Tempero suíço ganha identidade própria na África do Sul
Na Suíça, persiste a questão: o Aromat continuará sendo suíço? Enquanto isso, no extremo sul do continente africano, o tempero é polvilhado sobre todo tipo de comida há mais de 70 anos. Ali, há muito tempo, ele já deixou de ser apenas suíço e se tornou genuinamente sul-africano.
O cheiro vem da carne grelhada e das espigas de milho assadas. A fumaça do carvão se mistura com a poeira que os miniônibus-táxis levantam na Washington Street. É hora do almoço em Langa, a comunidade mais antiga da Cidade do Cabo.
No restaurante “Jordan Ways of Cooking”, o baixo do amapiano faz tremer as paredes finas. Na cozinha, entre panelas, facas e conchas, há um balde de plástico amarelo. Um quilo de Aromat.
Na verdade, diz Ntlalo Jordan, ele não precisa disso. O chef de 35 anos já cozinhou em hotéis cinco estrelas em Dubai, Libéria e Sudão antes de realizar aqui o sonho de ter seu próprio restaurante. Temperos frescos são a sua especialidade, e ele mesmo prepara as marinadas. “Mas os clientes pedem. Então nós temos.”
Produzido na África do Sul
Cem metros adiante vê-se uma lanchonete em uma barraca, onde uma chapa ondulada foi transformada em uma churrasqueira. Linguiças e hambúrgueres em uma grelha que funciona desde o início da manhã. O balcão é gradeado, e uma pequena abertura é suficiente para passar dinheiro e mercadorias. No centro, em destaque ao lado de uma caixa de ovos, está uma lata amarela: Aromat.
Tempero original. Não se encontra a marca “Knorrli”, como na Suíça. Em vez disso, nas letras miúdas há a indicação de que o produto é fabricado na África do Sul.
Pátria em uma lata amarela
Nove mil quilômetros ao norte, a mesma lata amarela tornou-se um tema político. No final de março, a empresa-matriz britânica Unilever anunciou que iria separar sua divisão de alimentos e fundi-la com a empresa americana de temperos McCormick. Na Suíça, isso desencadeou um debate sobre identidade.
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Suíços temem que tempero icônico pare nas mãos dos EUA
Na mídia, falava-se do “tempero nacional suíço”, que não deveria “cair em mãos americanas!”. Uma petição intitulada “Aromat ghört dr Schwiiz” (“Aromat pertence à Suíça”, em tradução livre) reuniu quase 10 mil assinaturas em uma semana.
Em Thayngen, um vilarejo tranquilo no cantão de Schaffhausen, onde Walter Obrist inventou a receita em 1952 como cozinheiro experimental, ainda são produzidas três mil toneladas da mistura de temperos por ano. Os iniciadores da petição exigem, entre outras coisas, a proteção dos 180 postos de trabalho, bem como da receita original do Aromat.
Aromat nunca foi “suíço”
Embora o tempero amarelo nunca tenha pertencido a uma empresa suíça, para muitos habitantes ele faz parte da Suíça tanto quanto o fondue de queijo, a salsicha cervelat ou a montanha Matterhorn. O Aromat ocupa há décadas um lugar fixo nas mesas de restaurantes suíços, ao lado do tempero Maggi, sal e pimenta. Faz parte do molho de salada e dos ovos mexidos, é lembrança militar e sabor de infância, símbolo de pátria e aconchego em uma lata amarela.
O que provavelmente poucos dos que assinaram a petição sabem: o Aromat desenvolveu uma vida própria na África do Sul ao longo dos últimos 70 anos.
Comida de rua em vez de mesa de restaurante
“Desde quando um ovo custa quatro rands (moeda da Africa do Sul)? Recentemente ainda eram três!” A cliente do pequeno quiosque no terminal de miniônibus-táxis da Cidade do Cabo está visivelmente irritada. Jibril Mengesha tenta acalmá-la, explicando que o aumento de preços é devido à inflação. A contragosto, ela lhe entrega algumas moedas.
Ela pega um ovo da tigela de vidro no balcão, descasca e polvilha com um dos recipientes amarelos de tempero, dos quais há quatro à sua frente.
Jibril, de 28 anos, vem do Quênia e cuida da loja da irmã. Ele reclama da concorrência: vendedores ambulantes com uma caixa de ovos em uma mão e um recipiente de Aromat na outra.
Ele diz nunca ter ouvido que o Aromat vem da Suíça, mas sabe o quanto ele é popular entre os clientes sul-africanos. Nesta manhã, pouco depois das dez horas, ele já vendeu 26 ovos cozidos, que, junto com bebidas açucaradas e todo tipo de petiscos, fazem parte do sortimento básico da loja.
A maioria de seus clientes vem das comunidades na periferia da cidade. Eles viajam de miniônibus-táxi até seus empregos no centro, e passam na loja de Jibril para um lanche.
Na cozinha Kasi – a cozinha das comunidades – o Aromat está presente em toda parte. Vai no braai (grelhados), na espiga de milho, no Kota (o sanduíche típico das comunidades, feito de pão escavado) recheado com batata frita, salsicha, chakalaka e molho, ou no pap (o mingau de milho que constitui o alimento básico em grande parte da África Austral).
Presente em todas as camadas sociais
Mas reduzir o tempero à sua presença nas comunidades seria simplista. O Aromat chegou ao Cabo já um ano após sua invenção na Suíça, em 1953. Hoje faz parte dos temperos básicos de muitas casas em todas as camadas sociais.
Em Grassy Park, a meia hora a leste do centro da cidade – onde os Cape Flats se estendem em direção à False Bay -, Stella Urion está em sua cozinha. A professora aposentada e orgulhosa avó pertence à comunidade negra de língua africâner.
Ela polvilha Aromat sobre coxas de frango e costeletas de cordeiro. “Mas o que eu mais gosto”, diz ela sorrindo, como se revelasse um segredo de família, “é sobre a pipoca.”
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Do Aromat ao absinto: esse é o sabor da Suíça
É necessário um pouco menos de meia de hora de carro para passar entre as ruas poeirentas de Langa – o distrito central de negócios da Cidade do Cabo – e a cozinha de classe média em Grassy Park. As fronteiras estabelecidas pelo regime do apartheid com o grupo Areas Act ainda persistem até hoje. Mas a lata amarela atravessou essas fronteiras.
“O tempero é popular em todas as faixas de renda, seja em Camps Bay, nos subúrbios de classe média ou em Langa”, explica Lwandile Dubazane, gerente de marcas da Unilever África do Sul. Ele fala de uma estimativa de cinco a seis em cada dez lares sul-africanos que têm Aromat na cozinha.
Marketing à maneira sul-africana
Para Dubazane, a marca é um tema com conteúdo muito emocional: “Quando éramos crianças já recitávamos os slogans de TV dos anos 90.” O que na Suíça pertence à mesa do restaurante, na África do Sul é cultura de rua. A publicidade do Aromat no país fala uma língua que ninguém em Thayngen entenderia: “Mogodu Mondays”, “7 Colour Sundays”, “Ichicken Dust”. Um anúncio mostra Aromat em um miniônibus-táxi. Outro associa a marca a festivais de Kota.
Os comerciais de TV, com seu humor, captam o espírito da cultura sul-africana, explica Dubazane. “O Aromat parece sul-africano porque a equipe de marketing o tornou sul-africano.” Eles organizam séries de comédia e eventos comunitários nas comunidades. Por exemplo: “Chips are stupid without Aromat” (batatas fritas são uma bobagem sem Aromat, em tradução livre) hoje faz parte da linguagem cotidiana.
Fábrica que ninguém menciona
O Aromat sul-africano é feito em Durban, na fábrica Indonsa, com 22 mil metros quadrados e uma capacidade de produção de 65 mil a 100 mil toneladas por ano. Trata-se de uma das maiores fábricas de alimentos secos da Unilever no mundo.
A Unilever South Africa não informa quanto Aromat é produzido no país. Nem Dubazane pode divulgar números. Mas as proporções falam por si: um país com 62 milhões de habitantes, atendido por uma fábrica muito maior do que a de Thayngen.
Herança ou apropriação?
Trata-se aqui de apropriação cultural? Um produto que foi tomado e tornado próprio? Ou vestígios de padrões de consumo coloniais? Um produto industrial europeu que substituiu tradições locais de tempero?
“Bem, são as duas coisas, não é?”, diz Marcelyn Oostendorp, professora de linguística na Universidade de Stellenbosch. Seu projeto de pesquisa “Politics of the Belly” (Políticas da barriga, em tradução livre) investiga a relação entre linguagem, alimentação e identidade na África do Sul.
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Hero: como a conserva em lata virou símbolo da vida moderna suíça
Oostendorp lembra um debate lendário entre os escritores africanos Ngũgĩ wa Thiong’o e Chinua Achebe sobre a língua inglesa. Ngũgĩ deixou de escrever em inglês – a língua dos colonizadores não poderia ser a sua. Achebe argumentou o contrário: o inglês que ele utilizava era um novo inglês nigeriano, usado para subverter a língua colonial.
“Claro que esse produto carrega traços coloniais e possivelmente substituiu formas locais de temperar alimentos”, diz Oostendorp. “Mas também o tornamos nosso e o integramos à nossa cultura alimentar.”
Editiert von Balz Rigendinger
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
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