Chocolateiro suíço cresce no Canadá com receita adaptada
Christophe Bonzon acaba de abrir sua terceira boutique em Vancouver, no Canadá, após adaptar doces tradicionais ao paladar local sem abandonar a qualidade suíça.
Quando abriu sua primeira confeitaria em Vancouver, em 2013, Bonzon, hoje com 42 anos, pretendia oferecer especialidades suíças. “Eu fazia questão de vender o salé à la crème e os ramequins de queijo, mas as vendas não decolavam. O mesmo acontecia com o mil-folhas. Os únicos que o compravam eram os imigrantes europeus”.
Natural de Yverdon-les-Bains, no cantão de Vaud, Bonzon percebeu rapidamente que precisaria adaptar-se se quisesse conquistar espaço no mercado canadense. Em sintonia com o espírito do compromisso suíço, ele e sua esposa, Jess, passaram então a desenvolver suas próprias especialidades, combinando os clássicos da confeitaria suíça com as preferências do público local.
Em vez de croissants de amêndoa, eles oferecem, por exemplo, croissants com nozes-pecã e xarope de bordo (maple syrup). E, no lugar do tradicional donut norte-americano, servem um croissant recheado em formato de cubo, cujo recheio muda a cada semana.
Esta série traça o perfil de suíços e suíças que empreendem no exterior. Por meio de suas trajetórias pessoais, mostramos por que realizam seus projetos além das fronteiras nacionais, quais marcos regulatórios (conjunto de normas e leis que regem um setor) encontram e quais desafios e oportunidades surgem desse cenário.
Através de seus caminhos de vida, esta série também demonstra como a “Quinta Suíça” (termo que designa a comunidade de suíços que vivem no exterior) contribui para a projeção econômica, cultural e política da Suíça.
Discreto toque suíço
Quando Bonzon e sua esposa fundaram a empresa, decidiram estampar nas embalagens a bandeira vermelha com a cruz branca da Suíça. “Isso funcionou muito bem para os chocolates”, observa ele. “Mas as pessoas não entendiam o que a bandeira suíça tinha a ver com bolos, doces e outros produtos de confeitaria, que costumam ser associados à tradição francesa”.
Em 2017, o casal resolveu reformular a identidade visual da marca, optando por cores consideradas mais atemporais: azul-marinho e dourado. O confeiteiro procura despertar, de maneira sutil, a curiosidade da clientela. Um exemplo disso é dar às suas pralinas nomes de cidades suíças.
O encanto da novidade
Bonzon acredita que essas escolhas contribuíram para o crescimento de sua empresa. Hoje, ela conta com três unidades em Vancouver.
O suíço reconhece também que o fascínio pelo novo jogou a seu favor. Quando abriu sua própria chocolateria, em 2013, havia apenas outras três em Vancouver. Graças à excelente reputação do chocolate suíço e à qualidade dos produtos oferecidos, a chocolateria rapidamente ganhou fama. Ainda hoje, o empresário do cantão de Vaud importa seu chocolate da Suíça em carregamentos de paletes. “Isso representa um considerável capital imobilizado”, ressalta.
Atualmente, ele estima que existam cerca de cinquenta chocolaterias e confeitarias em Vancouver. Ainda assim, acredita que a identidade singular de sua empresa a protege da concorrência, cada vez mais acirrada.
Qualidade e sustentabilidade como princípios orientadores
Bonzon também atua em uma faixa de preços mais elevada. “Mas não de luxo!”, faz questão de enfatizar imediatamente. “Além disso, cada uma de nossas lojas possui sua própria unidade de produção. Trabalhamos sem produtos químicos nem estabilizantes e utilizamos exclusivamente matérias-primas de alta qualidade”.
Comprometido com a sustentabilidade, o chocolateiro de Yverdon-les-Bains decidiu, desde a fundação da empresa, privilegiar cadeias de abastecimento curtas e produtos sazonais. “No início, os clientes não entendiam por que certos produtos não estavam disponíveis durante o ano inteiro”, recorda.
Desde então, essa mentalidade mudou. Do ponto de vista comercial, a sazonalidade acabou se revelando uma vantagem, pois desperta nos clientes a expectativa pela volta das tortas de morango e de outras especialidades preparadas com frutas.
Outra forma de gerir
Na América do Norte, praticamente não existem prazos de aviso prévio para a rescisão do contrato de trabalho. “Do ponto de vista do empregador, isso é mais simples do que na Europa”, explica o chocolateiro. “O outro lado da moeda, porém, é que os funcionários também podem ir embora de um dia para o outro”. Somando todas as unidades, Christophe Bonzon emprega cerca de quarenta pessoas.
O ano de 2023 foi particularmente difícil devido a uma crise no mercado de trabalho canadense. Em meados daquele ano, o país enfrentou uma desaceleração significativa do mercado de trabalho, reflexo do enfraquecimento da economia, que lutava contra a inflação. Naquele período, embora a empresa contasse com apenas 30 postos de trabalho, Bonzon precisou contratar 60 novos funcionários. “Cada vaga foi ocupada por duas pessoas diferentes ao longo de um único ano!”, recorda.
Para evitar uma rotatividade excessiva de pessoal, Bonzon adotou medidas pouco comuns no comércio varejista canadense. “Fechamos aos domingos e às segundas-feiras. Assim, nossos funcionários têm um fim de semana completo”.
“Jamais vou abrir minha própria empresa”
Filho de empresários, o suíço do cantão de Vaud costumava garantir aos pais, quando era mais jovem, que nunca teria seu próprio negócio. Ao longo de sua trajetória profissional, porém, percebeu que sua visão das coisas raramente coincidia com a de seus empregadores. “Foi isso que, no fim das contas, me levou ao empreendedorismo”, conta.
Antes de dar esse passo, Bonzon acumulou experiências em diferentes partes do mundo. “Eu não conseguia me imaginar passando a vida inteira na Suíça”, explica. Depois de concluir a formação em confeitaria e obter o diploma em comércio (Matura), trabalhou durante algum tempo na Suíça de língua alemã como militar temporário no Exército.
Em seguida, mudou-se para a Austrália, onde foi contratado por uma confeitaria francesa. Gostaria de ter se estabelecido ali em caráter permanente, mas, “após a crise financeira de 2008, o país viveu uma forte onda de imigração, e o governo decidiu restringir drasticamente a concessão de autorizações de residência permanente”.
Como não havia conseguido uma autorização de residência de longa duração, não quis correr o risco de abrir uma confeitaria na Austrália. Assim, ele e sua esposa fizeram as malas e seguiram para o Canadá, onde, em 2010, foi contratado como chef confeiteiro do renomado restaurante CinCin, em Vancouver. Três anos depois, decidiu abrir seu próprio negócio.
“Espírito empreendedor” mais forte no Canadá
Bonzon considera que sua empresa não teria alcançado a mesma trajetória se tivesse sido fundada na Suíça. “As pessoas aqui são muito receptivas, e o espírito empreendedor é bastante forte. Além disso, como não existe uma forma de tratamento formal, as relações são menos cerimoniosas”, afirma.
Apesar de considerar que tinha “um bom domínio do inglês”, ele admite que, às vezes, teve dificuldade para compreender o funcionamento do sistema e as regras não escritas da sociedade canadense.
Obter um empréstimo bancário revelou-se complicado, pois o casal não possuía um imóvel – uma garantia importante para os bancos canadenses. Bonzon acredita que esse processo teria sido mais fácil na Suíça.
“Por ser suíço, sempre fui muito rigoroso na forma de trabalhar. Aqui, aprendi a me adaptar e a ser mais flexível em meus métodos e no modo de organizar o trabalho”, explica.
Em dois aspectos, contudo, ele nunca fez concessões: a qualidade de seus produtos e o café expresso. Ele se recusa a servir café coado, como é habitual no Canadá.
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Edição: Pauline Turuban
Adaptação: Karleno Bocarro
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