The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter
Principais artigos
Debate
Newsletter

O cantão suíço onde os carros eram puxados por cavalos

Carrinhos
Um retrato de grupo que mostra uma carroça puxada por cavalos e um carro rebocado em frente ao restaurante Krone, no bairro de Masans, em Chur. A fotografia foi tirada entre 1900 e 1911. CC BY 3.0 / Stadtarchiv Chur

Imagine ter que desligar o motor do seu carro na fronteira do cantão para que cavalos pudessem puxá-lo pelo resto do trajeto. Era isso que acontecia nos Grisões, no leste da Suíça, por um quarto de século: entre 1900 e 1925, o cantão resistiu ao automóvel e escreveu um capítulo único na história dos transportes na Europa.

A fronteira cantonal era o limite. Em vez de pisar no acelerador, os motoristas tinham que assistir enquanto dois bois ou cavalos eram atrelados à frente do veículo. Só assim podiam seguir rumo ao destino nos Grisões.

O que parece cena de uma comédia absurda foi realidade por 25 anos na maior região turística da Suíça. Enquanto o resto da Europa já se deliciava com a emoção da velocidade, os eleitores dos Grisões mantinham obstinadamente a proibição total de carros – o que fazia do cantão um caso único na Europa.

‘Monstros fedorentos e barulhentos’

A proibição dos carros nos Grisões é um retrato das peculiaridades da democracia direta e do federalismo suíços. Na Suíça, os cantões [unidades federativas similares aos estados brasileiros] têm ampla autonomia em muitas matérias. Foi só por isso que o cantão dos Grisões pôde impor uma proibição tão radical e duradoura.

Cavalo e carroça
O Vale do Reno, nos Grisões, na década de 1920: a empresa de mudanças Settelen, de Basileia, tem de recorrer a dois cavalos para puxar o seu camião. settelen.ch

Tudo começou em 17 de agosto de 1900, quando, após inúmeras reclamações sobre os ‘monstros fedorentos e barulhentos’, o governo cantonal decidiu, sem maiores cerimônias, proibir os carros em todas as estradas.

O que nasceu como medida de segurança logo se transformou numa verdadeira guerra cultural. Os homens dos Grisões – as mulheres só puderam votar em questões cantonais a partir de 1972 – foram convocados às urnas dez vezes para decidir sobre a autorização dos automóveis. Em nove delas, rejeitaram qualquer flexibilização da proibição, por vezes com maiorias esmagadoras.

Poeira, barulho e divisões sociais

Como os 150 vales do cantão, as razões que motivavam essa resistência eram múltiplas e variadas. De um lado, havia preocupações concretas com a segurança: as estradas estreitas e sem pavimentação tinham sido feitas para carruagens e carroças.

Os carros, muito mais velozes, levantavam imensas nuvens de poeira e assustavam os cavalos, o que podia ser fatal nos caminhos estreitos das montanhas. Até hóspedes ilustres de estações termaisLink externo, como o físico e ganhador do Nobel Wilhelm Conrad Röntgen, preocupavam-se com a segurança dos cavalos e preferiam a tranquilidade da carruagem particular ao automóvel.

Carrinho
Já chegamos? Crianças de férias de verão nas montanhas, por volta de 1904, em Parpan, no cantão dos Grisões. Keystone

Por trás da preocupação com a segurança, no entanto, escondia-se também um conflito social. Naquela época, o carro era visto simplesmente como veículo de ostentação, um brinquedo da classe alta urbana.

Os agricultores não viam por que deveriam arcar com a cara manutenção das estradas só para acabarem cobertos pela poeira levantada por turistas abastados.

Além disso, os transportadores da região temiam pelo próprio sustento. E a Ferrovia Rética, na qual o cantão tinha investido muito dinheiro e que operava desde 1889, não queria concorrência indesejada.

Daí as cenas absurdas pelas estradas dos Grisões. O empresário alemão Karl August Lingner, inventor do enxaguante bucal Odol, era dono do Castelo de Tarasp, no Baixo Engadina. Ele tinha que mandar puxar sua limusine por cavalos desde a fronteira cantonal até a propriedade – só podia ligar o motor dentro do próprio terreno.

Até a primeira pessoa a ter um carro nos Grisões, o político Gaudenz Issler, de Davos, devolveu o veículo em 1897, pouco tempo depois de comprá-lo, frustrado por considerar as estradas do cantão completamente impróprias.

Estrada de montanha
Este veículo estava autorizado a circular no cantão dos Grisões: um ônibus postal de 1923 em um desfiladeiro na Engadina. Albert Steiner / Getty Images

A Primeira Guerra Mundial e o PostBus

A virada veio enfim com a Primeira Guerra Mundial. Com os cavalos levados para o exército e a comida escassa, o abastecimento da população passou a depender de caminhões.

A classe médica também passou a exigir, com insistência, veículos motorizados para chegar mais rápido aos pacientes nos vales, muitos deles remotos, em casos de emergência.

A chegada do PostBus, o ônibus postal, foi outro fator decisivo: em 1919, entrou em operação a primeira linha, entre Reichenau e Flims. Aos poucos, os moradores dos Grisões foram percebendo que o veículo motorizado não era apenas um luxo dos ricos, mas algo capaz de facilitar o dia a dia e reduzir drasticamente a duração de viagem.

Com o tempo, as estações turísticas também passaram a temer ficar para trás em relação a outras regiões caso insistissem no “fechamento medieval da fronteira”, como alguns chamavam a proibição de carros.

Cartaz de campanha contra uma lei de trânsito (histórico)
«Querem vender a liberdade das vossas estradas a esses fanfarrões estrangeiros com os seus carros, só por umas moedas de prata? Não! Nunca!» Um cartaz de campanha precisava de palavras fortes para se opor à nova lei de trânsito no cantão dos Grisões. Public domain

Em 21 de junho de 1925, chegou enfim o momento: na décima votação, 52% dos eleitores dos Grisões derrubaram a proibição dos carros.

Línguas maliciosas chegaram a dizer, mais tarde, que o resultado apertado só foi possível porque muitos agricultores avessos ao automóvel já estavam nos pastos alpinos com suas vacas e não puderam descer para votar.

Da lanterna à vanguarda

Derrubada a proibição, o avanço do automóvel foi rápido. Em apenas seis anos, o número de veículos no cantão aumentou dez vezes.

Ironicamente, o cantão dos Grisões se transformou hoje em um dos cantões com maior densidade de carros em toda a Suíça, com cerca de 126 mil veículos registrados para 200 mil habitantes.

Nas áreas remotas, o carro é simplesmente indispensável para a participação de boa parte da população na vida social e econômica.

Mas os velhos fantasmas da resistência não desapareceram por completo. Cem anos depois, a restrição aos carros voltou ao debate, desta vez no contexto das mudanças climáticas, da poluição sonora e do congestionamento nos desfiladeiros alpinos.

Cidades como Coira (Chur) já criaram zonas sem carros, e há dias específicos em que se restringe o tráfego em um dos cinco desfiladeiros alpinos para a circulação de ciclistas e pedestres.

Há mais de cem anos, o cantão dos Grisões travou uma batalha contra os carros por razões de segurança, custo e cultura. Hoje, há momentos em que as estradas são deliberadamente fechadas aos carros para promover a mobilidade suave e enriquecer a experiência turística.

Edição: Balz Rigendinger/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

Mostrar mais

Debate
Moderador: Zeno Zoccatelli

Você já ouviu algo peculiar sobre a Suíça que tenha achado interessante?

Há algo peculiar relacionado à Suíça que tenha despertado seu interesse? Compartilhe conosco e talvez possamos incluí-lo em um artigo!

109 Curtidas
104 Comentários
Visualizar a discussão

How we translate with AI

We use automatic translation tools, such as DeepL and Google Translate, for some content.  

Each translated article is carefully reviewed by a journalist for accuracy. Using translation tools gives us the time for more in-depth articles. 

Learn more here about how we work with AI. 

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR