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Energia nuclear volta ao centro do debate na Suíça

A Suíça tem três centrais nucleares envelhecidas com quatro reatores - Beznau I e II, Gösgen (na foto) e Leibstadt - que deverão ser desativadas nos próximos anos.
A Suíça tem três centrais nucleares envelhecidas com quatro reatores - Beznau I e II, Gösgen (na foto) e Leibstadt - que deverão ser desativadas nos próximos anos. Keystone / Gaetan Bally

O Senado suíço aprovou uma proposta que pode abrir caminho para a construção de novas usinas nucleares, suspendendo a proibição adotada após o desastre de Fukushima em 2011. A decisão reflete preocupações crescentes com segurança energética e metas climáticas.

Mesmo com a Suíça desativando seus reatores antigos, o debate sobre a construção de novos reatores foi reavivado. Em resposta ao projeto de lei “Eletricidade para todosLink externo“, o governo decidiu, em 2024, alterar a Lei de Energia Nuclear, com o objetivo de suspender a proibição existente de construção de novas usinas nucleares. O Parlamento está agora discutindo a proposta, que poderá ser decidida em última instância por um plebiscito.

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Em 2024, partidos de centro-direita e representantes do setor empresarial lançaram a iniciativa popular “Energia elétrica para todos, o tempo todo (pelo fim dos apagões)”, que visa revogar a proibição da construção de novas usinas nucleares na Suíça.

A iniciativa propõe uma emenda à Constituição, para que “todas as formas de produção de eletricidade favoráveis ao clima” sejam permitidas, garantindo efetivamente o direito de gerar energia utilizando qualquer tecnologia que não envolva combustíveis fósseis. Isso pretende também reverter a reforma da Lei de Energia de 2017, aprovada por 58% dos eleitores, que colocou a Suíça no caminho da eliminação gradual da energia nuclear, enquanto expandiu as energias renováveis no país, como a solar, a geotérmica e a hidrelétrica.

Os defensores da energia nuclear argumentam que ela é essencial para a segurança energética e para a estratégia climática da Suíça.

O governo suíço também considera que novas usinas nucleares devem voltar a ser autorizadas, mas apresentou uma contraproposta limitada à alteraração da lei e não da Constituição.

A maioria do Conselho dos Estados (Senado), composta pelo Partido do Povo Suíço (UDC, na sigla em francês), pelo Partido Liberal (PL) e pela maior parte do Partido do Centro (PC), apoiou a contraproposta. O Partido Socialista (PS) e o Partido Verde (PV), bem como o Partido Verde Liberal (PVL), o Partido Protestante e grupos ambientalistas, opõem-se a ela, argumentando que a construção de novos reatores levaria décadas – não sendo possivelmente finalizada antes de 2050 – e ainda apresentaria riscos técnicos significativos.

O Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) deve debater em breve a questão. O ministro suíço da Energia, Albert Rösti, aventou a possibilidade de um referendo.

Até o momento, a Suíça continua comprometida com a eliminação gradual da energia nuclear – respeitando uma política lançada após o desastre de Fukushima, no Japão, em 2011, e aprovada pelo eleitorado em 2017. O país ainda possui três usinas nucleares antigas, com quatro reatores: Beznau I e II, Gösgen e Leibstadt. Juntas, elas produzem cerca de 30% da eletricidade do país.

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Kai Reusser, Swissinfo

Por que ocorre a mudança de mentalidade?

A política climática suíça gerou um senso de urgência. Uma vez que o país pretende atingir a neutralidade climática até o ano de 2050, será necessário substituir os sistemas de aquecimento que usam combustíveis fósseis e também os carros com motor a combustão. As alternativas elétricas seriam indicadas, o que aumentaria ainda mais a demanda por eletricidade. Ao mesmo tempo, os quatro reatores nucleares do país, que estão ficando obsoletos, serão provavelmente desativados nos próximos anos. Ainda não está claro se a energia hidrelétrica, solar e eólica serão capazes de preencher totalmente essa lacuna.

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Debate
Moderador: Simon Bradley

Qual é a fonte de energia do futuro mais promissora?

Qual a sua opinião sobre os potenciais benefícios e desvantagens das energias renováveis? O país deve ter mais painéis solares?  Do artigo O sol ainda brilha muito pouco na Suíça

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Novas usinas nucleares poderiam ajudar a reduzir o déficit iminente no fornecimento de energia, com uma pegada de carbono reduzida. Desde a guerra na Ucrânia, a segurança energética passou a ter um novo grau de importância. Os responsáveis pelas políticas públicas querem reduzir a dependência, no período do inverno, do gás e da eletricidade importados. Resumindo: as preocupações com apagões e metas climáticas estão superando cada vez mais os receios em relação à segurança, que prevaleceram após o desastre nuclear em Fukushima, há 15 anos. Além disso, os novos projetos de reatores prometem ser mais baratos e mais seguros.

Qual é a condição atual das usinas nucleares?

Neste contexto, o otimismo de certos políticos e representantes do setor contrasta com a realidade técnica. As esperanças repousam, em grande parte, nos Pequenos Reatores Modulares (SMRs, na sigla em inglês): são reatores nucleares avançados, com capacidade de potência de até 300 MW (cerca de um terço da potência produzida pelos reatores tradicionais), que poderiam ser produzidos em massa e montados de forma modular. Atualmente, apenas dois SMRs estão em operação em todo o mundo – um na Rússia e outro na China. A União Europeia pretende implantar os primeiros SMRs no início da década de 2030; projetos recentes nos EUA enfrentaram, contudo, contratempos.

Outro ponto de atenção são os chamados reatores de grande porte de quarta geração, projetados para serem mais seguros e sustentáveis, além de minimizarem o problema dos resíduos nucleares. De acordo com os prazos mais otimistas, essas usinas estarão prontas para operar, na melhor das hipóteses, a partir de meados da década de 2030. E os processos de aprovação na Suíça costumam demorar ainda mais tempo.

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Novas usinas nucleares são viáveis?

O financiamento será, provavelmente, o maior obstáculo. As estimativas do custo de uma nova usina na Suíça variam entre 15 bilhões e 25 bilhões de francos suíços. Especialistas acreditam que um financiamento exclusivamente privado não é realista e que seriam necessárias garantias ou subsídios estatais. Vários modelos são possíveis. Ou os consumidores cofinanciam por meio de uma pequena taxa, cobrada sobre o consumo de eletricidade, como acontece hoje com as energias renováveis; ou o governo suíço participa como coproprietário, seguindo o que alguns cantões já fizeram com as usinas nucleares existentes.

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O que a decisão da UE significa para a transição energética?

A UE sinalizou uma ênfase renovada na energia nuclear. A redução do setor de energia nuclear na Europa foi um “erro estratégico”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enquanto os governos enfrentam uma crise energética decorrente do conflito no Oriente Médio. Sua declaração é, porém, altamente controversa. Os defensores da energia nuclear argumentam que ela aumenta a segurança energética e que os combustíveis fósseis – petróleo, gás e carvão – poderiam ser substituídos, o que é mais favorável ao clima. Os críticos alertam, contudo, que isso poderia prejudicar os investimentos em energia hidrelétrica, eólica e solar.

Na Suíça, o governo federal afirma que novas usinas nucleares poderiam complementar o desenvolvimento das energias renováveis. No entanto, a tecnologia continua sendo motivo de controvérsia política, como mostram as pesquisas. Qualquer projeto novo enfrentaria hoje forte resistência política e, provavelmente, longos processos judiciais – atrasos que poderiam retardar significativamente a transição energética do país como um todo.

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Adaptação: Soraia Vilela

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