“Arrogância” do Vaticano irrita “igrejas irmãs”
A declaração "Dominus Jesus" do Vaticano sobre o pluralismo religioso defendendo a igreja católica como a única verdadeira provoca reações também na Suíça. Protestantes (40 por cento da população), consternados, consideram o texto arrogante.
Segundo o texto publicado na terça-feira pelo Vaticano a única igreja de Cristo é a católica, governada pelo Papa e pelos bispos.
A declaração “Dominus Jesus” (Senhor Jesus), assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger – o mesmo que quis “colocar na linha” o ex-padre Leonardo Boff – reafirma que a Igreja Católica é a única universal e nega a outras “igrejas cristãs” justamente a qualidade de igreja.
A Congregação para a Doutrina e a Fé, que o cardeal Ratzinger preside, alerta aliás que a fórmula “igrejas irmãs” contradiz a identidade da Igreja Católica como “mãe” de todas as igrejas. Ou seja, a Santa Sé rejeita a idéia de igualdade das religiões, relegadas a simples “crenças”. As igrejas protestantes são passariam de “comunidades eclesiais”.
As igrejas ortodoxas – que rejeitam a infalibilidade papal – recebem um tratamento melhor porque estão unidas à Igreja Católica “por laços mais estreitos como a sucessão apostólica e a eucaristia válida”.
Esse documento (de 36 páginas), endossado pelo Papa, que parece insinuar que o caminho da salvação passe unicamente pela Igreja Católica, vem suscitando vivas reações na Europa e no mundo. Na Suíça principalmente igrejas protestantes, mas também meios católicos, manifestam embaraço, consternação, irritação e críticas.
O presidente da Federação das Igrejas Protestantes, pastor Thomas Wipf, lamenta que o Vaticano “insista de novo no que separa e não no que une os cristãos”.
Várias comunidades protestantes realçam que a declaração ameaça o diálogo interreligioso. Essa posição é endossada pelo padre jesuíta Albert Longchamp, jornalista, segundo o qual a declaração “semeia a confusão no diálogo ecumênico que se tinha instaurado entre as relgiões”.
O pastor protestante Shafique Keshavjee, em depoimento no jornal “Le Matin” de Lausanne, estima tratar-se de “um texto arrogante porque acapara toda a verdade, em vez de testemunhar, com humildade, o que estimamos o essencial”. E seu colega Joel Guy, presidente da Conferência das Igrejas Protestantes suíças acha que a decisão do Vaticano “questiona muito trabalho” realizado.
Há os que não se surpreendem com essas estocadas do Vaticano, realçando que a posição da Santa Sé sobre o diálogo entre religiões tem sido sempre a mesma. Mas como declarou na quarta-feira o teólogo ortodoxo francês, Jean Tchékan, o Vaticano está na contramão: “Número crescente de teólogos, bispos e fiéis têm uma outra linguagem”.
Na quinta-feira, 7/9, a Conferência dos Bispos da Suíça estimava que o texto do Vaticano “não é ofensivo”, nem representa ameaça para o diálogo entre religiões. O presidente da Conferência, Dom Amédée Grab, enfatizou que “Dominus Jesus” não nega os valores autênticos contidos em outras religiões. E acrescentou: “Não é absolutamente indispensável pertencer a Igreja Católica para chegar à salvação”.
Segundo o bispo, não há nada de novo. A declaração do cardeal Ratzinger apenas convida a não relativizar a importância da via católica e lembrar princípios adotados no Concílio Vaticano II (nos anos sessenta).
swissinfo com agências.
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