Ali Khamenei, o implacável líder supremo que governou o Irã com mão de ferro
Ali Khamenei reprimiu a dissidência, manteve o confronto com os Estados Unidos e conseguiu lidar com facções políticas rivais por mais de três décadas e meia como líder supremo do Irã.
Mas sua vida chegou ao fim de forma abrupta na manhã de 28 de fevereiro, quando morreu junto a vários de seus familiares em um bombardeio que Israel realizou com informações dos serviços de inteligência dos Estados Unidos, no primeiro dia de uma guerra que durou cinco semanas.
Ainda assim, em muitos aspectos, a era Khamenei não terminou: o poder passou rapidamente para as mãos de seu filho Mojtaba, embora ele ainda não tenha aparecido em público desde que assumiu o cargo de terceiro líder supremo da República Islâmica.
Enquanto isso, suas contas nas redes sociais X e Telegram continuam ativas e publicam regularmente declarações antigas. Além disso, sua imagem continua presente nos outdoors, muitas vezes ao lado de seu antecessor e líder revolucionário, Ruhollah Khomeini, e seu filho Mojtaba.
No sábado (4) começam as cerimônias de seu funeral, e os meios de comunicação estatais falam dele como um imã mártir, consagrando o status do líder espiritual de um homem que foi figura-chave da República Islâmica desde pouco depois de sua fundação.
– Sobrevivente político –
Mas suas décadas como sobrevivente político não puderam protegê-lo, aos 86 anos, da chuva de bombas que também matou seu genro, sua filha, sua nora e sua neta.
Durante seu mandato, reprimiu brutalmente uma série de protestos, como a mobilização estudantil de 1999, as manifestações em massa desencadeadas em 2009 por eleições presidenciais controversas e uma onda de contestação em 2019.
Sempre com turbante preto e uma espessa barba branca, Khamenei também reprimiu duramente o movimento “Mulher, Vida, Liberdade” de 2022-2023, desencadeado pela morte de Mahsa Amini, detida por supostamente infringir o rígido código de vestimenta imposto às mulheres.
Teve que se esconder durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, provocada por um ataque sem precedentes de Israel, seu inimigo declarado, que evidenciou a profunda infiltração dos serviços de inteligência israelenses nas estruturas iranianas.
Antes de estourar a guerra de 2026, seu mandato foi abalado por protestos em massa nas ruas, cuja repressão resultou em milhares de mortos, segundo organizações de direitos humanos.
Khamenei classificou os manifestantes como “agitadores” apoiados por Israel e pelos Estados Unidos.
Também teve que enfrentar dificuldades físicas, pois tinha o braço direito parcialmente paralisado devido a uma tentativa de assassinato em 1981, que as autoridades sempre atribuíram à Organização dos Mojahedin do Povo do Irã (MEK), antigos aliados revolucionários que, desde então, foi declarada ilegal.
Também não tentou esconder sua deficiência: seu braço, inerte, aparecia nas fotos, em uma aparente exibição orgulhosa das cicatrizes da revolução.
– O ator “mais influente” –
Khamenei, filho de um imã, nasceu no seio de uma família pobre. Seu ativismo político contra o xá Reza Pahlavi, apoiado pelos Estados Unidos, o levou a passar grande parte dos anos 1960 e 1970 na prisão.
Em 1980, foi confiada a ele a importante tarefa de conduzir as orações de sexta-feira em Teerã. Também serviu na guerra Irã-Iraque.
Foi eleito presidente um ano depois, após o assassinato de Mohammad-Ali Rajai, outro ataque atribuído ao grupo Mojahedin do Povo.
Durante a década de 1980, o favorito para suceder Khomeini era o aiatolá Hossein Montazeri, mas o líder revolucionário o destituiu pouco antes de sua morte, após o imã denunciar as execuções em massa de membros da MEK e outros dissidentes.
Quando o líder morreu, a Assembleia de Especialistas, o principal órgão clerical da República Islâmica, escolheu Khamenei como sucessor.
Ele, em um episódio que ficou famoso, o rejeitou, antes que os religiosos se levantassem para ratificar sua nomeação.
Khamenei trabalhou com seis presidentes eleitos, um cargo muito menos poderoso que o do líder supremo.
Embora em alguns casos lhes tenha permitido tentar implementar reformas cautelosas e uma aproximação com o Ocidente, no fim Khamenei sempre se alinhou com os partidários da linha dura.
Seu controle sobre o poder nunca diminuiu. Pelo contrário, reforçou a ideologia radical do sistema, incluindo o confronto com o “Grande Satã” americano e a recusa em reconhecer a existência de Israel.
“Ali Khamenei era o ator mais influente do Irã, mas mesmo assim tinha que lidar com vários centros de poder rivais dentro do sistema”, afirmou Thomas Juneau, professor na Universidade de Ottawa.
Acredita-se que ele teve seus filhos, embora apenas um, Mojtaba, tenha relevância pública.
Resta ver como Mojtaba Khamenei exercerá o poder. Em uma declaração, o novo líder supremo disse apoiar as conversas com os Estados Unidos, apenar de ter uma “opinião diferente” a respeito.
A intervenção “recorda de forma arrepiante a tradição do pai de não assumir nenhuma responsabilidade nas grandes decisões e, desse modo, miná-las”, apontou Arash Azizi, professor na Universidade de Yale.
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