Laboratório suíço identifica cepa mortal de hantavírus
Um laboratório dos Hospitais Universitários de Genebra identificou a cepa Andes do hantavírus responsável por um surto em um cruzeiro transatlântico que deixou mortos e infectados em vários países. Assim eles trabalharam.
Na última semana, manchetes na Suíça estavam repletas de notícias sobre o hantavírus, após um homem infectado, que havia participado de um cruzeiro transatlântico, ser hospitalizado em Zurich. Ao todo, 11 casos, incluindo três mortes, foram registrados entre passageiros do navio MV Hondius desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi alertada, em 2 de maio.
Os hantavírus constituem um grupo de mais de 20 espécies virais transmitidas por roedores, capazes de causar diversas doenças. O Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul confirmou um caso em 2 de maio. A variante exata envolvida foi identificada como a cepa Andes por um laboratório do Hospital Universitário de Genebra (HUG) em 5 de maio.
A descoberta feita pelo HUG permitiu que a Organização Mundial da Saúde compreendesse melhor os mecanismos do vírus e tomasse medidas adequadas para lidar com o surto.
“Identificar a espécie viral é importante para compreender a transmissão, a gravidade e a origem”, afirmou Francisco-Javier Perez Rodriguez, biólogo responsável pelos vírus emergentes no laboratório.
A cepa Andes é o único hantavírus conhecido capaz de ser transmitido entre seres humanos, embora isso exija contato próximo. Ela pode causar a síndrome pulmonar por hantavírus, uma doença grave e potencialmente fatal que afeta os pulmões.
Da amostra de um paciente até a OMS, a Swissinfo analisa como o resultado obtido pela virologia de Geneva moldou a resposta a um surto global.
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Do paciente ao laboratório
Em 4 de maio, o cidadão suíço infectado foi internado no Hospital Universitário de Zurich (USZ), que coletou amostras de sangue, urina e material respiratório por meio de cotonetes semelhantes aos utilizados para testes de Covid-19. As amostras foram então embaladas para transporte em três diferentes camadas de proteção, como é habitual no caso de vírus.
No mesmo dia, as amostras foram entregues de carro ao Centro Nacional de Referência para Infecções Virais Emergentes (CRIVE), em Geneva, um dos diversos laboratórios de virologia do Hospital Universitário de Genebra (HUG).
O centro foi criado em 2005 e recebeu do Departamento Federal de Saúde Pública (FOPH, na sigla em inglês) o mandato, além de financiamento parcial, para diagnosticar vírus emergentes como dengue, SARS ou Zika.
O CRIVE é um dos quatro laboratórios suíços certificados no mais alto nível de contenção biológica. Possui portas resistentes à pressão e paredes impermeáveis, e seus sistemas de água e ventilação são separados do restante do complexo hospitalar, sendo descontaminados diversas vezes antes e depois do uso.
“Existem vários níveis de segurança para se trabalhar com microrganismos”, explicou Perez Rodriguez. “O nível máximo de segurança é o 4, e nós utilizamos o nível 3, porque sabemos que os hantavírus não são tão perigosos quanto o vírus Ebola, que exigiria o nível máximo de segurança.” A certificação do laboratório limita-se ao seu mandato de diagnóstico, e ele não pode armazenar nem cultivar culturas celulares de vírus de nível 4.
As amostras refrigeradas contendo o vírus foram abertas em cabines de segurança biológica – espaços de trabalho construídos sob camadas de proteção que impedem a exposição a partículas de ar contaminadas.
Do teste PCR ao sequenciamento
“Existem diferentes técnicas para diagnosticar um vírus, e utilizamos a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), exatamente como no caso da Covid”, afirmou Perez Rodriguez.
Com essa técnica, os especialistas extraem o genoma do vírus da amostra e o misturam com reagentes, isto é, uma série de compostos capazes de provocar reações químicas. Se o vírus estiver presente, pequenas sequências de DNA viral – conhecidas como primers e probes – aderem ao genoma do vírus, e a sequência-alvo é amplificada e sinalizada por moléculas fluorescentes.
Para evitar erros de diagnóstico, os primers e probes precisam ser cuidadosamente projetados e direcionados a partes exclusivas de cada vírus.
Os reagentes destinados a vírus emergentes com maior probabilidade de serem trazidos para a Suíça vindos de outros países são armazenados nos congeladores do CRIVE, para que possam ser utilizados no diagnóstico assim que as amostras chegam. O laboratório do HUG mantém reagentes para sete das mais de 20 espécies de hantavírus.
A equipe testou tanto a cepa Andes – endêmica da América do Sul, de onde partiu o cruzeiro – quanto a espécie Sin Nombre, para descartar uma origem norte-americana.
Foram necessários dois dias para sequenciar o vírus, em colaboração com o hospital de Zurich, e os resultados foram publicados em um banco de dados público, acessível a todos. O genoma decodificado fornece um modelo prescritivo genético completo e pode ser usado para desenvolver uma compreensão mais aprofundada do vírus.
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Dos especialistas para o mundo
Na Suíça, médicos e laboratórios são legalmente obrigados a comunicar a presença de mais de 50 patologias, entre elas HIV, sarampo e salmonela. Entre o teste PCR positivo e o sequenciamento, os virologistas do CRIVE informaram ao Departamento Federal de Saúde Pública (FOPH), as autoridades médicas cantonais e a OMS sobre o diagnóstico da cepa Andes.
“A comunicação com a OMS foi facilmente estabelecida, já que o Centro de Genebra para Doenças Virais Emergentes, que trabalha em estreita colaboração com o CRIVE, é um Centro Colaborador da OMS”, explicou Perez Rodriguez. Desde 2023, o centro do HUG colabora com a organização internacional em testes e compartilhamento de conhecimento especializado.
A África do Sul também confirmou que o surto foi causado pela cepa Andes após sequenciar parcialmente o vírus. A OMS confirmou nove dos 11 casos e declarou que os outros dois eram casos prováveis.
E depois?
O CRIVE mantém milhares de amostras virais em seus congeladores e decide caso a caso quais devem ser descartadas ou preservadas, dependendo do interesse científico. Embora possa conservar material genético inativado, o mandato do CRIVE impede o armazenamento dos vírus mais letais, como o Ebola. Na Suíça, esses vírus só podem ser armazenados em um laboratório localizado em Spiez (cantão de Berna), especializado em riscos químicos, biológicos, radiológicos e nucleares.
“Não temos capacidade para conservar todas as nossas amostras de Covid, mas amostras emergentes ou inéditas como esta do hantavírus são extremamente preciosas para nós. Elas podem nos permitir validar nosso material de diagnóstico no futuro e, por enquanto, não temos uma data para descartá-la”, afirmou Perez Rodriguez.
Edição: Virginie Mangin/dos
Adaptação: Karleno Bocarro
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