Suíça tem até 60 erros médicos fatais por semana
O caso recente da morte de uma paciente em Zurique, depois um transplante de coração incompatível com seu grupo sanguíneo, reativou o debate sobre os erros médicos que causam milhares de vítimas por ano.
A Suíça luta contra o fenômeno mas o tabu persiste.
«Por que seríamos melhores que os americanos?” Daniel Scheidegger, diretor do departamento de anestisia do Hospital Cantonal de Basiléia, justifica pela pergunta os dados que indicam 2 a 3 mil erros médicos fatais por ano, na Suíça.
Esses dados são produto de uma extrapolação baseada em estatísticas feitas nos Estados Unidos. Eles foram publicados em setembro de 2000 pela Secretaria Federal dos Seguros Sociais (OFAS) como um sinal de alerta do fenômeno.
Raramente eles aparecem na mídia – como foi o caso recente de um transplante de coração em Zurique em que a paciente recebeu um órgão incompatível com seu grupo sanguíneo – mas as falhas médicas seriam muito freqüentes na Suíça.
Esforço concentrado
Depois da publicação dos dados, em 2000, o governo federal criou a “Fundação pela Segurança dos Pacientes”, composta de especialistas suíços e estrangeiros para coordenar as ações contra os erros médicos.
Em comunicado divulgado terça-feira (27/4) a Fundação estima que de “3 a 16% e ocorrências indesejáveis” das quais são vítimas as pessoas hospitalizadas, pelo menos um terço (“entre 30 e 50%”) seriam evitáveis.
As mentalidades mudam
A tragédia da paciente falecida em Zurique, dia 23 de abril, reativou o debate sobre a necessidade de mudança de mentalidades nessa área.
“É preciso uma mundaça cultural, afirma o anestesista Daniel Scheidegger, de Basiléia. Mas é preciso ter o cuidado de não procurar um só culpado. Um erro, por mais trágico que seja, é quase sempre resultante de uma cadeia de acontecimentos.”
Colaboração com a Nasa
No caso trágico de Zurique, o Hospital Universitario (USZ) concluiu, na fase atual do inquérito, que houve um mal-entendido na comunicação oral, o que não surpreende o anestesista.
“85% dos incidentes que ocorrem no meio médico são devidos a problemas de comunicação. É inevitável em um setor onde o trabalho humano não pode ser substituido por computadores.”
Pioneiro na Suíça, o médico de Basiléia tenta encontrar soluções há mais de dez anos. Em 1992, em colaboração com a Nasa, ele elaborou um simulador de salas de operação em escala 1:1.
Dois anos depois, sua equipe criou o primeiro programa de computador da Suíça destina da gravar anúncios de erros e incidentes de todo tipo, o “CIRS medical”, sistema de anúncio voluntário de incidentes médicos.
Esse sistema foi adotado pela Federação dos Médicos Suíços (FMH) e pela Associação Suíça de Enfermagem (ASI).
No departamento de anestesia do Hospital Cantonal de Basiléia são relatados, em média, cinco incidentes por semana. “Se o número diminuisse para dois por semana, eu ficaria preocupado. Um tal sistema existe para sensibilizar os usuários e, portanto, para aumentar o número de casos.”
Poucos hospitais equipados
O CRIS ainda não adotado em todos os hospitais suíços. Poucos médicos o utilizam. “Cerca de 30 hospitais instalaram o sistema, afirma Daniel Scheidegger, entre eles o USZ, em Zurique. Mas instalar não quer dizer utilzar.”
O tabu do médico todo-poderoso é ainda muito presente entre médicos mas também entre pacientes. O anestesista lamenta que o curso que montou com a companhia aérea Swiss sobre a medicina em situação de estresse seja pouco freqüentado.
“Para muitos médicos que durante muitos anos de estudos ouviram que tinham que ser melhor que os outros, não é fácil mostrar suas lacunas em um trabalho de equipe.”
Quando um prêmio provoca o caos
Os participantes do curso são colocados em situações bem concretas. Scheidegger dá um exemplo: “futuros pilotos deveriam tirar todos os passageiros de um avião em menos de 4 minutos. Foi feito sem grandes problemas.”
“Em seguida, o exercício foi repetido mas pagando-se um prêmio em dinheiro para o mais rápido. 15 minutos depois o avião não estava vazio e havia passageiros até com braço quebrado! É esse espírito de competição que precisa ser eliminado quando a gente trabalha em equipe e sob estresse.”
Um consolo para Daniel Scheidegger é que o CRIS está sendo adotado na Alemanha.
swissinfo, Ariane Gigon Bormann, Zurich
(Tradução, Claudinê Gonçalves)
De 2 e 3 mil erros médicos mortais por ano ocorrem na Suíça, entre 1,39 milhões de hospitalizações (dados de 2000).
Entre 3 e 16% das pessoas hospitalizadas são vítimas de “acontecimentos indesejáveis”; ao menos um terço seriam evitáveis.
A última estatística extrajudicial constatou 133 casos de erros em 2002, dado considerado estável; desde 1982, ocorreram 2720 erros.
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.