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Formo aposta em biotecnologia para imitar queijo tradicional

Raffael Wohlgensinger
Entre a visão e o esgotamento: a vida de empreendedor de Raffael Wohlgensinger. SWI swissinfo.ch

Diante da lenta aprovação de novos alimentos na União Europeia, a startup Formo, fundada pelo suíço Raffael Wohlgensinger, decidiu lançar seus queijos veganos primeiro nos Estados Unidos.

Filho de pai suíço e mãe brasileira, Raffael Wohlgensinger cresceu em um vilarejo na região de Winterthur. Como apreciador de queijos, passou a sentir falta do sabor deste alimento quando, há mais de dez anos, começou a seguir uma dieta vegana por sugestão de sua esposa.

Os substitutos do queijo simplesmente não conseguiam se igualar ao sabor do original. Ele recorda quando, em 2016, durante uma caminhada na Suíça, surgiu a ideia de produzir um queijo sem leite de vaca, mas que, mesmo assim, tivesse um sabor tão bom quanto o do queijo suíço tradicional.

Esta série traça o perfil de suíços e suíças que empreendem no exterior. Por meio de suas trajetórias pessoais, mostramos por que realizam seus projetos além das fronteiras nacionais, quais marcos regulatórios (conjunto de normas e leis que regem um setor) encontram e quais desafios e oportunidades surgem desse cenário.

Através de seus caminhos de vida, esta série também demonstra como a “Quinta Suíça” (termo que designa a comunidade de suíços que vivem no exterior) contribui para a projeção econômica, cultural e política da Suíça.

E assim nasceu a ideia da Formo, que precisou passar primeiro por um processo de maturação –assim como um bom gruyère. Raffael Wohlgensinger não entregou nada ao acaso. Ele planejou sua startup com cautela e estratégia: no verão europeu de 2018, mudou-se para Berlim e, de início, fez estágios em empresas de capital de risco. “Isso foi extremamente importante”, diz ele hoje. “Se você quer obter dinheiro do mercado de capital de risco, precisa entender como ele funciona e pensa”, completa.

Wohlgensinger recebeu também dicas práticas naquele momento: “Observei o trabalho dos empreendedores em várias startups. Como obter capital? Como formar equipes?”.

Neste contexto, foi útil ter estudado Administração de Empresas em St. Gallen. No entanto, em termos de conteúdo, ele precisou entender melhor a produção alternativa de queijos. Para isso, acompanhou de perto o trabalho de empreendimentos no setor alimentício e, em seis meses de curso EAD, se especializou em biotecnologia.

A grande questão era: seus planos dariam certo? Seria viável um queijo maturado em laboratório a partir de culturas animais, mas que não dependesse do leite e, portanto, da criação de animais? Um queijo que não tivesse sabor de nozes ou de produtos substitutos, como muitos queijos veganos, mas que parecesse um verdadeiro cheddar ou gruyère, e que tivesse também a consistência adequada?

Não deixar nada entregue ao acaso

Raffael Wohlgensinger conversou com cientistas de várias universidades e fez consultas tanto sobre o lado econômico quanto sobre o aspecto biotecnológico. “Ou seja, antes mesmo de começar, eu já tinha recebido feedback de vários especialistas. Quais são os pontos fracos, onde estão os possíveis problemas?”

Os retornos recebidos deixaram Wohlgensinger confiante. Em 2019, ele fundou em Berlim, juntamente com a doutora em microbiologia Britta Winterberg, a startup de alimentos FormoLink externo, que ainda se chamava LegenDairy Foods.

Na época, havia muitos argumentos a favor de Berlim como sede da empresa. “Naquele momento, a cidade era claramente um centro de startups na Europa, sendo muito mais internacional do que Zurique. O ecossistema era superinteressante, com muita gente criativa e inspiradora, além de estilos de vida alternativos. O acesso ao capital foi mais fácil lá”, lembra Wohlgensinger. Do ponto de vista pessoal, ele também se sentia atraído por Berlim. Naquela época, a cidade já era uma das metrópoles mais veganas da Europa. “Achei Berlim muito agradável para viver. Ainda acho, mesmo que nem tanto quanto naquele momento”, revela o empreendedor.

Em 2024, a SRF lançou um documentário sobre a vida de Raffael Wohlgensingers como fundador:

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O que Raffael Wohlgensinger vivenciou em Berlim é algo que muitas startups lamentam: um excelente ecossistema para empreendedores, ao preço de uma regulamentação extremamente complexa. “Se em 2018 eu tivesse sabido o quanto o processo é burocrático, eu teria pensado duas vezes antes de vir para Berlim”, confessa. Das rodadas de financiamento, passando pela participação dos funcionários, até o registro de novos – tudo é extremamente lento e ineficiente, diz ele.

As coisas caminham lentamente também no que diz respeito a procedimentos e aprovações de produtos. No âmbito das autorizações para alimentos, isso se deve também às complexas regulamentações da UE. Pelo menos elas têm validade em toda a UE, ou seja, abarcam um amplo mercado e um público-alvo em expansão. Segundo uma enquete da YouGov, enquanto apenas 1% da população alemã entre 61 e 79 anos segue uma dieta vegana, 10% da Geração Z, à qual pertencem pessoas entre 13 e 28 anos, já deixaram totalmente de consumir produtos de origem animal – tanto por respeito ao bem-estar dos animais quanto por razões ambientais, já que as vacas emitem o gás metano, prejudicial para o clima. Na Suíça, esse porcentual é menor.

O primeiro passo da Formo foi a produção de queijos à base de culturas de fungos koji – o caminho escolhido para entrar rapidamente no mercado. Havia poucas barreiras legais e a aceitação dos consumidores era alta, uma vez que esse processo não envolve engenharia genética. O cream cheese à base de koji da Formo já está sendo vendido na Alemanha.

Mais próximo do queijo “de verdade”

Na realidade, os fundadores queriam é chegar mais perto do queijo “de verdade”. Essa é a razão pela qual a Formo agora se concentra apenas na fermentação de precisão – uma tecnologia que foi sendo desenvolvida paralelamente desde o início. Nesse processo, microrganismos geneticamente modificados, como leveduras ou fungos, produzem caseína em fermentadores, uma proteína idêntica à do leite de vaca. A caseína é fundamental para a fabricação do queijo – trata-se da proteína decisiva para sua textura e capacidade de se espalhar. Nos fermentadores da Formo, é produzida, portanto, a matéria-prima para o queijo, que tem o mesmo sabor do original feito com leite animal, podendo ser cortado da mesma forma e provocando a mesma sensação na boca de um cheddar ou de um gruyère, embora produzido sem qualquer ingrediente de origem animal.

Esse queijo precisa, contudo, de uma autorização da UE, que por sua vez leva tempo. Enquanto isso, a empresa, que tem atualmente cerca de 40 funcionários, começa a voltar seus olhos para os EUA e para a Ásia, concentrando suas atividades dentro da Alemanha na unidade de Frankfurt. Na cidade, já funcionava anteriormente o “Formo Culture Campus”, com laboratórios e biorreatores. Além disso, a partir de Frankfurt, é mais fácil e mais rápido chegar diretamente a vários destinos, inclusive aos EUA.

Os planos para uma filial na América do Norte avançam rapidamente, entre outros porque a legislação alimentar nos EUA é consideravelmente mais simples. Em 2025, a Formo registrou ingredientes inovadores nos EUA e agora espera obter a aprovação da agência reguladora de alimentos e medicamentos do país (FDA, na sigla em inglês) ainda este ano. “Na Europa, isso ainda vai demorar provavelmente mais quatro anos”, estima Wohlgensinger. As regras da UELink externo para novos alimentos são rigorosas, diz ele.

Raffael Wohlgensinger aprendeu muito, inclusive sobre o preço, do ponto de vista pessoal, que é preciso pagar para criar uma startup. “Tudo exige muita energia e isso acabou tendo, em certa medida, consequências negativas para mim. Mas, mesmo assim, foi bem divertido. Eu segui o fluxo”, diz. Durante três anos, Wohlgensinger não tirou férias, tendo dedicado todo seu tempo ao projeto. “Perdi o funeral do meu avô”, relembra ele e balança a cabeça. Naquele ponto, veio a constatação: “Se eu continuar assim, vou ter um burnout”.

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Moderador: Melanie Eichenberger

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Quem quer crescer rápido precisa acelerar ao máximo

Mas é possível levar uma startup ao sucesso sem trabalhar dia e noite? Raffael Wohlgensinger reflete: “Essa é uma boa pergunta. Para crescer no início, é preciso ter uma certa obsessão doentia. Cada hora de trabalho conta”. Nos primeiros anos, segundo ele, é praticamente impossível avançar com cautela e com equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal.

Wohlgensinger sabe também de outras fontes que o risco de burnout paira sobre muitos jovens empreendedores, e isso se deve ao sistema. “Quando você capta muito capital de risco e quer crescer rapidamente, é extremamente difícil não acelarar demais”, explica. Isso não se aplica, contudo, a todas as startups e nem a todos os empreendimentos: “Quando você constrói uma empresa que pode crescer lentamente ao longo dos anos, na qual não há muito capital de risco envolvido nem grandes expectativas de retorno, quando a empresa é sua, aí talvez tudo seja diferente”, pondera.

Em sua trajetória pessoal, Raffael Wohlgensinger encontrou a tempo uma forma melhor de lidar com as exigências do caminho. “Fiz os ajustes necessários na minha vida”, diz ele. Hoje, sua base voltou a ser a Suíça, onde vive sua família, “mas também porque aqui, no cenário das startups, está acontecendo muita coisa”.

Editiert von Balz Rigendinger/me

Adaptação: Soraia Vilela

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