Políticas climáticas na Europa dependem de eleitores indecisos do centro
Recentemente, eleitores suíços rejeitaram uma proposta de aumento no financiamento climático do país. Ainda assim, as mudanças climáticas ainda aparecem entre as principais preocupações da população. Uma nova pesquisa tenta entender como eleitores preocupados com o clima não necessariamente apoiam iniciativas ecológicas com seus votos. O estudo aponta que o sucesso das iniciativas climáticas depende de um grande “centro”, com eleitores que apesar de se importarem com o clima, avaliam cada proposta sob a ótica pessoal de custo-benefício.
O debate sobre as políticas climáticas costuma se concentrar naqueles que são firmemente a favor ou contra, e no fim temos muito menos informações sobre o grande grupo que fica no meio. Uma pesquisa feita com 19.000 pessoas em 13 países da União Europeia, publicada na revista científica Link externoNature Climate Change,Link externo revela detalhes deste grupo que ocupa a posição no meio de campo.
A pesquisa mostra que, entre os europeus entrevistados, 36% apoiam a maioria das propostas climáticas e 21% se opõem a elas. E outros 33% compõem o “meio condicional”, cujas opiniões variam dependendo dos detalhes de cada política.
“Embora tenhamos muito contato com as ideias e argumentos das pessoas que são realmente a favor da ação climática ou das que são realmente contra, na verdade, esses são apenas dois grupos visíveis que podem, na realidade, estar em minoria”, explica Keith Smith, pesquisador sênior do instituto federal de tecnologia ETH Zurich, que liderou a pesquisa.
Isso significa que o grande grupo oscilante no meio é o mais importante para as questões climáticas, disse Smith, que é professor de economia política internacional na universidade.
“É realmente esse grupo que determina se teremos maiorias políticas… e a viabilidade das políticas sobre mudança climática em toda a Europa”, acrescenta.
A Suíça, que não é um Estado-membro da UE, não participou da pesquisa, mas Smith acredita que esse centro condicional no país alpino representa um segmento importante – “talvez o maior dos quatro” –, dada a forma como os eleitores suíços se envolvem ativamente com questões climáticas e avaliam propostas caso a caso. Esse grupo pode chegar a um milhão de eleitores em potencial.
Votações sobre questões relacionadas ao clima são comuns na Suíça. Nesses últimos dez anos, desde que os países se comprometeram em Paris a reduzir as emissões globais de carbono, os eleitores suíços foram às urnas várias vezes para decidir sobre questões climáticas, gerando uma variedade de resultados. Mais recentemente, em 8 de março, 71% dos eleitores rejeitaram uma iniciativa de “fundo climático” que previa o investimento de 0,5% a 1% do PIB suíço por ano – cerca de CHF 4 a 8 bilhões – em medidas de proteção climática e na expansão de energias renováveis, incluindo a energia solar.
Equilíbrio custo-benefício
O resultado da votação sobre o “fundo climático” reflete uma conclusão fundamental do estudo da UE: as avaliações pessoais de custo-benefício frequentemente determinam onde se situa o meio-termo. Em toda a Europa, as pessoas preferem políticas que ajudem famílias e empresas a adotar práticas mais ecológicas – como subsídios – em vez de medidas com impactos financeiros visíveis, como impostos ou restrições.
O resultado suíço mostrou que os eleitores não querem aumentar o financiamento público para o clima, ou pelo menos não da forma defendida pelos partidos de esquerda ou verdes. No contexto atual, é difícil chegar a um consenso em torno de uma proposta que acarreta custos, mas que ninguém sabe como financiar, diz Cloé Jans, cientista política do instituto de pesquisa gfs.bern.
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Suíça relega mudanças climáticas a segundo plano
Smith considera que esta última votação suíça não deve ser vista como indiferença climática. Em vez disso, muitos eleitores provavelmente hesitaram porque a iniciativa era vaga tanto quanto às fontes de financiamento e quanto às prioridades de gastos. “Era uma longa lista que incluía praticamente tudo”, diz o professor.
As pessoas estão dispostas a pagar alguns custos para a ação climática, acrescenta, “desde que vejam que a origem do dinheiro é justa e que sua distribuição também seja equitativa”.
Novas políticas ou novas narrativas?
Então, como os formuladores de políticas na Suíça e no resto da Europa devem interpretar os resultados da pesquisa sobre políticas climáticas? O desafio é uma questão de formulação ou de comunicação? “Ambos”, diz Smith.
Ele dá o exemplo Link externoda taxa de CO2 da SuíçaLink externo. O governo federal cobra uma taxa de CHF 120 (US$ 152) por cada tonelada de CO2 produzida quando óleo para aquecimento, gás natural e outros combustíveis fósseis são queimados. Dois terços da receita são redistribuídos à população por meio de um desconto no seguro saúde – mas poucas pessoas percebem isso. “Tornamos o custo visível e os benefícios invisíveis”, diz Smith.
Quanto a quais instrumentos de política climática poderiam funcionar melhor na Suíça, o pesquisador da ETH Zurich acredita que não há uma resposta simples. Ele afirma que políticas baseadas em incentivos – por exemplo, subsídios que incentivam proprietários de imóveis e empresas a melhorar a eficiência energética dos edifícios – podem ser mais viáveis politicamente do que aquelas com alta carga tributária. “Às vezes, o perfeito pode ser inimigo do bom”, observa, referindo-se às pessoas da esquerda ou do Partido Verde que continuam pressionando por ações mais contundentes contra as mudanças climáticas.
Entre outras conclusões, o estudo da UE também mostra que as pessoas estão entusiasmadas com políticas que apoiem ajustes pró-clima, em vez de proibições completas de certos produtos ou práticas. Uma proposta de proibição geral de carros com motor a combustão foi rejeitada por 73% do centro condicional na pesquisa, mas a rejeição cai para 39% se alternativas de combustíveis sintéticos continuarem possíveis – mostrando o quão “elástico” esse grupo pode ser.
Os participantes da pesquisa também são a favor de investir a receita de fundos climáticos, como o Link externoSistema de Comércio de Emissões da UELink externo, em projetos de adaptação, como tecnologias verdes ou serviços de transporte de baixa emissão, ou em medidas de compensação para famílias individuais, em vez de pagamentos a trabalhadores em risco devido às políticas climáticas. Isso é particularmente notável entre o centro condicional, que prefere investir os fundos em serviços públicos visíveis.
O impacto dos eleitores indecisos
Outra conclusão importante da pesquisa é que pequenas mudanças dentro do grupo indeciso poderiam alterar significativamente os resultados. Por exemplo: se uma parte dos indecisos passar a apoiar as medidas climáticas, o número de propostas com apoio majoritário aumentaria de quatro em quinze para dez em quinze.
Essa é uma conclusão importante que ressalta a relevância desse grupo, afirma Smith. “Se conseguirmos conquistar até mesmo uma pequena parcela desse grupo, poderemos obter maioria para uma série de políticas climáticas concretas na Europa”, acrescenta.
As pessoas na Suíça e na Europa querem ações climáticas, diz ele, mas novas abordagens criativas são necessárias, já que medidas financeiras diretas voltadas para o consumidor continuam sendo politicamente difíceis, não apenas na Suíça, mas também em todo o mundo.
“Nem tudo está perdido”, diz ele.
Edição: Gabe Bullard/fh
Adaptação: Clarissa Levy
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Os suíços estão perdendo o interesse na luta pelo clima?
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