Câmara discute liberalização da maconha
Câmara dos Deputados na Suíça vota em uma semana a descriminalização da maconha. Ao mesmo tempo, produtores da erva são perseguidos pela polícia em vários cantões.
Especialistas são contra a proibição, lembrando porém que a maconha não é uma droga inteiramente inofensiva.
Kurt Hostettmann, professor e diretor do Instituto de Farmacognosia e Fitoquímica da Universidade de Lausanne, prefere opinar cientificamente sobre a questão da maconha na Suíça.
“Eu sou favorável à descriminalização da maconha, pois o prejuízo causado pelo consumo de cannabis é muito menor do que os estragos provocados pelo uso do álcool e do tabaco”.
O professor se inquieta, porém, com os efeitos sobre jovens consumidores. “Não vejo nenhum problema quando um jovem fuma esporadicamente um cigarro de maconha. Porém o consumo de doses fortes, particularmente por via oral, pode provocar tendências suicidas”.
Por conseqüência, Kurt Hostettmann se declara “fortemente favorável” à idéia lançada pela comissão de saúde da Câmara dos Deputados: criar uma taxação da maconha em função da sua taxa de THC (Tetrahidrocanabinol – a substância ativa que provoca os efeitos alucinógenos da planta).
Aprender a conduzir
Para o antropólogo Jeremy Narby, estabelecido em Porrentruy (cantão do Jura), “as plantas modificadoras da consciência são veículos. Aprender a utilizá-las, é como aprender a dirigir. Nesse caso, seria necessária a criação de auto-escolas, assim como um código de estradas”.
“Porém a realidade é que ainda estamos na Suíça distante de ter um discurso público coerente sobre a questão, como mostra a confusão que estamos vivendo atualmente”.
“A cannabis é relativamente inofensiva e provoca muito menos acidentes de trânsito ou casos de violência conjugal do que o álcool. Apenas 5 a 10% das pessoas que a utilizam não se adaptam, ficam pálidos e vomitam após o uso, o que não é bom para os jovens cérebros em formação”, continua Narby.
“Insulto à inteligência”
Para esse especialista da Amazônia e alucinógenos, o exemplo do tabaco é revelador: – “Nós saímos do contexto de planta sagrada de uso mais freqüente entre os índios americanos e fizemos dela uma toxicomania. Não seria aconselhável fazer a mesma coisa com a maconha. Porém infelizmente é o que está acontecendo com a erva indoor”.
“Por uma questão de princípios, considero ser uma boa idéia descriminalizar o cânhamo. Declarar uma planta ilegal é um absurdo. A maconha já inspirou centenas de artistas, músicos, arquitetos e escritores. Proibí-la é um insulto à inteligência”, diz M. Narby.
Banir o tabaco
Etnobotânico em Massonnens (cantão de Friburgo), François Couplan é um especialista em plantas selvagens e, sobretudo, na sua utilização na gastronomia.
Para ele, se é importante banir alguma coisa, que seja então o tabaco, que “é uma planta tóxica, mortal se é comida, enquanto que a maconha poderia entrar na categoria de plantas comestíveis”.
“Porém, atenção: a maconha não é uma planta completamente benigna: ela abre também o espírito para dimensões mais vastas do que o álcool. Se ela for mal utilizada e, se alguém abusa do seu uso, a maconha pode destruir uma personalidade não muito sólida”, declara Couplan.
“Não é necessário fazer uma tempestade ou diabolizar a maconha. Nós vivemos numa sociedade de dependências. A cannabis não irá provocar grandes distúrbios sociais. O importante é informar o público e os políticos sobre a planta, para que eles tomem decisões com base em informações sérias”.
Polêmicas
O botânico lamenta a polarização do debate sobre a descriminalização da maconha nesses últimos meses. “Existem extremistas dos dois lados – os favoráveis e os contra. O problema é que se essas pessoas endurecem seus discursos, o debate se realiza apenas no plano moral e abstrato, o que é uma pena”.
No dia 18 de junho, parlamentares suíços irão debater na Câmara dos Deputados as novas regras legais sobre os produtos da maconha. Em dezembro de 2001, o Senado havia aprovado a liberalização por 32 votos contra 8.
swissinfo e agências.
– Entre 500 e 600 mil pessoas consomem regularmente maconha na Suíça.
– 6,5% dos jovens entre 15 e 19 anos, 5,4% dos jovens entre 20 e 24 anos consomem maconha uma vez por dia ou mais.
– Em 1997, 70,7% dos votantes rejeitaram em plebiscito a proposta popular de lei “Por uma juventude sem drogas”.
– Em 1998, 73,9% dos suíços rejeitaram também a proposta popular “Droleg” (legalização geral).
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