As expectativas se cumpriram
Suíços ficaram satisfeitos com o Fórum Social Mundial (FSM), que terminou na segunda-feira em Porto Alegre. Pontos positivos: contato e a qualidade dos debates. Pontos negativos: o evento está superdimensionado.
Grupo discute agora se, no ano que vem, não seria interessante a participação de representantes do governo suíço.
“Alguns políticos na Suíça desprezaram o Fórum Social Mundial, dizendo que lá ocorrem apenas manifestações, enquanto que em Davos se trabalha”, afirma Rudolf Strahm, deputado federal do Partido Socialista Suíça (PSS) e membro da delegação de 30 suíços que foi a Porto Alegre. “Eu vivi nos workshops em Porto Alegre discussões, cujo nível estavam no mesmo patamar daquelas que realizamos nas comissões no parlamento”.
“Foi fantástico”, declara Pierre Tillmanns, deputado federal do PSS, “o tema de uma possível guerra no Iraque estava presente o tempo todo; e uma coisa está clara: todos estão contra”.
Tillmann gostou sobretudo da decisão tomada em Porto Alegre, de enviar em fevereiro uma delegação de parlamentares de vários países para Bagdá, no Iraque.
Feminismo no FSM
Gabriella Andina, do grupo de mulheres do PSS, também faz um balanço positivo da participação suíça em Porto Alegre. “Aqui eu descobri que os temas do movimento feminista ainda são muito importantes no Terceiro Mundo”.
“Eu estou entusiasmada. As mulheres falaram sobre temas complexos no Fórum”, reforça Marina Decarro, do movimento Marcha Mundial das Mulheres. Apesar do elogio, ela lembra que “temas feministas acabam sempre sendo um pouco alijados no FSM. Eles devem receber mais destaque”.
Em Porto Alegre suíços fazem rede de contatos
“O Fórum superou todas as minhas expectativas”, declara Beat Dietschy, presidente da ONG Declaração de Berna (EvB), que também havia organizado a conferência alternativa em Davos “Public Eye on Davos”. “Nós conseguimos construir uma ponte entre Porto Alegre e Davos. Nós mostramos que existe uma outra Davos”.
O que mais impressionou esse suíço foi que “tantos jovens terem feito perguntas críticas, deixando claro que eles querem algo diferente do que é proposto pela globalização econômica”.
“O FSM foi uma forte contraposição à dominante globalização neoliberal que reina nos dias de hoje”, esclarece Bruno Gurtner do grupo Coalizão Suíça, que reúne as seis maiores organizações de assistência social do país. “Todos voltam para casa motivados a fazer um outro mundo possível”.
A Suíça oficial também estava presente
Também a representante do governo suíço, Dora Rapold, da Direção para Desenvolvimento e Cooperação (DDC), teve uma boa impressão. “Nós trabalhamos há anos em conjunto com organizações não-governamentais. Por isso é importante a nossa participação em eventos onde suas idéias são discutidas. O FSM é uma chance única de poder contatar tantas ONGs ao mesmo tempo”. O órgão suíço enviou este ano quatro funcionários para Porto Alegre.
Também o ministério do Exterior da Suíça enviou um representante ao FSM: Gérald Pachoud. “Nós queremos ter contato com essa parte da sociedade civil. Queremos ver quais são as novas tendências”, afirma o especialista em direitos humanos. “No Fórum o tema – água – foi muito presente. Eu acredito que essa será uma discussão que irá animar o debate em outros círculos”.
O sucesso como um problema
Poucas pessoas criticaram abertamente o Fórum Social Mundial, a não ser para dizer que este cresceu demais. Segundo os organizadores, 20.763 delegados, vindos de 159 diferentes países, vieram esse ano. Ao mesmo tempo, o evento em Porto Alegre contou com a participação de mais de quatro mil jornalistas e um público de aproximadamente 100 mil pessoas.
“Nessas dimensões não foi mais possível ter uma discussão diferenciada, pois ela não é mais recebida”, critica Rapold, a funcionária do Deza.
Jean Ziegler falou, por exemplo, para um público de 20 mil pessoas. O discurso de Noam Chomskys teve de ser transmitido no grande salão e no alojamento da universidade, para que todos pudessem escutá-lo.
“Porto Alegre chegou nos seus limites de organização e eficiência”, constata Strahm. “Talvez seja importante delegar parte do trabalho para os fóruns regionais”.
Fóruns regionais ganham em importância
“A descentralização é importante para que o movimento possa crescer”, acredita Eric Decarro, presidente dos Sindicatos do Funcionalismo Público (VPOD) e co-iniciador do Fórum Social Suíço. “É necessário criar uma rede de fóruns sociais”.
No Fórum Social Suíço, em setembro, Decarro quer trabalhar sobretudo temas ligados à Suíça: o segredo bancário e o papel do país como mercado financeiro na globalização.
“Não é necessário organizar todos os anos eventos gigantescos”, acredita Hubert Zurkinden, secretário-geral do Partido Verde. “Eu conheci suíços aqui em Porto Alegre, cuja existência só sabia através do nome. Isso é importante, porém um evento desse também poderia ocorrer no nosso próprio país”.
Porto Alegre 2004 vai para a Índia
Nessa semana o comitê do FSM tornou pública a decisão de organizar o próximo evento na Índia.
Não se sabe ainda se a Suíça estará representada por um membro do governo. Nesse sentido as opiniões são diversas.
“Se parlamentares como eu, consideram importante a vinda para aqui, onde é possível refletir e depois colocar no seu país as idéias em prática, acho que um ministro também poderia aproveitar dessa chance, de debater num ambiente tão estimulante”, diz Fernand Cuche, deputado federal do Partido Verde da Suíça.
“O FSM não é importante para políticos e homens de negócio”, contrapõe Pachoud, do ministério do Exterior. “Eu não digo que isso seria desnecessário, porém não creio que os organizadores do Fórum tenham esse desejo. A Suíça tem outras formas de mostrar o seu apoio”.
swissinfo, Philippe Kropf em Porto Alegre.
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