The Swiss voice in the world since 1935

Rejeição da guerra vai além do pacifismo

Milhares de manifestantes ocuparam as ruas de Berna dia 15 de fevereiro. Keystone

Milhões de pessoas em muitos países continuam se manifestando contra o iminente ataque ao Iraque. Na Suíça, estão marcadas novas manifetações para quarta-feira.

Esse fenômeno exprime mais que um simples pacifismo, segundo vários sociólogos suíços.

Vários acadêmicos suíços pensam que os protestos contra o iminente ataque ao Iraque exprimem também um sentimento mais amplo de insatisfação.

“Não se trata de um pacifismo romântico porque as pessoas se deram conta que está ocorrendo algo de grave”, afirma o sociólogo René Levy, da universidade de Lausanne.

Mais de um motivo de protestar

O antropólogo Fabrizio Sabelli, de Genebra, acha que “estamos assistindo à globalização da oposição a essa guerra anunciada.” Ele acrescenta que o fenômeno confirma que a História em marcha unifica cada vez mais o planeta, não somente através dos mercados mas também pela percepção e os sentimentos que as pessoas têm da História presente.”

“O aspecto interessante dessas manifestações, afirma o sociólogo genebrino Ueli Windisch, é que elas contradizem a imagem da opinião pública individualista, ausente a abobalhada pelas imagens de horror vistas na televisão.”

Mas qual seria a motivação de uma tal rejeição às operações militares contra o Iraque?

Disproporção e falta de transparência

“Todo mundo é contra a guerra, afirma Ueli Windisch. E aí os cidadãos se mobilizam em massa por uma causa nobre. Mas por que não houve mobilização desse porte depois dos atentados do 11 de setembro?”, questiona o sociólogo.

“Uma parte das pessoas exprime sua hostilidade contra um Estado considerado como primeira potência do planeta e que dá a impressão de abusar da força”, responde o etnólogo suíço Pierre Centlibres.

Para Ueli Windsch, essas pessoas estão demonstrando seu anti-amricanismo. “Só os
Estados Unidos podem nos livrar dos últimos tiranos do planeta. Ora, parte da mídia e certos intelectuais não param de ridicularizar o presidente Bush”, afirma.

Windsch acrescenta que isso “tornou inimaginável pensar que os presidente dos USA queira uma guerra em nome de valores fundamentais que Europa divide com os Estados Unidos.”

Primeira crise séria

Segundo René Levy, as manifestações e as pesquisas de opinião feitas em muitos países demonstram que os argumentos em favor do ataque militar não convenceram muita gente. “As pessoas também se animam a sair às ruas devido as reticências de vários governos”, afirma Levy.

Ele constata ainda que o braço-de-ferro diplomático no Conselho de Segurança da ONU é a primeira crise entre os EUA e a União Européia, desde a implosão do bloco comunista.

O antropólogo Fabrizio Sabelli analisa também a divisão que existe dentro da União Européia:

“Os governos que apóiam atualmente a opção militar são de natureza mais ou menos populista, nos EUA, Espanha, Itália e Grã-Bretanha (em menor escala). Ora, eles usam freqüentemente as pesquisas de opinião mas agora cairam na própria armadilha.”

Fabelli considera, portanto, que as manifestações hostís à guerra também são uma mensagem que tira a legitimidade de governos populistas.

“Trata-se de um protesto contra a falta de transparência nessa crise. A maioria se opõe a um conflito considerado desproporcional mas também protestam contra governos não transparentes. São manifestações contra a mentira”, conclui o antropólogo de Genebra.

swissinfo, Frédéric Burnan, Genebra

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR