Um diplomata suíço na prisões de Stalin
Harald Feller foi sequestrado pelos soviéticos em Budapeste, em 1945. Passou um ano nas prisões de Stalin e, ao mesmo tempo, era alvo de uma investigação na Suíça. Após seu retorno, o bernês foi inocentado de todas as acusações. Mas isso já não interessava a ninguém.
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Budapeste, 12 de fevereiro de 1945: após semanas de combates brutais, que custaram cerca de 160 mil vidas, a capital húngara é libertada pelo Exército Vermelho. Em meio às ruínas do Palácio Esterházy, em Buda (a oeste do Danúbio), são hasteadas as bandeiras da Suíça e da Suécia. Uma imagem surpreendente no fim da ocupação alemã: a embaixada suíça havia instalado ali uma chancelaria, enquanto a embaixada sueca permanecia mais ao sul.
O diplomata bernês Harald Feller (1913–2003), de 32 anos e há apenas dois meses chefe da embaixada suíça, está aliviado. Em primeiro lugar, porque as cerca de 50 pessoas que encontraram refúgio no Palácio Esterházy estão vivas e em segurança. O embaixador sueco Carl Danielsson também sobreviveu. Feller concedeu asilo a ele e a parte de sua equipe e emitiu passaportes falsos para protegê-los, já que os suecos haviam sido obrigados a abandonar sua embaixada após um ataque dos Nyilas (PfeilkreuzlerLink externo).
Esse partido húngaro pró-nazista – que estava no poder desde o golpe de Estado de outubro de 1944 – espalhava o terror pelas ruas com suas milícias. Milhares de judeus foram executados e seus corpos lançados ao rio Danúbio.
Em fevereiro de 1945, Feller também estava aliviado porque os judeus que havia escondido e alimentado em sua residência em Buda, sem o conhecimento de seus colegas, estavam finalmente salvos. E havia ainda outro motivo para respirar aliviado: no final de dezembro de 1944, ele próprio fora vítima dos Nyilas. Sequestrado, brutalmente espancado e ameaçado de morte, sobreviveu apenas por uma extraordinária dose de sorte.
Embaixada suíça em Budapeste em 1944
A embaixada suíça (na época uma delegação, chefiada por um ministro plenipotenciário) contava com três diplomatas e várias dezenas de funcionários consulares, secretários, intérpretes e outros colaboradores, suíços e húngaros. Localizava-se – como ainda hoje – na rua Stefánia, a leste do Danúbio.
A chancelaria inaugurada em novembro de 1944 no Palácio Esterházy, em Buda, a oeste do Danúbio, dispunha de um amplo bunker antiaéreo. Enquanto Harald Feller permanecia ali, Max Meier, responsável pela emissão de vistos, assumia de fato a responsabilidade pelo edifício da rua Stefánia.
A importante Seção de Interesses Estrangeiros, dirigida por Carl Lutz, foi instalada no edifício da antiga embaixada dos Estados Unidos, em Peste, embora o próprio Lutz residisse em Buda. O embaixador Maximilian Jaeger foi afastado após o golpe do Partido da Cruz Flechada, e seu vice retornou à Suíça por motivos de saúde. Assim, a partir do início de dezembro de 1944, Feller passou a chefiar a embaixada suíça.
Em 16 de fevereiro de 1945, representantes dos países neutros e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICRLink externo) reúnem-se em Buda com um representante das autoridades militares soviéticas. Representando a Suíça participam Harald Feller e Carl Lutz.
Ao término da reunião, um oficial ordena que Feller o acompanhe até Peste: “Senhor Feller, o senhor deve vir conosco.” Ele hesita, mas não tem escolha. Sob os olhos de Lutz, parte a pé, atravessa o Danúbio de barco e desaparece.
Interrogatórios soviéticos em Budapeste e Moscou
Em Peste, o diplomata sequestrado é interrogado por agentes dos serviços secretos soviéticos. Por que o embaixador suíço e seu vice deixaram a cidade? Por que o senhor permaneceu em Budapeste?
Alguns dias depois, ele é levado para o leste da Hungria. Lá reencontra seu colega Max Meier. O funcionário consular havia sido sequestrado em circunstâncias semelhantes no dia 10 de fevereiro, sem que Feller soubesse.
Os dois suíços foram transportados de caminhão e trem para Moscou, aonde chegam em 4 de março e voltaram a ser interrogados. Primeiro são levados para a prisão da Lubianka e, no dia seguinte, transferidos para a prisão de Lefortovo, também em Moscou.
Eles consideram que recebem um tratamento correto, mas são obrigados a dividir uma cela minúscula, de apenas 4,5 por 2,5 metros, vivendo em completo isolamento. Não sabem que outro prisioneiro, o sueco Raoul Wallenberg, também estava detido ali. Acima de tudo, ignoram porque foram sequestrados e se algum dia voltariam a ver suas famílias.
As comunicações entre Budapeste e a Suíça estão interrompidas desde o Natal de 1944. As primeiras notícias confiáveis sobre os sequestros chegam a Berna apenas no final de março de 1945, via Bucareste. Naquela época, a Suíça não mantinha relações diplomáticas com Moscou. Por isso, Berna recorre a diplomatas norte-americanos e britânicos em busca de informações. Infelizmente com pouco sucesso. Ainda assim, os soviéticos confirmam que mantêm Feller e Meier sob custódia.
Negociações difíceis em Berna
Em julho de 1945, o Kremlin envia uma delegação militar à Suíça. Sua missão é investigar o destino de milhares de militares internados em território suíço e organizar posteriormente sua repatriação. Ao mesmo tempo, Moscou impede o retorno de vários milhares de cidadãos suíços que desejam deixar regiões sob controle militar soviético.
Em setembro, quando a repatriação de ambos os lados já transcorria de forma satisfatória, inicia-se a segunda fase das negociações, mantida em segredo até sua conclusão. A Suíça exige a libertação de Feller e Meier e informações sobre o destino de outros funcionários consulares detidos no norte da Polônia e no Extremo Oriente. Os soviéticos respondem: “Devolvam-nos Novikov e Kotchetov!”
Vladimir Novikov é um engenheiro especializado na fabricação de novas armas, que fugiu da Itália para a Suíça. Guenadi Kotchetov aterrissou seu avião militar soviético no aeroporto de Dübendorf. Em 3 de dezembro de 1945, o Conselho Federal discute a situação. “Se pudermos salvar os dois suíços sacrificando os dois russos, estou disposto a fazê-lo”, declara Max Petitpierre.
No entanto, o novo ministro das Relações Exteriores está sozinho nessa posição. Seus colegas não o apoiam; dois deles – Philipp Etter e Walther Stampfli – manifestam-se expressamente contra a extradição de Novikov, alegando não existir base legal para isso.
Em 28 de dezembro, o Conselho Federal reúne-se em sessão de emergência. Moscou enviara um ultimato: se a Suíça não extraditasse Novikov e Kotchetov, Feller e Meier não seriam libertados. O governo suíço cede. Ainda assim, apenas no início de fevereiro de 1946 os dois retornam via Berlim. Os demais funcionários consulares, mantidos pelos soviéticos sob custódia, mas não presos, também são repatriados via Berlim.
Investigação iniciada em maio de 1945
Ao regressar, Harald Feller fica estarrecido. Durante seu período de prisão, acusações gravíssimas haviam sido feitas publicamente contra ele.
Além disso, ele descobre ser o centro de uma ampla investigação iniciada em sua ausência. Paralelamente aos esforços para localizar Feller e Meier e obter sua libertação, a diplomacia suíça procurava esclarecer as razões de seus sequestros.
Ex-colegas expulsos de Budapeste apresentam respostas – ou melhor, críticas. Segundo eles, Feller teria falsificado documentos de proteção e mantido relações muito próximas com simpatizantes do nazismo. Além disso ele também seria homossexual e consumiria álcool em excesso. Max Meier, por sua vez, é praticamente poupado das acusações.
Reportagem da SRF sobre Harald Feller e sua vida agitada durante a Segunda Guerra Mundial:
Já em maio de 1945, o conselheiro federal Max Petitpierre ordenara a investigação e encarregara Jakob Kehrli de apurar as circunstâncias e os motivos dos sequestros, além de interrogar todo o pessoal da embaixada suíça. Houve inúmeras críticas, e muitos depoimentos eram contraditórios. Carl Lutz, a única testemunha direta, apresentou três versões diferentes sobre o sequestro de Feller.
Além disso, Lutz acusou seu antigo superior de ter sido um “fardo”. O juiz Kehrli chegou à conclusão alarmante de que muitos consideravam que Feller merecia o destino que sofrera. Naquele momento, ninguém sequer sabia se ele ainda estava vivo.
A imprensa também alimentou a polêmica. Em 14 de junho de 1945, o suíço Bert Wyler, colaborador de veículos da imprensa judaica, publicou um artigo acusatório no jornal sueco Aftonbladet: Feller teria escondido nazistas em sua casa e providenciado documentos falsos para salvá-los. O jornal genebrino Voix ouvrière foi ainda mais longe, em 22 de junho: “Defendemos então a opinião de que talvez tivesse sido melhor que esse senhor Zeller [sic] tivesse acompanhado os alemães em sua retirada.”
O primeiro relatório da investigação, concluído no final de julho de 1945, jamais foi publicado. Para Max Petitpierre e seu departamento, havia uma prioridade clara: garantir o retorno de Feller e Meier. As negociações com a delegação soviética ofereciam uma oportunidade para isso.
Nem todos compreenderam essa prioridade, sobretudo Carl Lutz. Desde 1945, ele lamentava não ter sido recebido como herói ao voltar para a Suíça, e nada indicava que realmente se preocupasse com o destino de seus dois antigos colegas.
Após longos interrogatórios na primavera de 1946, Feller finalmente pôde defender-se. Em seguida, o juiz elimina todas as suspeitas contra ele, inclusive as relacionadas à sua vida privada. Ele constatou apenas uma única infração às normas: a entrega de passaportes falsificados aos suecos.
Mas Kehrli vai além: Harald Feller não apenas não colaborou com o inimigo, como salvou pessoas perseguidas – judeus e cidadãos suecos. Para isso, elaborou uma lista com 32 nomes. Ao mesmo tempo, Max Petitpierre defende o diplomata injustamente acusado perante o Parlamento. Mas isso já não despertava o interesse de ninguém.
O próprio Feller manteve, até sua aposentadoria, silêncio sobre suas atividades extraordinárias em Budapeste e sobre seu cativeiro em Moscou.
Como explicar o sequestro de Harald Feller?
Nem seus atos nem seu comportamento explicam o sequestro, conclui o juiz Kehrli. Sem dúvida, porém, os soviéticos pretendiam obter informações dele. Após regressar, o diplomata suíço estava convencido de duas coisas: a ordem viera de Moscou, e nada era dirigido contra sua pessoa. Ele servira apenas como moeda de troca nas negociações.
Em 2000, durante as investigações oficiais suecas sobre o destino de Raoul WallenbergLink externo, foram publicados documentos soviéticos até então desconhecidos. Eles confirmaram que existia uma ordem escrita – emitida em janeiro de 1945 por instrução de Stalin – determinando a captura dos suíços Harald Feller e Max Meier, bem como de um representante eslovaco em Budapeste, para serem levados a Moscou.
Antes disso, já havia sido expedida a ordem de prender Raoul Wallenberg. Em ambos os casos, a operação foi executada por agentes do serviço militar soviético de contraespionagem. Hoje se sabe que Moscou suspeitava Wallenberg de espionagem.
Teria existido uma suspeita semelhante contra os dois suíços? Talvez. De qualquer forma, o sequestro de Feller e Meier permitiu ao Kremlin exigir, com sucesso, a extradição de um engenheiro especializado em novas armas e de um piloto militar. No fim, o Conselho Federal cedeu, colocando a razão de Estado acima do cumprimento da lei. Mas, dessa forma, conseguiu salvar funcionários públicos sequestrados por agentes de um Estado estrangeiro.
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
François Wisard escreveu a primeira biografia de Harald Feller. Nela, reconstrói a vida do bernês que salvou pessoas perseguidas pelos nazistas, foi deportado para Moscou e mais tarde teve de responder diante de um juiz em seu próprio país.
Harald Feller. Retter von Verfolgten, Gefangener von Stalin. Die Leben eines Schweizer Diplomaten in Budapest* foi publicado em 2025 pela editora ElfundzehnLink externo e está disponível nas livrarias.
*em tradução livre: Harald Feller. Salvador dos perseguidos, prisioneiro de Stalin. A vida de um diplomata suíço em Budapeste
Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo
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