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Suíça se prepara para o inverno frente a riscos no fornecimento de gás

Vista dos telhados de Berna, janeiro de 2026. Após um verão com temperaturas recorde na Europa, as atenções voltam-se agora para o inverno. Há preocupações quanto ao aumento dos preços da energia e ao impacto da guerra em curso entre os EUA e o Irão.
Vista dos telhados de Berna, janeiro de 2026. Após um verão com temperaturas recorde na Europa, as atenções voltam-se agora para o inverno. Existem preocupações quanto ao aumento dos preços da energia e ao impacto da guerra em curso entre os EUA e o Irã. Keystone / Christian Beutler

Seis meses após o início da guerra entre EUA e Irã, a Suíça conseguiu evitar a escassez de combustível, mas enfrenta contas de energia mais altas e preocupações crescentes acerca do fornecimento de gás, cujos estoques na União Europeia estão baixos.

Embora o fechamento do Estreito de Ormuz continue afetando os mercados globais de energia, as importações suíças de combustível permanecem garantidas. A atenção está agora se desviando da disponibilidade de estoque e recaindo sobre o aumento dos preços e o risco de o mercado de gás europeu ser pressionado neste inverno.

Fornecimento de combustível da Suíça permanece garantido

Segundo a Avenergy, a associação suíça de importadores de combustível, a guerra não afetou o fornecimento de combustível no país.

“Não houve nenhum tipo de escassez nos últimos seis meses devido à guerra no Irã. O fornecimento sempre foi e continua sendo garantido”, disse o porta-voz da Avenergy, Ueli Bamert, à Swissinfo.

Antes da guerra, o Estreito de Ormuz canalizava cerca de 20% do comércio mundial de petróleo e GNL (gás natural liquefeito). A Suíça importa cerca de 30% de seu petróleo na forma bruta, majoritariamente dos Estados Unidos, da Nigéria e do Norte da África. Já a maioria dos produtos refinados, como a gasolina e o diesel, vem de países da União Europeia.

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Bamert explicou que a dependência limitada da Suíça em relação ao petróleo do Golfo ajudou a proteger o abastecimento do país dos efeitos do conflito.

Como uma garantia contra um possível desabastecimento, o governo suíço também pode recorrer a reservas obrigatóriasLink externo administradas pelo setor privado sob supervisão federal. As reservas estratégicas cobrem cerca de quatro meses e meio da demanda de gasolina, diesel e óleo de aquecimento, além de três meses de consumo de querosene. As reservas não foram acionadas nos últimos seis meses, disse Bamert.

Consumidores enfrentam preços mais altos de petróleo e combustíveis

Embora os mercados de petróleo já tenham se adaptado à perda do fornecimento vindo do Oriente Médio, os consumidores e consumidoras ainda estão enfrentando preços mais altos. O petróleo Brent [petróleo bruto extraído no Mar do Norte] permanece cerca de 25% mais caro do que era antes da guerra, custando agora aproximadamente US$ 90 (CHF 72) por barril, enquanto os preços do diesel na Europa dispararam mais de 70% desde o início do conflito.

Na Suíça, o preço do dieselLink externo estava, em média, CHF 2,27 (US$ 2,82) por litro no final de agosto, um aumento de 21% desde o final de fevereiro. O preço da gasolina sem chumbo, por sua vez, subiu 17%, chegando a CHF 2,02 por litro.

Os custos do transporte rodoviário de carga já estão 15% mais altos que há um ano, e espera-se que permaneçam elevados até o final do ano, segundo a União Internacional de Transporte Rodoviário (IRU), sediada em Genebra.

O óleo de aquecimentoLink externo, utilizado em cerca de 35% dos edifícios na SuíçaLink externo, também ficou mais caro. Em abril, os preços subiram de cerca de CHF 92 para CHF 156 por 100 litros, antes de recuarem e, posteriormente, subirem novamente para aproximadamente CHF 140 no final de agosto.

As secas de verão aumentaram ainda mais a pressão. Os baixos níveis de água no rio Reno prejudicaram as entregas de produtos derivados de petróleo que vinham dos portos do Mar do Norte para a Basileia, no norte da Suíça, elevando os custos do transporte e, consequentemente, os preços dos combustíveis e do óleo de aquecimento.

A população residente na Suíça tem uma renda alta para os padrões europeus e, ainda assim, gasta relativamente pouco de sua renda com serviços básicos.

Para Alexander Rathke, chefe de previsões econômicas no Instituto Econômico Suíço KOF, o impacto da guerra entre EUA e Irã sobre os consumidores suíços tem sido “visível, mas limitado”.

“De modo geral, os lares suíços têm enfrentado relativamente bem os efeitos da guerra no Irã. A inflação permaneceu baixa, permitindo um aumento real dos salários neste ano. Os consumidores permanecem cautelosos, mas a confiança tem se recuperado significativamente desde o início da guerra”, disse Rathke à Swissinfo.

O mercado de gás europeu sob pressão

O gás representa cerca de 12% do consumo energético da Suíça e aquece uma em cada seis residênciasLink externo no país. Os preços aumentaram consideravelmente desde o início das hostilidades.

Os futuros do TTF holandês, índice de referência para os preços de gás na Europa e na Suíça, estavam em € 64 (CHF 60) por megawatt-hora em 26 de agosto, o que representa uma alta de mais de 130% desde o início do ano.

Embora o preço do gás permaneça bem abaixo dos níveis recordes registrados durante a crise energética de 2022, a Europa deve entrar no inverno com um estoque excepcionalmente baixo. A forte demanda por eletricidade durante o verão, as interrupções em usinas hidrelétricas e nucleares causadas pela seca, e as falhas no fornecimento pressionaram o mercado. O nível médio de estoque de gás na União Europeia estava em 62% no final de agosto, bem abaixo dos níveis tipicamente praticados na estação.

Um inverno rigoroso poderia desencadear novos aumentos nos preços e elevar o valor das contas de energia da população.

Ben McWilliams, analista de energia no thinktank Bruegel, não vê motivo para “pânico excessivo”.

Ele disse ao veículo de notícias Euractiv que um desabastecimento só ocorreria “no pior dos casos, com períodos prolongados de baixas temperaturas, novas interrupções inesperadas no mercado global de GNL, e uma rede de fornecimento de energia [de fontes nucleares e renováveis] fragilizada”.

Ainda assim, a dependência da Suíça dos mercados europeus de gás deixa o país vulnerável caso as condições piorem, especialmente se o inverno se mostrar mais frio que o comum.

Autoridades suíças se preparam para possível escassez de gás

A Suíça depende de importações de gás feitas através de seus países vizinhos e da capacidade de armazenamento contratada no exterior. Hoje, a maior parte das importações de gás por gasoduto da Europa vem da Noruega e da Argélia, enquanto o GNL é obtido principalmente dos Estados Unidos.

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Em sua última avaliaçãoLink externo de segurança energética, divulgada em 19 de agosto, o governo suíço alertou que garantir o fornecimento para o próximo inverno estava “se mostrando um desafio”. Por isso, o governo estabeleceu, junto ao setor de gás, um grupo de trabalho para monitorar a situação.

Desde 2022, os fornecedores suíços de gás são legalmente obrigados a garantir uma capacidade de armazenamento em instalações europeias equivalente a 15% da demanda anual da Suíça.

Janos Kick, porta-voz da Associação da Indústria de Gás da Suíça, afirmou que a situação do abastecimento é estável, mas que o fechamento do Estreito de Ormuz aumentou a incerteza nos mercados globais de energia.

“O consumo de gás no inverno geralmente excede o estoque disponível no curto prazo. É por isso que as instalações de armazenamento de gás são tão importantes, assim como as importações de gás. Quanto mais rigoroso o inverno, mais importantes elas são”, disse ele à Swissinfo.

“A Suíça permanece dependente de importações de gás e deve, portanto, estar preparada para anomalias no mercado europeu”.

Em 20 de agosto, Berna anunciouLink externo um mecanismo de contingência conhecido como ITA.SWAPtion.26, que permitiria à Suíça redirecionar o gás que flui pelo gasoduto de trânsito da França para a Itália, caso as importações via Alemanha fossem interrompidas. Em vigor de outubro de 2026 até março de 2027, a medida pode cobrir cerca de 10% da demanda suíça no inverno e visa principalmente proteger os consumidores comerciais e industriais.

Gilles Verdan, diretor-geral da Gaznat, disse à emissora pública suíça de língua francesa, RTS, que o mecanismo é uma “garantia extra sensata”, que deve ajudar a reduzir os riscos de um desabastecimento de gás no país.

Ainda assim, para Verdan, é o armazenamento doméstico de gás que aumentaria a segurança energética da Suíça no longo prazo, destacando que há um projeto planejado para a região do Alto Valais que poderia ajudar a reduzir uma das principais vulnerabilidades do país.

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Edição: Marc Philipp Leutennegger/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

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