”, acrescenta ele. “Mas não veremos robôs em casa realizando todas as tarefas domésticas”, prevê.
Apesar de alguns modelos iniciais promissores, a IA física ainda tem um longo caminho a percorrer antes de atender às expectativas do mercado.
Edição: Gabe Bullard
Adaptação: Soraia Vilela
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