O cantão suíço onde os carros eram puxados por cavalos
Imagine ter que desligar o motor do seu carro na fronteira do cantão para que cavalos pudessem puxá-lo pelo resto do trajeto. Era isso que acontecia nos Grisões, no leste da Suíça, por um quarto de século: entre 1900 e 1925, o cantão resistiu ao automóvel e escreveu um capítulo único na história dos transportes na Europa.
A fronteira cantonal era o limite. Em vez de pisar no acelerador, os motoristas tinham que assistir enquanto dois bois ou cavalos eram atrelados à frente do veículo. Só assim podiam seguir rumo ao destino nos Grisões.
O que parece cena de uma comédia absurda foi realidade por 25 anos na maior região turística da Suíça. Enquanto o resto da Europa já se deliciava com a emoção da velocidade, os eleitores dos Grisões mantinham obstinadamente a proibição total de carros – o que fazia do cantão um caso único na Europa.
‘Monstros fedorentos e barulhentos’
A proibição dos carros nos Grisões é um retrato das peculiaridades da democracia direta e do federalismo suíços. Na Suíça, os cantões [unidades federativas similares aos estados brasileiros] têm ampla autonomia em muitas matérias. Foi só por isso que o cantão dos Grisões pôde impor uma proibição tão radical e duradoura.
Tudo começou em 17 de agosto de 1900, quando, após inúmeras reclamações sobre os ‘monstros fedorentos e barulhentos’, o governo cantonal decidiu, sem maiores cerimônias, proibir os carros em todas as estradas.
O que nasceu como medida de segurança logo se transformou numa verdadeira guerra cultural. Os homens dos Grisões – as mulheres só puderam votar em questões cantonais a partir de 1972 – foram convocados às urnas dez vezes para decidir sobre a autorização dos automóveis. Em nove delas, rejeitaram qualquer flexibilização da proibição, por vezes com maiorias esmagadoras.
Poeira, barulho e divisões sociais
Como os 150 vales do cantão, as razões que motivavam essa resistência eram múltiplas e variadas. De um lado, havia preocupações concretas com a segurança: as estradas estreitas e sem pavimentação tinham sido feitas para carruagens e carroças.
Os carros, muito mais velozes, levantavam imensas nuvens de poeira e assustavam os cavalos, o que podia ser fatal nos caminhos estreitos das montanhas. Até hóspedes ilustres de estações termaisLink externo, como o físico e ganhador do Nobel Wilhelm Conrad Röntgen, preocupavam-se com a segurança dos cavalos e preferiam a tranquilidade da carruagem particular ao automóvel.
Por trás da preocupação com a segurança, no entanto, escondia-se também um conflito social. Naquela época, o carro era visto simplesmente como veículo de ostentação, um brinquedo da classe alta urbana.
Os agricultores não viam por que deveriam arcar com a cara manutenção das estradas só para acabarem cobertos pela poeira levantada por turistas abastados.
Além disso, os transportadores da região temiam pelo próprio sustento. E a Ferrovia Rética, na qual o cantão tinha investido muito dinheiro e que operava desde 1889, não queria concorrência indesejada.
Daí as cenas absurdas pelas estradas dos Grisões. O empresário alemão Karl August Lingner, inventor do enxaguante bucal Odol, era dono do Castelo de Tarasp, no Baixo Engadina. Ele tinha que mandar puxar sua limusine por cavalos desde a fronteira cantonal até a propriedade – só podia ligar o motor dentro do próprio terreno.
Até a primeira pessoa a ter um carro nos Grisões, o político Gaudenz Issler, de Davos, devolveu o veículo em 1897, pouco tempo depois de comprá-lo, frustrado por considerar as estradas do cantão completamente impróprias.
A Primeira Guerra Mundial e o PostBus
A virada veio enfim com a Primeira Guerra Mundial. Com os cavalos levados para o exército e a comida escassa, o abastecimento da população passou a depender de caminhões.
A classe médica também passou a exigir, com insistência, veículos motorizados para chegar mais rápido aos pacientes nos vales, muitos deles remotos, em casos de emergência.
A chegada do PostBus, o ônibus postal, foi outro fator decisivo: em 1919, entrou em operação a primeira linha, entre Reichenau e Flims. Aos poucos, os moradores dos Grisões foram percebendo que o veículo motorizado não era apenas um luxo dos ricos, mas algo capaz de facilitar o dia a dia e reduzir drasticamente a duração de viagem.
Com o tempo, as estações turísticas também passaram a temer ficar para trás em relação a outras regiões caso insistissem no “fechamento medieval da fronteira”, como alguns chamavam a proibição de carros.
Em 21 de junho de 1925, chegou enfim o momento: na décima votação, 52% dos eleitores dos Grisões derrubaram a proibição dos carros.
Línguas maliciosas chegaram a dizer, mais tarde, que o resultado apertado só foi possível porque muitos agricultores avessos ao automóvel já estavam nos pastos alpinos com suas vacas e não puderam descer para votar.
Da lanterna à vanguarda
Derrubada a proibição, o avanço do automóvel foi rápido. Em apenas seis anos, o número de veículos no cantão aumentou dez vezes.
Ironicamente, o cantão dos Grisões se transformou hoje em um dos cantões com maior densidade de carros em toda a Suíça, com cerca de 126 mil veículos registrados para 200 mil habitantes.
Nas áreas remotas, o carro é simplesmente indispensável para a participação de boa parte da população na vida social e econômica.
Mas os velhos fantasmas da resistência não desapareceram por completo. Cem anos depois, a restrição aos carros voltou ao debate, desta vez no contexto das mudanças climáticas, da poluição sonora e do congestionamento nos desfiladeiros alpinos.
Cidades como Coira (Chur) já criaram zonas sem carros, e há dias específicos em que se restringe o tráfego em um dos cinco desfiladeiros alpinos para a circulação de ciclistas e pedestres.
Há mais de cem anos, o cantão dos Grisões travou uma batalha contra os carros por razões de segurança, custo e cultura. Hoje, há momentos em que as estradas são deliberadamente fechadas aos carros para promover a mobilidade suave e enriquecer a experiência turística.
Edição: Balz Rigendinger/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
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