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Agricultor suíço retém água para enfrentar secas extremas

um homem de pé junto a um lago
Urs Burri junto ao lago artificial construído na sua exploração agrícola em Ellbach, no cantão de Lucerna. A água recolhida é libertada lentamente no solo subjacente. Luca Beti

Com secas prolongadas e chuvas torrenciais cada vez mais frequentes, agricultores suíços buscam novas formas de reter água no solo e proteger suas pastagens. No cantão de Lucerna, Urs Burri testa lagoas, reservatórios, sulcos em curvas de nível e sensores como parte do projeto “Slow Water”, que reúne mais de 110 propriedades.

“É um oásis. Não é fantástico?”, pergunta Urs Burri, já sabendo a resposta. De um promontório (ponto elevado do terreno) em sua propriedade agrícola em Ellbach, desfruta-se de uma esplêndida vista da paisagem montanhosa da região de Napf, no Cantão de Lucerna. Ao redor, neste dia de final de julho, muitos prados e pastagens estão áridos, com poucos e mirrados talos de grama. No meio dessa desolação seca há um lago criado pelo agricultor na primavera deste ano. “A água é vida”, diz ele. “Há libélulas. Às vezes, patos selvagens nadam ali”.

Graças a essa poça e a dois bacias de retenção (reservatórios para conter o fluxo de água) menores, que liberam lentamente a água por meio de tubos de drenagem, o terreno abaixo é verdejante. São duas medidas introduzidas por Urs Burri para combater os extremos climáticos cada vez mais recorrentes, como a atual seca. “As precipitações hoje estão mal distribuídas”, afirma. “Às vezes chove a cântaros, depois não cai mais nenhuma gota por longos períodos”.

A crise climática coloca em risco sua fonte de subsistência. “O solo é o capital dos agricultores. Se produz pouco ou nada, como posso alimentar as vacas, das quais depende boa parte da renda?”, questiona Burri.

Em sua propriedade agrícola biodinâmica (modelo agrícola ecológico que busca o equilíbrio do ecossistema) de gestão familiar, ele cria vacas leiteiras, porcos, galinhas, perus, abelhas e cães. Há cerca de oitenta árvores frutíferas de porte alto. O terreno é montanhoso, com pastagens, campos de corte de grama e alguns campos para a produção de cereais.

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Mudança de paradigma na agricultura

Para combater essa evolução, caracterizada por períodos sem precipitações seguidos por chuvas torrenciais, Urs Burri participa há cerca de dois anos e meio do projeto “Slow WaterLink externo“, promovido pelo Ministério suíço da Agricultura (BLWLink externo, na sigla em alemão) e cofinanciado pelos cantões (estados) da Basileia-campo e Lucerna.

“A iniciativa se concentra em dois aspectos principais”, explica Oliver SchillingLink externo, professor de hidrologia na Universidade de Basileia e especialista do Instituto Federal de Pesquisa sobre a Água (Eawag). “O primeiro é reduzir a erosão do solo (desgaste da terra provocado pela água e pelo vento), um recurso fundamental para a agricultura. O segundo é reter a água pelo maior tempo possível no território, para que possa ser usada quando escassear, evitando assim recorrer imediatamente à irrigação e captar, por exemplo, da rede hídrica”.

Aproximadamente 110 propriedades agrícolas das regiões piloto situadas nos Cantões de Basileia-campo e Basileia-cidade e no Cantão de Lucerna aderiram ao projeto “Slow Water”. Na região do Planalto ainda se pode contar com grandes cursos de água, lagos e reservas de água subterrânea. Nos Pré-Alpes, no Jura e nas regiões de montanha, por outro lado, faltam alternativas durante os períodos prolongados de seca”, destaca Schilling.

“Reter a água é uma mudança de paradigma em relação ao passado, quando várias zonas pantanosas foram drenadas para torná-las cultiváveis”, diz.

O projeto iniciado em 2024 e previsto até 2030 visa reter a água por mais tempo nos terrenos, reduzir a erosão e o risco de cheias, e garantir a produção agrícola na Suíça. O objetivo é diminuir em mais de 30% o consumo de água retirada de fontes externas na produção vegetal e em mais de 20% na pecuária.

Para atingir esses objetivos, o “Slow Water” identificou 15 medidasLink externo, divididas em duas categorias. As intervenções hidrotécnicas recolhem, desaceleram ou distribuem a água por meio de lagos, bacias de retenção, valas, canais de infiltração, drenagens reguláveis e keylines. As práticas agrícolas, por sua vez, melhoram a capacidade do solo de absorver e conservar a água por meio de manuseios menos invasivos, incremento do húmus, semeadura secundária, sebes (cercas vivas) e sistemas agroflorestais.

Entender de quais árvores as vacas gostam

A região de Napf é caracterizada por um território montanhoso e por uma geologia particular: um conglomerado formado por camadas de seixos arredondados, cimentados por material fino e cobertos por uma fina camada de húmus. “A subsistência da humanidade depende destes 10-12 centímetros de terra”, destaca Urs Burri. “Faz-se muito pouco para salvaguardá-los”.

Sua participação no projeto “Slow Water” nasce também dessa convicção: evitar perder sua fonte de renda por causa da erosão. Mas as vantagens não dizem respeito apenas à sua propriedade. “Quem mais se beneficia é sobretudo a coletividade. Ao desacelerar o escoamento da água e favorecer a infiltração, alimentamos as nascentes e os lençóis freáticos (reservatórios subterrâneos de água), reduzindo ao mesmo tempo o risco de inundações”, lembra Burri.

“É mais fácil desviar a água quando jorra de uma nascente. Basta uma pá. Para fazer mudar o curso de um rio transbordando é necessária pelo menos uma escavadeira mecânica”, ressalta.

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nuvem de tempestade

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Por enquanto, o agricultor biodinâmico de cerca de quarenta anos realizou várias medidas de adaptação climática, entre as quais as keylines (linhas de nível do terreno usadas para direcionar a água). “São sulcos profundos de cerca de quarenta centímetros, escavados horizontalmente ao longo das curvas de nível. Favorecem a infiltração, freiam a erosão, retêm a água e a canalizam para terrenos mais áridos”, explica Urs Burri.

Nas bordas elevadas das keylines, ele também plantou árvores forrageiras. Por um lado, as raízes consolidam o terreno e as copas criam zonas de sombra; por outro, as plantas fornecem substâncias minerais aos animais. “Nesta fase, precisamos entender de quais espécies de árvores as vacas gostam”, diz.

Burri destaca a importância do compartilhamento de conhecimentos entre agricultores e do trabalho em equipe entre a ciência e a prática. O “Slow Water” baseia-se em um processo participativo de baixo para cima. “As ideias elaboradas no escritório nem sempre passam no teste do terreno. É importante discuti-las e combiná-las com o conhecimento dos agricultores”, afirma.

estrada de terra batida numa encosta
Uma linha-chave traçada ao longo da encosta na exploração agrícola de Urs Burri (à direita da estrada rural). Às suas margens foram plantadas árvores forrageiras, que consolidam o solo, proporcionam sombra, contribuem para reter a água e constituem uma fonte de minerais para as vacas. Luca Beti

Efeitos positivos da retenção de água

As pastagens e prados da propriedade agrícola de Urs Burri estão pontilhados por inumeráveis sensores que medem as precipitações, a umidade do solo, os níveis hídricos e as vazões, tanto nas superfícies onde as intervenções foram realizadas quanto naquelas que permaneceram no estado original, que servem como áreas de controle. “Os efeitos dessas medidas não são imediatos e pode levar anos para se observar um impacto real”, destaca Oliver Schilling, que acompanha cientificamente o projeto em Ellbach.

O grupo de pesquisa utiliza modelos capazes de reproduzir todo o ciclo da água: no solo, na superfície e nos lençóis freáticos. “Nosso objetivo é elaborar um mapa nacional que indique quais medidas produzem os melhores resultados nas diferentes regiões da Suíça. Um objetivo do qual já estamos muito próximos”, explica Schilling.

Enquanto isso, Urs Burri já nota os primeiros efeitos positivos nos terrenos em que foram introduzidas medidas de retenção hídrica, por exemplo, em uma pastagem íngreme e muito exposta ao sol. “Aqui o solo ainda está macio e, nas próximas chuvas, será capaz de absorver melhor a água, reduzindo assim a erosão”.

Por meio de um tubo perfurado, a água de drenagem proveniente de outro terreno e recolhida em um poço é canalizada ao longo do encosta. Quem se beneficia é, além do manto de grama, também as árvores frutíferas plantadas há cerca de vinte anos com seu pai.

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Na expectativa de um outono mais propício para a agricultura

Urs Burri sabe que quem trabalha com a natureza precisa conviver com momentos de insegurança como estes, durante os quais se é obrigado a assistir quase impotente ao calor que queima os prados. O agricultor de Ellbach não é, contudo, nem fatalista nem pessimista. Ele deseja um final de verão e um outono propícios para a agricultura.

“Com precipitações suficientes e temperaturas elevadas, ainda podemos guardar no celeiro feno suficiente para alimentar o gado durante todo o inverno, sem ter que vender uma parte dos nossos animais”, diz.

Ao seu lado está o filho, aprendiz de agricultor, e é a ele que dirige seu último pensamento. “Gostaria de deixar como herança para as gerações futuras uma Terra, se não melhor, ao menos igual à recebida de quem me precedeu”.

De abril a junho de 2026, as precipitações na Suíça ficaram em apenas 56%Link externo da média dos últimos três decênios. Considerando também julho, a seca é comparável à dos anos de 1976, 2003 e 2018.

O longo período escasso de chuva tem graves consequências para a agricultura suíça. A produção de leite caiu até 30%Link externo em algumas regiões, entre as quais o Cantão de Friburgo, a região de Seeland em Berna, o Jura e a Suíça central. Sinalizam-se também casos de febre e diarreia nas vacas, atribuíveis a um vírusLink externo até agora nunca detectado na Suíça e que é transmitido principalmente por pequenos insetos picadores. O vírus causa uma diminuição na produção de leite.

A escassez de grama força muitas propriedades a recorrer já em julho às reservas de inverno e a vender parte de seus próprios animais de produção. Em junho e julho foram abatidos quase 70 mil bovinos (excluídos os vitelos), contra pouco mais de 60.700 no mesmo período de 2025, com um aumento de mais de 15%, segundo a organização interprofissional do setor Proviande.

A irrigação das culturas causa custos estimadosLink externo em milhares de francos por semana. Por esse motivo, as associações de agricultores pedemLink externo às grandes redes de supermercado que contribuam para cobrir essas despesas e que sejam mais flexíveis no que diz respeito ao cumprimento dos padrões de qualidade dos produtos (tamanho, forma e aparência).

Cerca de 1.100 propriedades já notificaram danos por seca à Sociedade Suíça de Granizo,um grupo que protege o setor em caso de adversidades atmosféricas. As culturas de verão, em particular batatas, milho, beterraba açucareira e girassóis, assim como as pastagens, foram atingidas de forma nitidamente maior em comparação com as de inverno, como trigo e cevada, explicou Urs Schuler, responsável pela cooperativa de seguros de colheitas.

Edição: Daniele Mariani

Adaptação: Alexander Thoele

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