Francis Halzen ganha o Nobel de Física por descobrir neutrinos de origem cósmica
O belga Francis Halzen ganhou, nesta terça-feira (6), o Prêmio Nobel de Física pela descoberta de neutrinos de alta energia, partículas subatômicas provenientes de fora de nossa galáxia.
Esse físico, de 82 anos, foi recompensado “por suas contribuições decisivas ao Observatório de Neutrinos IceCube e à descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica”, informou o Comitê Nobel, reunido em Estocolmo.
“O prêmio deste ano trata de mensageiros fantasmagóricos vindos do espaço”, declarou Ellen Moons, secretária-geral da Real Academia Sueca de Ciências, em entrevista coletiva.
A “visão e liderança científica” de Halzen foram fundamentais para o Observatório de Neutrinos IceCube, afirmou a Academia, que o descreveu como “um quilômetro cúbico de gelo equipado com sensores de luz”.
Com esse observatório, os pesquisadores podem “captar neutrinos, partículas subatômicas raras, provenientes de processos extremamente ricos em energia no universo distante”.
– Um cubo de gelo gigante –
“Este Prêmio Nobel tem a ver com um cubo de gelo gigante situado no Polo Sul do nosso planeta. O cubo de gelo permite a detecção de neutrinos”, explicou à imprensa a professora Eva Olsson, membro do Comitê Nobel de Física.
Halzen nasceu em Tienen (Bélgica) e é professor na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos.
“Foi uma grande surpresa e, obviamente, eu não esperava”, declarou o físico por telefone na coletiva de imprensa pouco depois do anúncio. “Mas é um grande prazer saber que me concederam este prêmio”, acrescentou.
A academia explicou que neutrinos de alta energia são criados nos mesmos ambientes que outras partículas. “No entanto, os neutrinos chegam até nós sem mudar de direção nem perder energia. Isto significa que podem fornecer informações que não estão disponíveis de nenhuma outra forma”, informou em comunicado.
Halzen apresentou pela primeira vez sua ideia para o observatório em 1988 e obteve o apoio de outros pesquisadores. Os testes preliminares foram realizados alguns anos depois, mas o observatório só ficou pronto em 2011.
“Os neutrinos cósmicos com energias extremamente altas são muito pouco frequentes, por isso é necessário um volume enorme de gelo para observar um número adequado de colisões”, explicou o júri.
“O que mais me alegra, além de ganhar o Prêmio Nobel, é que espero que isso sirva para reconhecer as pessoas realmente corajosas que se juntaram a mim no início deste projeto”, afirmou Halzen.
Halzen é o primeiro ganhador do prêmio de física desde 1992 a não ter que dividir a honraria com outros pesquisadores.
Erin O’Sullivan, astrofísica de neutrinos da Universidade de Uppsala, na Suécia, e porta-voz do IceCube, disse considerar “muito merecido que ele seja o único vencedor deste prêmio”.
“Ele foi realmente o grande impulsionador de todo esse projeto e o acompanhou desde o início”, disse O’Sullivan à AFP.
– “Problemas reais” –
O primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, transmitiu suas “mais sinceras felicitações” a Halzen pelo “reconhecimento impressionante a uma vida dedicada a desvendar os maiores segredos do cosmos”, afirmou no X.
Quando o físico foi questionado se estes neutrinos poderiam conter mensagens de possíveis civilizações distantes, Halzen disse que “já se especulou que (…) esta seria uma forma ideal de se comunicar com extraterrestres”.
“Mas não acho que vá entrar nesse assunto.
“Acho que já temos problemas reais suficientes com que lidar neste momento”, acrescentou.
No ano passado, o Nobel de Física foi atribuído ao britânico John Clarke, ao francês Michel Devoret e ao americano John Martinis por aplicarem a mecânica quântica e permitirem o desenvolvimento de todo tipo de tecnologia digital, desde celulares até uma nova geração de computadores.
Este é o segundo Nobel da temporada, depois do de Medicina, concedido na segunda-feira ao americano Karl Deisseroth e aos alemães Peter Hegemann e Georg Nage por seu trabalho no campo da optogenética, que consiste em controlar os sinais nervosos por meio da luz.
O de Física será seguido pelo de Química na quarta-feira e pelo de Literatura, na quinta.
Os prognósticos para o de Literatura incluem escritoras latinas, como a argentina Samanta Schweblin ou a mexicana Cristina Rivera Garza.
O mais aguardado, o Nobel da Paz, será entregue na sexta-feira.
Neste ano, alguns especialistas sugerem que o júri poderia optar pelo consenso, depois da polêmica provocada pela vencedora do ano passado, a líder da oposição venezuelana María Corina Machado.
O prêmio de Economia encerrará a temporada em 12 de outubro.
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