O mundo escuta o grito indígena em Brasília: “nosso futuro não está à venda”
Milhares de representantes de diversas nações indígenas ocupam Brasília essa semana por ocasião do protesto anual Acampamento Terra Livre, conseguindo chamar a atenção do mundo inteiro para a exploração selvagem das suas reservas.
Selecionamos algumas reportagens publicadas na imprensa suíça relacionadas ao mundo lusófono. Além da manifestação indígena em Brasília, a semana também teve como destaque animais extraordinários, e duas facetas da criminalidade: o tráfico de cocaína, que aparentemente não compensa, e uma fraude financeira milionária com fundos públicos de Moçambique do qual o banco UBS conseguiu se safar na justiça.
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Indígenas encaram o Congresso
A maior mobilização indígena anual, o Acampamento Terra Livre, que ocorre essa semana em Brasília, tem por objetivo chamar a atenção para o Brasil e o mundo sobre as constantes ameaças que sofrem por todo tipo de exploração destruidora. Desmatamento ilegal, mineração, tráfico de drogas, animais silvestres, madeira e armas… a lista é imensa, e pior: em muitos casos, os mandantes têm pleno acesso aos corredores dos três poderes na capital federal.
As imagens abundantes de trajes típicos, máscaras, rituais abertos, e protestos bem orquestrados garantiram a presença do evento, e suas causas, em mídias do mundo inteiro, inclusive da Suíça. Os organizadores do Acampamento Terra Livre, que acontece anualmente desde 2004, estimam entre 7.000 e 8.000 participantes. A maioria deles percorre longas viagens de ônibus e barco para chegar a Brasília.
A plataforma de notícias blue News ressalta que “as reivindicações fundiárias dos indígenas no maior país da América Latina esbarram no poderoso setor agrícola e em seus aliados no Parlamento brasileiro. O Congresso, de maioria conservadora, aprovou em 2023 uma lei segundo a qual os povos indígenas têm direito apenas às terras que ocupavam no momento da promulgação da Constituição, em 1988.”
A lei foi considerada inconstitucional pela Suprema Corte antes que o Parlamento contra-atacasse com outra lei, levando a Suprema Corte a iniciar um processo de “conciliação”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva governa com uma ampla coalizão que conta com o apoio dos povos indígenas, mas que também inclui setores do agronegócio. Desde o início de seu terceiro mandato, em janeiro de 2023, Lula homologou 20 terras indígenas, enquanto seu antecessor de extrema direita, Jair Bolsonaro (2019-2022), cumpriu sua promessa de “não ceder mais um centímetro” aos indígenas.
Em fevereiro, seu governo revogou um decreto que designava os principais rios da Amazônia como prioritários para a navegação de mercadorias, especialmente o transporte de grãos.
O decreto, contestado em manifestações durante várias semanas, principalmente em frente a um terminal da gigante agroindustrial americana Cargill em Santarém (norte), teria permitido a expansão de portos privados e a dragagem dos rios, considerados vitais para o modo de vida dos povos indígenas. Os indígenas exigem que o governo vá além e proceda à demarcação de seus territórios.
Fonte: RTNLink externo, blue NewsLink externo, 06.04.2026 (francês)
Crime que compensa
O Tribunal Penal Federal (TPF) da Suíça arquivou o processo movido contra o banco UBS no caso dos empréstimos concedidos a Moçambique. O processo, originalmente, era contra o banco Credit Suisse, cuja massa falida foi incorporada pelo UBS em 2023.
Em uma decisão publicada na sexta-feira, o Tribunal Penal Federal (TPF) considera que o cancelamento do Credit Suisse do registro comercial implicou o fim de sua personalidade jurídica. A partir de então, não há mais um sujeito de direito: a pessoa jurídica deixou de existir não apenas do ponto de vista do direito societário, mas também do ponto de vista do direito penal. Consequentemente, a responsabilidade penal não foi transferida para o UBS após a fusão.
O caso remonta ao período entre 2013 e 2014, quando o Credit Suisse concedeu empréstimos a empresas públicas de Moçambique. O Ministério Público da Confederação (MPC) considerou que os recursos provenientes do reembolso eram de origem ilícita.
O MPC também identificou falhas organizacionais no banco que, em 2016, não permitiram impedir atos de lavagem de dinheiro.
As acusações, que visavam a UBS como adquirente após a fusão com o Credit Suisse, diziam respeito à responsabilidade penal das empresas em relação ao crime de lavagem de dinheiro. De fato, segundo o MPC, na qualidade de adquirente, a UBS poderia ser responsabilizada pelas falhas organizacionais no Credit Suisse.
Quanto aos empréstimos concedidos a Moçambique, no valor superior a 2 bilhões de dólares, eles foram concedidos a três empresas estatais sem o conhecimento do Parlamento local e do Fundo Monetário Internacional. O dinheiro deveria servir, entre outras coisas, para financiar a construção de uma frota de pesca de atum. Nessa ocasião, foram pagos subornos em grande escala.
O caso veio à tona em 2016, quando o governo moçambicano revelou ter contraído esses empréstimos. Após esse escândalo, o FMI e a maioria dos doadores do país, um dos mais pobres do mundo, suspenderam sua ajuda.
Fonte: BlickLink externo em 09.04.2026; blue NewsLink externo em 10.04.2026 (francês)
Polícia francesa atrapalha rota da cocaína de Portugal
Produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia, a cocaína geralmente chega ao mercado europeu através de grandes portos como Le Havre, Roterdã ou Antuérpia. Mas, com o reforço dos controles, os traficantes diversificaram suas rotas de transporte, entrando pelos portos de Barcelona e Lisboa e transitando por rodovias para inundar o norte da Europa. Mas para isso, o produto tem que, invariavelmente, passar pela França. E nas últimas semanas a polícia francesa registrou alguns raros sucessos na apreensão da droga em seu território.
Conforme relata o jornal Blick, durante uma fiscalização na cidade de Vienne, perto de Lyon, a polícia alfandegária encontrou mais de uma tonelada de cocaína em 998 papelotes escondidos entre 26 sacos cheios de terra para vasos. O caminhão estava indo de Portugal para a Holanda. Um trajeto que os investigadores conhecem há anos como uma rota central de contrabando.
A edição francesa do Blick publicou uma outra matéria mais aprofundada sobre a rota da cocaína proveniente de Portugal, que passa pela já famosa estrada A7.
Segundo um policial entrevistado pelo diário, “na A7, encontramos praticamente de tudo! Temos um fluxo enorme de caminhões, diferente do que se vê em algumas partes da França. Temos caminhões que vêm de todos os lugares e vão para todos os lugares, o que torna ainda mais difícil selecionar os caminhões a serem fiscalizados. É de se esperar um aumento significativo das ‘importações’ do sul da Europa, com volumes consideráveis. Receio que estejamos diante de um fenômeno que não vai acabar tão cedo”, diz ele.
“Essa rota da cocaína tem se intensificado há um ano e meio, com apreensões realmente significativas. São apreensões que não víamos em tais quantidades anteriormente”, explica Corinne Cléostrate, subdiretora do departamento alfandegário da polícia francesa.
Em 2025, segundo o Serviço de Combate às Drogas (Ofast), 84,3 toneladas de cocaína foram apreendidas na França, das quais 59,5 toneladas transportadas por via marítima. E 11 toneladas da cocaína apreendida eram provenientes da Espanha e de Portugal, contra 1,7 tonelada em 2024. Somente a alfândega apreendeu 31,26 toneladas de cocaína em 2025.
Fonte: BlickLink externo em 04.04.2026 (alemão); e BlickLink externo em 04.04.2026 (francês)
Cão farejador brasileiro vira estrela
Enquanto isso, no complexo da Maré, um vasto conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro, a polícia apreendeu 48 toneladas de maconha graças a um pastor de raça belga malinois chamado Hulk, que sinalizou algo suspeito sob um reservatório em um prédio abandonado.
Trata-se da maior apreensão da história do Brasil, que representa uma perda de mais de 50 milhões de reais (mais de 8 milhões de euros) para a facção criminosa envolvida, segundo os policiais. A polícia militar informou que foram necessárias cinco horas e dezenas de agentes para retirar a droga, que foi transportada em quatro caminhões.
O recorde anterior de apreensão de drogas no Brasil datava de 2021: a polícia rodoviária havia interceptado 36,5 toneladas de cannabis no estado do Mato Grosso do Sul.
Fonte: blue NewsLink externo, 08.04.2026 (francês)
11 mil quilômetros submarinos
Quando a estação chuvosa faz o Amazonas transbordar, começa uma jornada especial para o peixe-gato dourado (Brachyplatystoma rousseauxii). O rio fica mais rápido e mais profundo – para o peixe, esse é o sinal de partida. Sua rota percorre mais de 11.200 quilômetros, e é considerada a mais longa migração em água doce do mundo.
Pertencente à família dos bagres “Goliath”, ele desova nos Andes, ou seja, nas nascentes do Amazonas. As larvas flutuam então por milhares de quilômetros até a foz no Atlântico. Lá, elas crescem nas águas salobras ricas em nutrientes, antes de voltarem rio acima após um ou dois anos.
Só nos últimos anos os pesquisadores conseguiram comprovar essa jornada completa. Mas é justamente essa rota que hoje está ameaçada. Barragens e rios represados bloqueiam o caminho para as áreas de desova.
As consequências são claramente mensuráveis. Na Bolívia, segundo estudos, os estoques diminuíram em 80% após a construção de duas barragens rio abaixo, no Brasil. O dorado corre o risco de desaparecer completamente em algumas regiões.
Fonte: blue NewsLink externo, 04.04.2026 (alemão)
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