Basileia luta para manter liderança farmacêutica global
Basileia segue como um dos principais polos farmacêuticos da Europa, sustentada por Roche, Novartis, uma densa base de talentos e bilhões em investimentos em inovação. Mas alguns fatores obrigam a cidade suíça a se reinventar para preservar sua liderança.
Poucas cidades no mundo têm uma identidade tão intimamente ligada a uma indústria quanto Basileia e a indústria farmacêutica. A Roche e a Novartis, duas das maiores fabricantes de medicamentos do mundo, dominam a cidade. Atravesse qualquer ponte da cidade e você poderá ver as torres brancas em forma de escada da Roche de um lado, e o campus da Novartis do outro.
Suas origensLink externo na região remontam a quase dois séculos, uma história que começou com corantes químicos para a indústria têxtil, evoluiu para a produção de comprimidos, xaropes e injeções e, agora, para terapias genéticas e celulares.
“Basileia tem uma longa tradição de acolher novas ideias e pessoas”, disse Maria Luisa Brooke, guia turística da Secretaria de Turismo da Basileia (Basel Tourism). “Isso fez dela um lugar que fomenta a inovação.”
Essa história é ao mesmo tempo uma bênção e um fardo. A indústria tornou a região incrivelmente rica. O cantão da Basileia ostentaLink externo um PIB per capita de cerca de 204.070 francos (250 mil dólares), significativamente superiorLink externo ao da Suíça como um todo, que é de 93.450 francos. Os salários e a arrecadação de impostos corporativos no cantão estão entre os mais altos da Suíça. Somente Basileia geraLink externo cerca de 36% das exportações totais da Suíça, sendo os produtos farmacêuticos responsáveis pela grande maioria.
No entanto, essa dependência também representa uma vulnerabilidade. Cidades construídas sobre indústrias tradicionais muitas vezes têm dificuldades para sobreviver às transformações tecnológicas. A indústria farmacêutica global está em um ponto de inflexão. A inteligência artificial (IA) está transformando a descoberta de medicamentos, os tratamentos estão se tornando personalizados, o talento é globalmente móvel e novos atores, como a China, estão desenvolvendo medicamentos de forma mais rápida e barata. Cada vez mais governos consideram a indústria farmacêutica uma questão de segurança nacional, investindo grandes somas para desenvolver a indústria local e criando concorrência para os polos já estabelecidos.
“Houve uma enorme disrupção nos últimos dois anos, impulsionada por mudanças geopolíticas drásticas”, disse Joanne Henderson, que dirige a divisão de Ciências da VidaLink externo na Europa da empresa global de imóveis CBRE, responsável por um relatório sobre polos de ciências da vida. “Isso está fazendo com que as empresas farmacêuticas repensem drasticamente suas redes de fabricação, fornecimento e distribuição, bem como seus investimentos em P&D.”
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Indústria farmacêutica gera um em cada dez francos na Suíça
Basileia já não é mais parte daquilo que era um pequeno grupo de polos farmacêuticos. Boston, Cambridge, no Reino Unido, e Leiden, na Holanda, são concorrentes bem estabelecidas, enquanto cidades emergentes como Madri, Suzhou, na China, e Raleigh, na Carolina do Norte, disputam investimentos da indústria farmacêutica com universidades de ponta e incentivos governamentais.
Então, qual é a situação da Basileia? Será que ela conseguirá manter sua vantagem?
A terceira maior cidade da Suíça tem 180 mil habitantes e está localizada no cantão (estado) da Basileia-cidade, que tem uma população de 205 mil habitantes. A agência de incentivo ao desenvolvimento, Basel Area Business & Innovation, atua em nome dos três cantões da Basileia-Cidade, Basileia-Campo e Jura. A área metropolitana da Basileia abrange partes dos cantões de Aargau e Solothurn, além de regiões fronteiriças na França e na Alemanha.
Período de renovação e modernização
Essas questões têm preocupado Christof Klöpper, chefe da Basel Area Business and Innovation, a agência de promoção econômica da região, há mais de uma década.
A indústria global passou por uma grande transformação na virada do século com a ascensão da biotecnologia, que utiliza células vivas para desenvolver novos medicamentos. A inovação interna já não era suficiente para impulsionar as receitas das grandes empresas, afirmou Klöpper.
A Novartis acabara de se formar a partir da fusão entre a Ciba-Geigy e a Sandoz, tornando-se uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo. Tanto a Novartis quanto a Roche tinham medicamentos de grande sucesso comercial e investiam bilhões em modernos campi e arranha-céus em Basileia.
Mas, por trás desse crescimento exponencial, preocupações começavam a surgir à medida que ambas as empresas se expandiam globalmente em busca das mais recentes inovações biotecnológicas.
Em 1990, a Roche adquiriu uma participação majoritária na Genentech, pioneira em biotecnologia sediada em São Francisco, um negócio histórico finalizado em 2009 com a compra das ações restantes. Enquanto isso, a Novartis escolheu Cambridge, Massachusetts, em vez de Basileia, como sede global de seu programa de descoberta de medicamentos em estágio inicial, em 2003.
“A mensagem transmitida por essas mudanças”, disse Klöpper, “é “que as duas grandes empresas não fariam mais tudo aqui em Basileia. Percebemos que, se não buscarmos ativamente a inovação aqui, as grandes empresas irão para outro lugar.”
Boston tornou-se o modelo para Basileia. Sua combinação de pesquisa universitária, polos de startups e financiamento de risco desencadeou uma onda de investimentos defensivos em Basileia. Na última década, governos cantonais e investidores privados investiram bilhões em parques de inovação regionais para criar um ecossistema semelhante ao de Boston.
A expansão continua. Em 2022, um parque nacional de inovação, com uma área equivalente a pelo menos oito campos de futebol, foi inaugurado no cantão vizinho de Basileia-Campo. A expectativa é que ele dobre de tamanho nos próximos cinco anos, com novas instalações de laboratório, espaços de trabalho e institutos de pesquisa.
O cantão também reforçou o financiamento de capital de risco por meio de incubadoras de startups e programas de aceleração, como o BaseLaunch e o DayOne. Este último apoiou 30 empreendimentos com cerca de um bilhão de francos desde 2017. O objetivo é investir em empresas que eventualmente se tornem alvos de aquisição por grandes corporações.
A cidade de Basileia, como muitos cantões suíços, oferece incentivos fiscais para pesquisa e desenvolvimento há anos, mas em 2025 os eleitores do cantão aprovaram um novo benefícioLink externo. Impulsionado por uma nova taxa mínima de imposto corporativo da OCDE que deixou o cantão com recursos abundantes, o programaLink externo de incentivo à inovação está sendo investido entre 150 e 500 milhões de francos por ano. O programa oferece descontos de até 25% em salários de pesquisa e desenvolvimento e depreciação de equipamentos, além de 10% de desconto no custo de ensaios clínicos na Suíça. O programa também destina 15 milhões de francos por ano para projetos colaborativos acadêmicos e industriais.
Esses incentivos podem ajudar a região a competir com aquelas que oferecem subsídios diretos generosos. “A capacidade de atrair startups depende do ecossistema que você cria”, disse Angela De Martini, vice-presidente de ciências da vida da consultoria Charles River Associates, com sede em Basileia. “Elas rapidamente mudam de local se você não oferecer os incentivos certos.”
Basileia também deixou de esperar que as empresas batam à sua porta. Klöpper e outros líderes tornaram-se vendedores ativos, organizando e participando de inúmeros encontros para atrair empresas estrangeiras a se instalarem na região. Em 2025, mais de 100 eventos de saúde e biotecnologia aconteceram na região de Basileia.
Gerando resultados
A estratégia parece estar dando certo. Atualmente, existem 800 empresas de ciências da vida na região, um aumento em relação às cerca de 600 de uma década atrás, segundo Klöpper. Ele acrescenta, no entanto, que o sucesso é medido pela qualidade, e não pela quantidade, citando a empresa de biotecnologia americana Revolution Medicines, que estabeleceu uma subsidiária em Basileia em 2025 e recentemente ganhou destaque com o daraxonrasib, um promissor medicamento experimental para câncer de pâncreas. Diversas empresas chinesas, como a BeOne Medicines, também se instalaram na região.
Basileia obtém pontuações elevadas mesmo em comparação com rivais maiores e de menor custo em rankings internacionais. A região passou de um polo consolidado de Nível 2 para um polo de Nível 1 líder mundial no ranking de referênciaLink externo de 2026 para clusters de ciências da vida elaborado pela empresa de imóveis comerciais JLL.
“Isso se deve realmente ao desempenho recente do capital de risco e ao dinamismo do ecossistema”, disse George Beaton, diretor de pesquisa em ciências da vida da JLL. “Quando se analisam locais de produção de alta qualidade, Basileia não lidera em termos absolutos, mas se considerarmos o custo por habitante, está no topo da lista.”
As startups do cantão da Basileia atraíramLink externo um valor recorde de 572,3 milhões de francos em 2025, dos quais 95% foram destinados às ciências da vida. No início de 2025, a BioVersys, sediada na Basileia, captou 80 milhões de francos na bolsa de valores suíça SIX, marcando a maior IPOLink externo (oferta pública inicial de ações) de biotecnologia da Europa em cinco anos. Isso ocorre em um momento em que outros pólos europeus têm visto o financiamento cair. Em 2025, o financiamentoLink externo de capital de risco para biotecnologias no Reino Unido caiu 13,2%, para 1,8 bilhão de libras esterlinas (1,96 bilhão de francos).
A grande concentração de talentos em Basileia continua sendo um dos principais atrativos. Mais de 33 mil pessoas trabalhamLink externo no setor de ciências da vida na região, o que representa cerca de 7,2% da força de trabalho. Henderson observa que a expertise de Basileia abrange toda a cadeia de valor: comercial, regulatória, de preços e de acesso ao mercado; isso cria uma qualificação global que não se constrói da noite para o dia.
Esse talento é sustentado pela excepcional qualidade de vida da cidade, um grande trunfo, já que as empresas farmacêuticas competem com as empresas de tecnologia por trabalhadores, acrescenta De Martini.
Pressão geopolítica pesa sobre Basileia
A questão fundamental é se todos os benefícios e investimentos serão suficientes, considerando que gigantes como Roche e Novartis enfrentam crescente pressão geopolítica para investir em outros lugares. Especialistas consultados pela Swissinfo afirmaram que, embora Basileia seja muito mais do que apenas grandes empresas farmacêuticas, ainda precisa delas para se manter como um importante pólo farmacêutico.
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Roche aposta bilhões para disputar mercado de obesidade
Para evitar as tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, as duas empresas concordaram em investir um total de US$ 73 bilhões (58 bilhões de francos) nos próximos cinco anos nos Estados Unidos, com o objetivo de fabricar todos os seus principais medicamentos em território americano. Os EUA detêm uma enorme influência, representando cerca de metade das vendas globais da Roche, enquanto a Suíça, com apenas nove milhões de habitantes, responde por menos de 2%.
As empresas também estão investindo fortemente na China, que está se tornando uma importante fonte de inovação. A proporção de medicamentos em desenvolvimento na China aumentou de 18% em 2021 para mais de 30% em 2026. Em comparação, a participação da Suíça permanece estagnada em pouco menos de 7%.
Além disso, as ordens de Trump para alinhar os preços dos medicamentos nos EUA com os de países parceiros, incluindo a Suíça, exacerbaram as tensões entre a indústria farmacêutica e as autoridades de saúde suíças, que tentam conter os custos da saúde no país. Em junho, René Buholzer, diretor-executivo da associação da indústria farmacêutica suíça, alertouLink externo que a Suíça é um alvo potencial de uma investigação comercial dos EUA sobre preços e reembolsos de medicamentos, poucos dias depois de os EUA terem iniciado uma investigação formal para apurar se a Alemanha está pagando menos do que o devido por medicamentos inovadores.
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Roche e Novartis batem recordes, mas alertam sobre competitividade
No Dia da Biotecnologia Suíça, em Basileia, em maio, o diretor-executivo da Roche, Thomas Schinecker, não poupou palavras. “Muitos dos principais atributos que tornaram a Suíça forte no passado já não existem”, disse ele a uma plateia de executivos. “O perigo é acomodar-se. O sucesso passado não é necessariamente um bom indicador de sucesso futuro.”
As preocupações do setor começam a se refletir em nível nacional. O Parlamento federal aprovou recentemente uma moçãoLink externo da parlamentar de Basileia, Eva Herzog, que pede uma estratégia farmacêutica nacional, e o governo suíço convocou um grupo de trabalhoLink externo do setor para discutir melhores condições para a indústria.
“Basileia sempre demonstrou capacidade de evoluir quando o mundo muda”, disse Brooke. “A cidade sabe que, com uma boa concentração de competências, é possível ter novas ideias.”
Edição: Nerys Avery/ts
Adaptação: DvSperling
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