Resgate da música colonial brasileira
A música barroca brasileira existe e é de alto nível, merecendo por isso mesmo ser difundida.
É o que faz Luiz Alves da Silva, à frente do Ensemble Turicum, de Zurique.
A divulgação da música colonial brasileira é o principal objetivo que se fixou como artista o contratenor catarinense, Luiz Alves da Silva, radicado há 20 anos em Zurique.
É um objetivo que ele realiza em concertos e em gravações feitas pelo Ensemble Turicum, que fundou em 1990, com a ajuda de um amigo violinista, integrante do Ensemble.
A título de curiosidade, Turicum é o nome latino de Zurique, capital econômica e financeira da Suíça.
Esse conjunto, especializado em música barroca, é constituído de uma voz solista, um quarteto de cordas e instrumentos contínuo (órgão ou cravo). Utiliza instrumentos originais, como violinos do século XVIII munidos de cordas de tripas que, segundo Luiz, restituem a suavidade original das obras.
Integrado por músicos experientes – e, em função do programa, pode ser ampliado a 30 pessoas – o Ensemble Turicum já gravou vários CDs de música barroca entre os quais se destacam dois de música sacra brasileira do séc. XVIII e a Missa Pastoril para a Noite de Natal, de Nunes Garcia (1811).
Com seu repertório barroco, o conjunto tem freqüentado as grandes cenas européias, da Alemanha, Áustria, França, Espanha… e efetuado turnês pela Argentina, Bolívia e Brasil.
O Haydn brasileiro
Luiz tem particular orgulho de ter gravado a Missa Pastoril, do Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) – em que demonstra um pouco de seu talento de contratenor, uma tessitura de voz semelhante à de contralto.
Mesmo porque Nunes Garcia “representa o ponto alto de nossa música barroca” e poderia ser comparado a Haydn, avalia artista.
Ele vê como sinal da importância da obra deixada pelo compositor mulato: “a “sensacional reação do público e da crítica” em cada concerto com música de JMNG apresentado pelo Ensemble.
E insiste: “Acho fundamental que se conheça e se respeite esses compositores que no século XVIII e início do século XIX conseguiram chegar a tão alto nível artístico, para que a população negra e mulata do Brasil de hoje se dê conta de tudo de que é capaz”.
Luiz Alves se surpreende com o preconceito existente entre os músicos clássicos brasileiros em relação a Nunes Garcia, achando que no Brasil muita gente não entendeu o valor do compositor na história da música universal.
Identificação com o branco
Admite até que a obra do mestre seja calcada na musica européia. Lembra, porém, que não se deveria esquecer que os compositores, cem por cento mulatos, numa sociedade escravagista e preconceituosa, queriam identificar-se com o pai branco, não com mãe negra.
Eles compunham, então, uma música o mais européia possível, com uma diferença: “alguns elementos harmônicos, alguns elementos da doçura ou da singeleza melódicas já se ouvem nessas composições”, sem que haja plágio de obras européias.
Luiz tem notado que, na Europa, as pessoas impressionam-se com a qualidade da Missa Pastoril, que à primeira vista – ou à primeira audição, diríamos – dizem nada ter de brasileira. Mas “quando ouvem uma segunda ou terceira vez, percebem a diferença”, constata o artista.
O contratenor realça o mérito ainda maior dos compositores barrocos brasileiros pelo fato de eles não terem tido nem escolas, nem professores: estudavam, ou melhor, analisavam partituras dos grandes mestres da época como Pergolesi e Boccherini. Ou de compositores mais antigos, como Monteverdi ou Josquin Després…
Novo projeto
Explorando o mesmo filão da música barroca mineira, o Ensemble Turicum tem plano de gravar, “ainda este ano”, as Matinas para Sexta-Feira Santa, para vozes solistas, coro de 4 vozes e orquestra, de autoria de António dos Santos Cunha.
“É uma música profunda, séria e bonita”, realizada provavelmente pelo único compositor branco que atuava em Minas Gerais no fim do século XVIII, diz Luiz Alves da Silva.
Mas o conjunto tem particular orgulho de ter lançado a primeira gravação de uma missa de Pergolesi, graças à descoberta ocorrida há pouco tempo, em Lisboa, de um manuscrito que prova a autenticidade da obra. As cópias que havia dessa missa eram todas do século XIX, com instrumentação alterada.
Foi o musicólogo brasileiro, Sérgio Dias, quem descobriu na Biblioteca da Ajuda o manuscrito “comprovadamente da primeira metade do século XVIII” que traz a instrumentação original do mestre napolitano: instrumentos de cordas, duas trompas, dois trompetes e coro a cinco vozes.
Preocupação artística
Luiz Alves espera que essa “primeira gravação da importante obra” possa abrir muitas portas…
As preocupações artísticas do Ensemble parecem no entanto prevalecer e de longe sobre as preocupações financeiras. Nas viagens feitas ao Brasil, por exemplo.
Luiz acha interessante apresentar-se no Brasil não apenas às pessoas bem informadas, do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba. O Ensemble Turicum deu espetáculos em cidades pequenas como Tubarão (SC), Juazeiro do Norte (CE).
Mesmo no interior ele constatou que se as pessoas que nada entendem de música barroca, “têm a sensibilidade de sentir a beleza dessa música”. Ele diz ter visto gente mal vestida, calçando chinelas havaianas, chorando de emoção durante os concertos.
“O que aprecio nos meus colegas, conclui Luiz, é que se vão fazer um espetáculo na Musikverein de Viena ou no interior de Santa Catarina ou Ceará, estão empenhados em mostrar o mesmo nível artístico”.
swissinfo, J.Gabriel Barbosa
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