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Tragédia no céu, coroas na Copa, e a rota de fuga suíça para nazistas ao Brasil

Marinheiros da Marinha brasileira recuperam destroços do avião desaparecido da Air France no Oceano Atlântico. Todas as 228 pessoas a bordo do voo Rio de Janeiro-Paris morreram em 1º de junho de 2009.
Marinheiros da Marinha brasileira recuperam destroços do avião desaparecido da Air France no Oceano Atlântico. Todas as 228 pessoas a bordo do voo Rio de Janeiro-Paris morreram em 1º de junho de 2009. Keystone/Swissinfo

Air France e Airbus foram condenadas por homicídio culposo pela “cadeia causal” que resultou na queda do voo Rio-Paris em 2009, o acidente mais mortal da aviação francesa. Este e outros temas foram destaques nas mídias suíças nesta semana.

O jornal NZZ destrincha pesquisa recém-publicada que mostra como instituições humanitárias suíças facilitaram a fuga de criminosos nazistas para o Brasil. A imprensa suíça também saudou a convocação de Neymar e Cristiano Ronaldo para a Copa do Mundo – às vezes tem-se a impressão de que os craques são mais populares, ou menos controversos, no exterior do que em seus próprios países. E, por fim, uma revisitação desassossegada de Fernando Pessoa no livro do escritor genebrino Matthieu Mégevand que acaba de chegar às livrarias.

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Voo AF 447: culpados apontados, 17 anos depois

Após 17 anos de um tortuoso percurso judicial, a companhia aérea Air France e o fabricante europeu Airbus, que haviam sido absolvidos em primeira instância, foram condenados pelo Tribunal de Apelações de Paris à pena máxima de 225 mil euros de multa por esse acidente que custou a vida a 228 pessoas.

Essa condenação é essencialmente simbólica, mas desastrosa para a imagem das duas empresas aeronáuticas, que anunciaram imediatamente que irão recorrer ao Tribunal de Cassação, a última instância da Justiça francesa. “A análise do tribunal (de primeira instância) não leva em conta a existência da cadeia causal na qual se insere a ação dos pilotos e que resultou na morte de todos os passageiros do voo AF447”, explicou a juíza Sylvie Madec.

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Acidente do voo Air France Rio-Paris em 2009 volta aos tribunais

Este conteúdo foi publicado em Dezesseis anos após o acidente aéreo de um voo entre Rio de Janeiro e Paris, a Air France e a Airbus enfrentam uma nova audiência de apelação a partir desta segunda-feira (29) para determinar se são responsáveis por homicídio culposo na tragédia que deixou 228 mortos. 

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Ao final do julgamento de primeira instância, o tribunal de Paris havia absolvido, em 2023, no plano penal, a Airbus e a Air France, embora reconhecendo sua responsabilidade civil. Considerou que, embora tivessem sido cometidas “imprudências” e “negligências”, “nenhuma relação de causalidade certa” havia “podido ser demonstrada” com relação a esse acidente.

No entanto, para os três magistrados do Tribunal de Apelação de Paris, esse acidente no Atlântico com o A330 da Air France “não pode ser considerado de outra forma senão como um processo dinâmico” resultante de uma “acumulação” de falhas ao longo do tempo por parte das duas empresas, implicando, portanto, sua responsabilidade criminal. “O acidente do voo AF447 é a história de uma catástrofe anunciada que poderia ter sido evitada”, repreenderam eles.

Fonte: Le TempsLink externo, 21.05.2026 (francês)

Nazistas no Brasil: a rota suíça

Por ocasião do lançamento, esta semana, do livro “Ajuda humanitária da Suíça a criminosos de guerra da SS”, de Peter Hug, o diário zuriquenho Neue Zürcher Zeitung (NZZ) publicou duas extensas matérias sobre as instituições suíças que facilitaram a emigração de veteranos das Waffen SS, tropas de elite da Alemanha nazista, para o Brasil.

O tema do livro aborda um projeto singular do pós-guerra. A então Swiss European Aid, uma estrutura que reunia quatro grandes organizações humanitárias, apoiou, com o respaldo do governo federal, a emigração de suábios do Danúbio, que haviam sido expulsos de seu país de refúgio, para o Brasil. O plano era construir um assentamento agroindustrial fechado.

A tentativa de implementar uma nova forma de assistência aos refugiados sobrecarregou as organizações responsáveis e, devido à pressão de tempo, foi mal preparada e conduzida. A colônia em Entre Rios (Paraná) enfrentou problemas econômicos. A isso se somaram o enriquecimento pessoal de alguns dos envolvidos, conflitos internos e, logo em seguida, a migração. Mais tarde, porém, ela alcançou grande sucesso como complexo agroindustrial.

Parte de uma vasta rede de apoio germanófila: grupo de nazistas suíços marcha fazendo a saudação nazista a um oficial do exército suíço em Genebra, 1938.
Parte de uma vasta rede de apoio germanófila: grupo de nazistas suíços marcha fazendo a saudação nazista a um oficial do exército suíço em Genebra, 1938. Photopress/Keystone

O caso pode parecer uma curiosidade ou uma lição na história da ajuda externa e, posteriormente, da ajuda ao desenvolvimento. O fato de muitos suábios do Danúbio – desde o final do século XVII, principalmente agricultores e artesãos que migraram do sudoeste da Alemanha para os Balcãs – terem servido na Waffen-SS durante a ocupação alemã não levou, na época, a discussões nem a precauções na seleção dos colonos por parte da Ajuda à Europa.

Mesmo em relatos posteriores, o assunto não foi investigado mais a fundo. Somente em 2023, 75 anos após a fundação da Ajuda Europeia, a organização sucessora dela, a Swissaid, reagiu com preocupação. Ela havia recebido uma denúncia concreta sobre um ex-combatente da Waffen-SS entre os colonos beneficiados.

O historiador Peter Hug (que anteriormente trabalhou, entre outros, para a Comissão Bergier e também como secretário do PS) foi encarregado de uma investigação – e esta revelou-se tão minuciosa quanto crítica.

Entre os cerca de 2.500 colonos de 1951/52, Hug identificou 16
ex-membros da Waffen-SS; o número real provavelmente é muito maior, escreve ele. Dois – um deles que chegou ao posto de Obersturmführer (tenente) – estavam , por exemplo, designados para a Divisão «Prinz Eugen», que era conhecida por agir de forma
particularmente cruel contra a população civil na luta contra os guerrilheiros na Iugoslávia. Sem participação pessoal em crimes de guerra, supõe o autor, não teria sido possível a participação nessas unidades.

Fonte: NZZLink externo, 17.05.2026; e NZZLink externo, 18.05.2026 (alemão)

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Os ‘coroas’ vão à Copa

As convocações de Cristiano Ronaldo, 41, para a seleção de Portugal, e de Neymar, 34, para a brasileira, foram saudadas como a última chance dos dois craques em entregar uma Copa do Mundo para seus respectivos países.

Há meses, a saga de Neymar agita o Brasil: o ex-atacante do Barcelona e do PSG, que sofre com lesões recorrentes, conseguirá vencer a corrida contra o tempo para voltar à seleção, pela qual não joga desde outubro de 2023?

A resposta veio na segunda-feira, por parte de Ancelotti, durante uma coletiva de imprensa no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro: o maior artilheiro da seleção brasileira (79 gols, dois a mais que Pelé, em 128 partidas) disputará de fato sua quarta Copa do Mundo, após as edições de 2014, 2018 e 2022.

O nome de Neymar foi, aliás, longamente saudado e aplaudido pelos espectadores presentes no grande salão onde o técnico anunciou sua lista, ao final de uma cerimônia interminável, a tal ponto que Ancelotti teve que interromper-se por alguns segundos antes de continuar a ler sua lista.

Neymar cai ao disputar a bola com o uruguaio Sebastián Cáceres durante uma partida das eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA 2026 no Estádio Centenário, em Montevidéu, Uruguai, na terça-feira, 17 de outubro de 2023.
Mais um meme: Neymar cai ao disputar a bola com o uruguaio Sebastián Cáceres durante uma partida das eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA 2026 no Estádio Centenário, em Montevidéu, Uruguai, na terça-feira, 17 de outubro de 2023. Copyright 2023 The Associated Press. All Rights Reserved.

De volta no ano passado ao Santos, seu clube de formação, ele nunca havia sido convocado para a seleção nacional desde a chegada de Ancelotti à frente da Seleção Brasileira em maio de 2025.

Sua última partida com a camisa remonta a 17 de outubro de 2023, quando sofreu uma grave lesão no joelho esquerdo contra o Uruguai, o que o afastou dos gramados por longos meses.

Após dois anos praticamente sem atuações no Al-Hilal, na Arábia Saudita, Neymar voltou ao Santos em 2025, onde, apesar de vários problemas físicos, desempenhou um papel fundamental na manutenção do clube na primeira divisão na última temporada, antes de ser operado no mesmo joelho esquerdo no final de dezembro.

Já Cristiano Ronaldo fez mais bonito na Arábia saudita, conquistando na quinta-feira para o seu clube, o Al-Nassr, o primeiro título do campeonato nacional desde 2019, graças a dois gols. O pentacampeão da Bola de Ouro marcou duas vezes na vitória por 4 a 1 contra o Damac (63’/81′), antes de cair em lágrimas de alegria.

Cristiano Ronaldo recebe o troféu da Liga Profissional da Arábia Saudita após a vitória do Al-Nassr sobre o Damac Club em Riade, Arábia Saudita, em 21 de maio de 2026. O Al-Nassr venceu por 4 a 1 e garantiu o título.
Cristiano Ronaldo recebe o troféu da Liga Profissional da Arábia Saudita após a vitória do Al-Nassr sobre o Damac Club em Riade, Arábia Saudita, em 21 de maio de 2026. O Al-Nassr venceu por 4 a 1 e garantiu o título. Keystone

Ao contrário de Neymar, e apesar da idade bem mais avançada, ninguém em Portugal duvidava que Cristiano Ronaldo seria preterido da seleção portuguesa. Contundido no final de fevereiro, Cristiano Ronaldo teve que desistir dos amistosos disputados pela Seleção em março contra o México (0 a 0) e os Estados Unidos (vitória de Portugal por 2 a 0). O craque agora se prepara para participar de sua sexta Copa do Mundo, o que representaria um recorde que, no entanto, pode ainda ser igualado por seu grande rival argentino, Lionel Messi.

O jogador nascido na ilha da Madeira havia confirmado em novembro de 2025 que a Copa do Mundo de 2026 seria a sua última. No torneio, que acontecerá de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, no México e no Canadá, Portugal foi sorteado no grupo K com a Colômbia, o Uzbequistão e a República Democrática do Congo.

Fontes: Le MatinLink externo e Tribune de Genève Link externoem 19.05.2026; e Watson.chLink externo em 22.05.2026 (francês)

Heterônimos viram personagens

«Não sou nada. /Nunca serei nada. /Não posso querer ser nada. /Mas, além disso, trago em mim todos os sonhos do mundo.» Nos quatro primeiros versos de seu grande poema “Tabacaria”, tudo ou quase tudo está dito sobre quem foi Fernando Pessoa (1888-1935).

Uma vida discreta e recatada, por um lado, durante a qual o lisboeta quase nada publicou. Uma inexaurível efervescência criativa, por outro. Uma obra abundante escrita sob uma vertiginosa multiplicidade de nomes, a que ele chamava heterónimos.

"Meu Nome é Pessoa"
Meu Nome é Pessoa Bourgois

Em Mon nom est personne (Meu nome é pessoa), o escritor genebrino Matthieu Mégevand dá vida aos mais famosos deles, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, para transformá-los em personagens de ficção. Esses três heterónimos têm, cada um, um estilo próprio. Pessoa descreveu sua aparência física, e traçou suas biografias até mesmo em mapas astrais. Restava inventar suas vidas. Matthieu Mégevand se dedica a isso da maneira mais convincente possível.

Além de suas diferenças, diz-nos Matthieu Mégevand, Caeiro, Reis e Campos estão unidos por «uma mesma intensidade, um nó primordial em relação ao poema que, ao dar forma à sensação, torna-se o centro da própria vida, ou sua superação». Eles encarnam três experiências do nada. Os dois primeiros, pela recusa de viver. O terceiro, pela dissolução no desejo de experimentar tudo.

No último capítulo, Matthieu Mégevand cita as fontes de seu romance, ricamente documentado, e volta a centrar-se na lenda de Fernando Pessoa, começando pelo famoso momento epifânico, em 8 de março de 1914, «o dia triunfal da minha vida», em que jorram de uma só vez a obra de Caeiro e algumas odes de Campos. Ele define a heteronímia e a relação que Pessoa mantém com essas vozes, cerca de uma centena, dizem, que falam “fora de sua pessoa”.

Fonte: Le TempsLink externo, 16.05.2026 (francês)

>>Outros assuntos noticiados na Suíça:

+ Por que o Conselho Federal rejeita o modelo Pix para o Twint Link externo(22/05)

+ A economia brasileira está em franca expansão – mas as empresas suíças correm o risco de ficar para trásLink externo (16/05)

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