Como suíços viraram “alemães” no sul do Brasil
O Vale do Itajaí é conhecido pela herança alemã, mas milhares de suíços também ajudaram a formar a região. Ao longo do tempo, sua identidade foi absorvida pela cultura "alemã" dominante, um exemplo de como migração e língua transformam memórias coletivas.
Localizado no estado de Santa Catarina, no Sul do Brasil, o Vale do Itajaí é uma das regiões mais emblemáticas do país no que diz respeito à imigração europeia. Marcada por vales fluviais e cidades com arquitetura enxaimel, a região construiu uma identidade fortemente associada à herança alemã, o que se reflete na música, na culinária e em festividades tradicionais como a Oktoberfest, por exemplo, inspirada na famosa celebração da cerveja em Munique, na Alemanha.
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Os visitantes da região, no entanto, raramente percebem que essa mesma área também abrigou a maior comunidade de descendentes de suíços do país – muitos dos quais já não se identificam mais como tais. Essa presença remonta ao século 19, quando cerca de 15 mil imigrantes suíços se estabeleceram no Sul do Brasil, com picos nas décadas de 1810, 1850 e 1880. Ao longo de gerações, porém, suas origens foram gradualmente diluídas em uma narrativa “germânica” mais ampla, que passou a dominar a identidade local.
Como foi a imigração suíça para a região
Segundo Magda Kaspar, pesquisadora do Departamento de História da Universidade de Zurique, os maiores fluxos migratórios da Suíça para a América Latina ocorreram no século 19, quando a Suíça mantinha uma política que não visava cultivar laços com os expatriados, mas sim facilitar sua partida.
No contexto das crises agrárias, da escassez de terras e da pobreza generalizada na Suíça, a emigração das camadas mais pobres da população era ativamente incentivada, financiada e, em alguns casos, até mesmo imposta por vários municípios e cantões. “O objetivo não era criar laços duradouros no exterior, mas aliviar os problemas locais removendo populações consideradas indesejáveis”, afirma Kaspar.
Do lado brasileiro, as políticas de colonização da época favoreciam a chegada de imigrantes europeus, dando preferência a pessoas consideradas brancas e trabalhadoras. Nessa fase inicial, predominaram os imigrantes suíços, italianos e alemães.
“O governo imperial brasileiro, por sua vez, incentivava a imigração com o objetivo de substituir a mão de obra dos escravizados pela dos colonos livres, bem como para preencher lacunas demográficas e também para ‘branquear’ a população brasileira”, afirma Gláucia de Oliveira Assis, professora da Universidade Estadual de Santa Catarina.
Um exemplo foi a colônia Dona Francisca, localizada na cidade de Joinville, na região do Vale do Itajaí, onde chegaram em torno de 17 mil pessoas entre 1850 e 1888. A maioria desses imigrantes era composta por agricultores de baixa renda, protestantes, atraídos pela propaganda das empresas de colonização, que retratavam o Sul do Brasil como um verdadeiro paraíso, uma terra de oportunidades. A colônia é hoje apresentada como um exemplo da imigração alemã no país.
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Alemão, não suíço?
De acordo com Kaspar, naquela época, os imigrantes suíços tendiam a se definir principalmente por suas origens locais e cantonais e não por uma identidade nacional mais ampla.
“Os primeiros colonos de Joinville, Nova Friburgo e Helvetia foram entregues à própria sorte após chegarem ao Brasil. Sem apoio cultural, organizacional ou educacional da Suíça, muitos de seus descendentes cresceram com pouca ou nenhuma referência significativa à herança suíça”, afirma a pesquisadora.
Além disso, o principal fator que levou ao desaparecimento da influência suíça na história da região foi a língua. Como a grande maioria dos imigrantes da época vinha de cantões onde o alemão era a língua oficial, os brasileiros passaram a designar genericamente todos os imigrantes que falavam dialetos semelhantes como “alemães”.
“A língua foi o elemento-chave usado para generalizar todos como descendentes de alemães. Não apenas os suíços, mas também os austríacos eram classificados como alemães, especialmente porque a própria Alemanha passava por um processo de unificação, em meio a uma sobreposição de identidades regionais, como a dos pomeranos e a dos bávaros”, diz Francisco Alfredo Braun Neto, professor da Universidade do Vale do Itajaí.
Segundo ele, à medida que os alemães foram se tornando gradualmente o grupo economicamente mais importante da região, eles passaram a organizar atividades culturais, clubes de tiro e de ginástica, além de financiar escolas que ensinavam alemão e promoviam atividades religiosas centradas em uma cultura germânica comum. Essa cultura abrangia pessoas provenientes de uma Alemanha ainda não unificada e absorvia características dos suíços e de outros grupos de origem germânica que se estabeleceram na região.
Além disso, as políticas de nacionalização implementadas no Brasil ao longo do século 20 intensificaram esse processo. Em 1942, durante a II Guerra Mundial, foi decretado o fechamento das escolas de língua estrangeira, e o uso público do alemão foi proibido. Nesse contexto, os descendentes de suíços passaram por uma dupla ruptura linguística: primeiro, a substituição dos dialetos suíço-alemães pelo alemão padrão; e, posteriormente, a imposição do português.
“Juntas, essas forças incorporaram a herança suíça a uma narrativa alemã mais ampla. Esse caso ilustra também como a diversidade linguística interna da Suíça complica a formação de uma identidade nacional única e continua a influenciar as percepções sobre o ‘caráter suíço’ no exterior, especialmente em regiões historicamente dominadas por imigrantes de língua alemã”, pontua Kaspar.
Construção intencional
Segundo Braun Neto, o apagamento da memória suíça foi também algo intencional no século 20. Em sua opinião, a partir da década de 1960, símbolos, trajes folclóricos e referências culturais associados à Baviera foram ressignificados e incorporados à identidade local, num processo que pode ser entendido como uma “invenção da tradição”.
“Com a consolidação da Oktoberfest [como evento turístico], essa estética foi sendo gradualmente construída e institucionalizada. Foi adotado um modelo visual e simbólico inspirado em uma ideia do que seria germânico, incluindo a reprodução de estilos arquitetônicos associados à Alemanha antiga, mesmo que muitas dessas formas já não existissem na Europa desde o século 18”, completa Braun Neto.
“As cidades da região passaram então a construir obras públicas, como terminais de ônibus e centros administrativos, recorrendo a esse estilo arquitetônico, o que reforçava uma identidade alemã construída, mesmo em contextos marcados pela presença diversificada de grupos de imigrantes poloneses, italianos, suíços e de outras origens”, acrescenta o professor.
Apesar disso, existem iniciativas destinadas a aumentar a visibilidade da presença suíça na história de Joinville, concretizadas com a inauguração de um Centro Cultural Suíço em março de 2026, sediado em uma antiga casa de tipo enxaimel, com o objetivo de destacar a importância e a contribuição da imigração suíça para a cidade – mesmo que esse esforço do Estado suíço tenha ocorrido décadas após a imigração ter acontecido.
“As autoridades federais, em conjunto com instâncias como a Organização dos Suíços no Exterior (ASOLink externo, na sigla em alemão), introduziram gradualmente instrumentos para fortalecer as conexões com a diáspora: escolas suíças no exterior, publicações multilíngues e outras iniciativas destinadas a cultivar um sentimento, em constante evolução, de pertencimento à Suíça”, afirma Kaspar.
No Vale do Itajaí, a herança suíça permanece visível, embora não seja nomeada. E talvez essa seja a característica mais duradoura da migração: identidades que sobrevivem mesmo quando já não são mais reconhecidas. Segundo Oliveira Assis, no Vale do Itajaí de hoje, outras festas associadas a determinados grupos revelam uma heterogeneidade que, por muito tempo, esteve ausente das narrativas sobre a imigração na região.
“Dessa forma, os moradores que há muito tempo celebram suas origens alemãs coexistem com essa narrativa hegemônica da identidade, enquanto outros grupos começam também a contar suas próprias histórias. O desafio para os habitantes da região, especialmente para os descendentes de imigrantes que chegaram no século 19, é compreender que os imigrantes de hoje buscam as mesmas oportunidades que seus antepassados buscaram no passado: trabalho, uma vida nova, um lugar para morar”, observa a professora.
Edição: Virginie Mangin/ds
Adaptação: Soraia Vilela
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