Washington Post anuncia ‘doloroso’ plano de demissões
O jornal Washington Post, de propriedade do bilionário Jeff Bezos, começou a implementar um amplo plano de demissões nesta quarta-feira (4), que descreveu como “doloroso, mas necessário”, segundo um comunicado da empresa aos funcionários.
O jornal, que conquistou prestígio com uma investigação que levou à queda do presidente Richard Nixon pelo escândalo Watergate, terá cortes “substanciais” em sua redação, que até agora contava com cerca de 800 jornalistas, disse o editor-executivo Matt Murray.
O veículo não divulgou o número de demissões, mas segundo o jornal The New York Times, são cerca de 300.
Esta redução de pessoal ocorre em um momento em que os principais meios de comunicação tradicionais dos Estados Unidos sofrem a pressão do presidente Donald Trump, que apresentou várias ações judiciais pela cobertura sobre seu governo e acusa os jornalistas de serem criadores de “notícias falsas”.
A direção do jornal afirmou, em nota enviada aos funcionários, que a medida é “dolorosa”, mas necessária para a sobrevivência do veículo.
Bezos, uma das pessoas mais ricas do mundo, se aproximou de Trump no segundo mandato do republicano.
As empresas do magnata têm contratos importantes com o governo federal, do armazenamento de dados até a exploração espacial. Segundo veículos de comunicação americanos, a gigante do varejo Amazon, também pertencente a Bezos, financiou um documentário recente sobre a primeira-dama americana, Melania Trump, com US$ 75 milhões (R$ 392 milhões, na cotação atual).
Boa parte dos postos de correspondentes no exterior serão suprimidos, enquanto a editoria de Esportes e as páginas locais também vão sofrer cortes de pessoal, segundo vários veículos de comunicação locais.
“Essa reestruturação ajudará a garantir nosso futuro (…) E nos dará a estabilidade necessária para seguir em frente”, disse Murray.
O diretor também expôs mudanças no ecossistema informativo, como os criadores de conteúdo, que “geram impacto a baixo custo”, e aquele produzido com inteligência artificial.
“A estrutura da empresa está arraigada demais em uma época diferente, quando éramos dominantes com um produto local impresso”, acrescentou.
“Imprimir notícias falsas não é um modelo econômico rentável”, afirmou no X Steven Cheung, porta-voz da Casa Branca.
– “Esvaziar uma redação” –
Claire Parker, chefe do escritório do Post no Cairo, afirmou no X que tinha sido demitida “junto com toda a equipe de correspondentes no Oriente Médio”.
Lizzie Johnson, que estava fazendo uma reportagem na frente de batalha na Ucrânia, também afirmou no X que perdeu o emprego. “Estou consternada”, acrescentou.
Um membro da equipe gráfica do Washington Post disse à AFP que seu serviço passará de 25 para apenas nove funcionários.
“Não se pode esvaziar uma redação de sua essência sem que isso tenha consequências para sua credibilidade, influência e futuro”, denunciou o sindicato do jornal, Post Guild.
“Somente nos últimos três anos, o quadro de funcionários do Post foi reduzido em cerca de 400 pessoas”, acrescentou o sindicato, rejeitando categoricamente “qualquer nova redução de pessoal”.
“Se Jeff Bezos não está mais disposto a investir na missão que definiu este jornal durante gerações e a servir às milhões de pessoas que dependem do jornalismo do Post, então o Post merece um administrador que esteja”, afirmou.
Marty Baron, diretor do Post até 2021, disse que “este é um dos dias mais sombrios na história de uma das organizações de notícias mais importantes do mundo”.
Durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021), o jornal registrou bons resultados. Mas quando o republicano deixou a Casa Branca, o interesse dos leitores diminuiu e seus números despencaram.
Segundo o Wall Street Journal, em 2024 o Post perdeu 100 milhões de dólares (aproximadamente R$ 620 milhões, na cotação da época).
O Washington Post apoiou candidatos democratas nas eleições presidenciais de 2008, 2012, 2016 e 2020. Mas em 2024, não publicou nenhum editorial em apoio à candidata democrata Kamala Harris.
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