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Fotógrafa da Magnum vence em Locarno com filme de estreia

Alessandra Sanguinetti posa com o prémio «Swatch First Feature Award» e o prémio «Pardo d'Oro - Concurso «Cineasti del Presente» pelo filme «A ilusão de um verão sem fim» no 79.º Festival de Cinema de Locarno, a 15 de agosto de 2026.
Alessandra Sanguinetti posa com o prémio «Swatch First Feature Award» e o prémio «Pardo d'Oro - Concurso «Cineasti del Presente» pelo filme «A ilusão de um verão sem fim» no 79.º Festival de Cinema de Locarno, a 15 de agosto de 2026. Keystone / Jean-Christophe Bott

Alessandra Sanguinetti venceu em Locarno com "A ilusão de um verão sem fim", seu primeiro longa-metragem. O filme transforma quase 30 anos de imagens de Guille e Belinda, duas mulheres do campo argentino, em uma reflexão sobre infância, memória, maternidade, afeto e passagem do tempo.

“O que sinto de verdade agora é muita gratidão, porque não esperava nada disso”, dizia Alessandra Sanguinetti alguns dias antes da cerimônia de premiação da 79ª edição do Festival Internacional de Cinema de LocarnoLink externo.

Na semana passada, ela conquistou o Leopardo de Ouro da seção Cineastas do Presente e também recebeu o prêmio de Melhor Filme de Estreia. O seu filme, A Ilusão de um Verão Sem Fim, competia ao lado de obras de cineastas como Ana Vaz e Beatrice Gibson, cujas trajetórias já consolidadas conservam, no entanto, o frescor de uma voz emergente.

Na legenda de uma imagem de Sanguinetti sorridente com seus dois prêmios, publicada pelo festival nas redes sociais, lê-se: “Toda grande trajetória de um cineasta começa com um primeiro longa-metragem (filme com duração superior a 70 minutos)”. Embora estes sejam seus primeiros passos no tapete vermelho, a caminhada de Alessandra começou há quase 30 anos.

O início de tudo: cena de «A Ilusão de um Verão Sem Fim».
O início de tudo: cena de «A Ilusão de um Verão Sem Fim». Alessandra Sanguinetti

O filme leva para o cinema o projeto fotográfico que Sanguinetti começou há quase três décadas. Em 1999, ela passou a fotografar as suas vizinhas Guille e Belinda no campo argentino. Ao longo dos anos, o projeto deu origem a uma trilogia de livros – The Adventures of Guille and Belinda and The Enigmatic Meaning of Their Dreams, The Adventures of Guille and Belinda and the Illusion of an Everlasting Summer e On the Sixth Day – que ajudou a consolidar o reconhecimento internacional da artista.

Sanguinetti não procurou deliberadamente as suas protagonistas. Como ela mesma explica, começou “a contar a história porque as conheci”. O projeto lhe rendeu alguns dos reconhecimentos mais prestigiados no campo da fotografia. Membro da agência Magnum desde 2007, a sua trajetória inclui, entre outras honrarias, a Guggenheim Fellowship (bolsa de fomento concedida a profissionais que demonstraram capacidade criativa excepcional nas artes) e o prêmio Découverte de Les Rencontres d’Arles (em 2006).

Da fotografia ao cinema

Desde o início de A Ilusão de um Verão Sem Fim, a câmera de vídeo de Sanguinetti oferece um olhar intimista e registra os momentos de cumplicidade entre as três no cotidiano.

Há uma sensação de liberdade nessas primeiras cenas, como quando saem para dançar sob a chuva. Sanguinetti costuma perguntar a elas como imaginam o futuro ou quais são as suas paixões. As meninas entram em todas as brincadeiras, mas com a chegada da adolescência começam a surgir o desconforto e a timidez.

«Alimentação»: Imagem retirada da obra «No Sexto Dia», de Sanguinetti.
«Alimentação»: Imagem do filme «No Sexto Dia», de Sanguinetti. Alessandra Sanguinetti

Se antes cantavam e dançavam juntas, agora a câmera causa vergonha e elas se desculpam pelas desafinações. As gargalhadas não desaparecem, mas já não soam da mesma forma. Com o tempo, ambas se tornam mães e as suas filhas também passam a aparecer diante das lentes. Embora o filme não faça julgamentos, ele propõe uma reflexão sobre essa transição – talvez sempre abrupta demais – da infância para a vida adulta.

O ambiente desempenha um papel fundamental no olhar da diretora. Sanguinetti filma a paisagem dos pampas no nível do chão para ressaltar a sua imponência. Sua câmera passa quase despercebida entre os gaúchos e as milongas (gênero musical e dança tradicional de origem rio-platense). Como em On the Sixth Day, o filme explora a forte ligação de Guille e Belinda com a terra. Para Sanguinetti, os animais também podem ser protagonistas e, nesta produção, “atuam quase como testemunhas… Fazem parte da vida delas e de todas as nossas vidas”.

Ditadora, improvisadora

Sanguinetti sempre quis compartilhar as suas conquistas com Guille e Belinda, que, de diferentes formas, foram parte essencial do seu trabalho. As duas – meninas na época, agora mulheres adultas – chamam a fotógrafa carinhosamente de “Ale”, como fazem desde pequenas.

O filme, por exemplo, mostra Sanguinetti levando as duas a Paris para comemorarem juntas a exposição de sua obra na Fundação Henri Cartier-Bresson, em 2024. As gargalhadas reaparecem enquanto brincam de se fantasiar, desta vez longe da Argentina, durante um ensaio para a revista Vogue. Perto do final do filme, Sanguinetti filma as duas folheando a revista na cama, em um momento que resgata aqueles anos de cumplicidade.

Pré-adolescentes.
Pré-adolescentes. Alessandra Sanguinetti

Em uma cena especialmente comovente, Guille e Belinda revisam fotografias nas quais aparecem retratadas e definem juntas os títulos de cada imagem. A sequência mostra até que ponto Sanguinetti sempre as incluiu em seu processo de criação.

Sobre a diferença entre atuar na fotografia e no vídeo, ela explica: “Com a fotografia, eu era mais uma ditadora porque estou sempre tentando controlar o que entra no quadro, evitando acidentes. Mas com o vídeo foi mais parecido com a função de um diretor de teatro, orquestrando uma improvisação na qual você apresenta um tema e as pessoas escolhem como vão interpretá-lo”.

Sanguinetti está muito entusiasmada com a estreia do filme no Festival de San Sebastián, em setembro: Guille e Belinda poderão viajar até lá e assistir ao longa pela primeira vez em uma sala de cinema.

Adolescentes
Adolescentes Alessandra Sanguinetti

Mais do que apenas complementar o trabalho fotográfico de Sanguinetti, o filme oferece uma compreensão mais profunda de seu processo artístico e evidencia o cuidado mútuo existente entre a artista e as jovens. “Essa é a razão pela qual comecei a filmá-las: dava-lhes mais liberdade para decidirem como queriam contar a sua própria história”, explica.

O material, que em determinados momentos se assemelha a um filme caseiro, constrói um panorama emocional dessas duas mulheres. “Porque, ao produzir algo ao longo de muito tempo, você consegue enxergar padrões que não nota quando está muito perto”, acrescenta. O espectador testemunha como Belinda vai se tornando mais reservada a partir da adolescência, adotando uma postura discreta e misteriosa, enquanto Guille sempre se manteve uma romântica.

Embora à primeira vista a relação entre as duas pareça se distanciar, há uma extrema sensibilidade em mostrar como, com o passar dos anos e apesar da proximidade física e emocional, os seus caminhos acabam se separando de uma forma ou de outra.

Adultas
Adultas Alessandra Sanguinetti

Novo olhar sobre a Argentina

O cinema argentino atravessa um momento delicado, atingido por severos cortes no orçamento da cultura desde a posse de Javier Milei na presidência. Sanguinetti costuma usar o seu espaço para denunciar injustiças e dar visibilidade a causas sociais. Em entrevista à Swissinfo, ela expressou a sua preocupação: “A Argentina sempre esteve imersa em confusões (quilombos), mas agora estamos em um momento diferente. A venda de terras está desestruturando a cultura, a saúde, a ciência e a identidade argentina. Há muita fragilidade a ser protegida”.

Trinta anos depois
Trinta anos depois Alessandra Sanguinetti

Embora Sanguinetti afirme que naquela época “não estava de forma alguma inserida no universo cinematográfico”, o seu trabalho dialoga com características do Novo Cinema Argentino surgido no início dos anos 2000. Filmes como O Pântano (La ciénaga, 2001), de Lucrecia Martel, e La fe del volcán (2001), de Ana Poliak, abordaram, sob diferentes perspectivas, a vida cotidiana e as realidades sociais da Argentina do período.

Nesse sentido, a produção fotográfica de Sanguinetti pode ser interpretada em paralelo com esse movimento: ambos encontraram na rotina diária um território para explorar novas formas de observar a realidade, em um contexto marcado pela crise socioeconômica de 2001.

A bem-sucedida estreia de Sanguinetti na direção em Locarno indica que o filme terá circulação garantida em outros grandes festivais internacionais. Embora o circuito cinematográfico represente para ela um caminho distinto do que percorreu na fotografia, a diretora afirma que “fazer parte de qualquer comunidade voltada para a arte, a narrativa de histórias e a expansão desse universo além da fotografia é maravilhoso”.

Matilda Hague é crítica de cinema e tradutora radicada na Cidade do México. Seus textos foram publicados por veículos como La Vida Útil, Filmmaker Magazine, Reverse Shot e International Cinephile Society.

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