Proibição de celulares nas escolas divide professores na Suíça
Cada vez mais cantões suíços adotam a proibição de celulares nas escolas, motivados por preocupações com atenção e interação social. Apesar do apoio popular, professores questionam a eficácia de medidas generalizadas e defendem abordagens mais pedagógicas.
As crianças suíças ingressam na escola aos seis anos de idade, e uma em cada cinco já possui um celular próprio. Ao final do ensino fundamental (Primarschule), esse número chega a 80%, e no ensino secundário (Oberstufe) sobe para 99%.
PesquisasLink externo mostram que o celular já é parte inseparável do cotidiano de crianças e adolescentes suíços. Mas se ele deve ou não estar presente também na escola é uma questão amplamente debatida tanto na sociedade quanto na política na Suíça. Embora a maioria das escolas tenha regras sobre o uso de celulares, o país não possui uma lei nacional que regulamente o tema.
Devido à sua estrutura federativa, o sistema educacional suíço é um verdadeiro mosaico, e isso inclui as regras sobre o uso de celulares nas escolas. A educação é organizada em nível cantonal, e a implementação das regras cabe às comunas ou às próprias escolas. Ainda assim, vem se cristalizando uma tendência geral de banir completamente os smartphones de todo o espaço escolar.
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Vários cantões introduzem proibição de celulares
De fato, têm se multiplicado os anúncios vindos dos cantões que pretendem implementar a proibição de celulares nas escolas ou que já o fizeram. O cantão do Ticino, em pleno ano letivo, está ampliando a proibição — que antes valia para o ensino médio — para toda a escolaridade obrigatória; a medida entra em vigor em 30 de março de 2026.
Os cantões de Nidwalden, Argóvia e Valais introduziram, a partir do ano letivo de 2025/26, uma proibição ao uso de todos os dispositivos eletrônicos privados. Celulares, smartwatches, tablets e laptops não podem ser utilizados durante as aulas, nos intervalos nem em eventos escolares.
Exceções são permitidas apenas quando os aparelhos são usados para fins pedagógicos ou por motivos de saúde. Na Suíça francófona, o cantão de Vaud já adota uma proibição semelhante desde 2019.
Em comparação internacional, o cenário vai desde proibições nacionais rigorosas até soluções definidas por estados ou pelas próprias escolas.
Na França, o celular foi banido das escolas por lei em 2018; nos Países Baixos, desde 2024 ele deve ser guardado no armário ao entrar na escola.
A Áustria também dispõe de uma proibição nacional, enquanto na Dinamarca a medida passará a valer a partir do ano letivo de 2026/27.
A Polônia acabou de aprovar, em regime de urgência, uma proibição a partir de 1º de setembro de 2026.
Na China, os celulares estão proibidos nas escolas desde 2021, e a Austrália vai além: além de restringir os aparelhos, tornou-se o primeiro paísLink externo do mundo a proibir redes sociais para menores de 16 anos.
Em pesquisas de opinião, a proibição de celulares nas escolas recebe amplo apoio. Em um estudoLink externo de 2024, mais de 80% dos entrevistados se manifestaram a favor. Segundo a avaliação dos pesquisadores, esse amplo respaldo reflete uma crescente conscientização da sociedade sobre os problemas relacionados ao uso de mídias digitais. Entre os jovens, preocupam sobretudo o uso excessivo, déficits de atenção e impactos negativos nas relações sociais.
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Professores céticos em relação a proibições gerais
Quem apoia a proibição de celulares nas escolas provavelmente pensa também nos professores, que assim seriam aliviados com a medida. A vantagem de regras uniformes no cantão, segundo o diretor de educação do Valais, Christophe DarbellayLink externo, seria justamente reduzir a carga tanto para professores quanto para os pais.
Porém, é precisamente entre os professores que a medida política não encontra amplo apoio. A Associação Nacional de Docentes considera que uma proibição geral de smartphones e outros dispositivos privados nas escolas não faz sentido, conforme destaca em seu documentoLink externo de tomada de posição. Regras elaboradas em conjunto com os alunos tendem a ser mais eficazes do que proibições rígidas.
A transição para uma escola sem celulares revelou que os jovens também precisam do smartphone para tarefas cotidianas — por exemplo, para consultar horários de ônibus ou realizar pagamentos. Assim, o quiosque do recreio na localidade de Seengen, no cantão de Argóvia, teve de deixar de aceitar o Twint como meio de pagamentoLink externo. Agora, os “gipfeli” (croissants suíços) só podem ser comprados com dinheiro em espécie.
O cantão de Argóvia, contudo, faz um balanço positivo após o primeiro semestre sem celulares. “Os professores agora precisam justificar menos as medidas do que antes, e também os alunos reconhecem vantagens, visto que, nos intervalos, voltam a interagir fisicamente com mais frequência com seus colegas”, afirma Daniel Hotz, diretor executivo da Educação em Argóvia, em entrevista à Swissinfo.
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Ele ressalta, porém, que proibições por si só não são suficientes. “O uso do celular apresenta um potencial de dependência tão elevado quanto o consumo de álcool e tabaco; portanto, o problema deve ser enfrentado de maneira semelhante.”
Segundo ele, é decisivo realizar, em paralelo, um trabalho de prevenção e revisar regularmente as medidas adotadas. Após certo tempo, deve-se avaliar se a proibição produz os efeitos desejados, e, a partir disso, definir os próximos passos.
Celular como símbolo
Philippe Wampfler, professor de escola cantonal e especialista em cultura digital, está entre os críticos de uma proibição geral de smartphones nas escolas. “A proibição é uma solução rápida e simples para evitar enfrentar uma solução mais complexa”, disse ele à Swissinfo. Para Wampfler, o problema não está nos dispositivos em si, mas nos modelos de negócio das plataformas, com seus feeds infinitos, algoritmos personalizados e mecanismos de recompensa, como curtidas. “É hipócrita que políticos apoiem esse tipo de campanha e, ao mesmo tempo, se recusem a impor regras claras a essas empresas.”
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Para Philippe Wampfler, o smartphone é também um sintoma de uma transformação profunda na sala de aula. Ele coloca em questão o ensino tradicional: “Os alunos podem consultar informações a qualquer momento, o que faz com que o professor deixe de ser automaticamente a principal fonte de conhecimento.”
A escola sem celulares, por si só, funciona bem — os alunos já estão habituados a regras no uso do aparelho. Nos intervalos, eles brincam com equipamentos esportivos e jogos de tabuleiro disponibilizados. Pela manhã, porém, antes de guardar o smartphone na mochila, eles costumam utilizá-lo “de forma muito intensa”.
Uma professora do ensino secundário em Zurich, onde o celular está proibido nas escolas municipais desde fevereiro, também observa um deslocamento no uso dos aparelhos.
Para muitos de seus alunos, a proibição não é um grande problema. No entanto, durante o intervalo do almoço, ela nota que alguns adolescentes se ausentam da refeição e saem do ambiente escolar, a fim de dar uma volta — para justamente usar o celular. Para a professora, isso não é motivo de preocupação: “Pelo menos assim eles se movimentam um pouco ao ar livre.”
Edição: Marc Leutenegger
Adaptação: Karleno Bocarro
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