Suíça sente o custo do calor recorde no verão
Temperaturas recordes e secas históricas fizeram dos meses entre abril e julho o período mais quente e seco já registrado na Suíça. Veja como essa onda de calor sem precedentes afetou a população mais velha, o setor agrícola, os negócios e a natureza.
1. Setor agrícola enfrenta grandes perdas
O setor agrícola suíço enfrenta perdas relacionadas às mudanças climáticas estimadas em CHF 522 milhões (US$ 645 milhões), segundo a Associação dos Agricultores Suíços, valor que supera os danos causados pela onda de calor de 2003. O governo respondeu com um pacote de CHF 70 milhões, destinado ao setor agrícola e às florestas do país.
Uma grave escassez de forragem surgiu depois que as pastagens alpinas secaram, o que obrigou os agricultores a descerem com o gado antes do previsto e recorrerem às reservas de feno para o inverno. Para aliviar a crise, as autoridades liberaram até 16 mil toneladas das reservas obrigatórias de forragem e suspenderam as tarifas de importação sobre feno e silagem importados. Alguns agricultores chegaram a importarLink externo feno do Canadá.
O desabastecimento de forragem também afetou a produção pecuária. Segundo dados da associação Proviande, citados pelo Escritório Federal de Agricultura, o número de bois abatidos entre junho e agosto cresceu 45% em relação ao ano passado, um aumento de 10.275 animais, provavelmente relacionado à escassez de forragem.
A seca e as ondas de calor sucessivas acarretaram grandes perdas em plantações e maior custo para os agricultores. Espera-se que muitas safras apresentem uma queda no volume.
Além da queda na produtividade, muitos agricultores precisaram tomar medidas adicionais para irrigar suas plantações, o que aumentou o custo da produção. Espera-se que os preços de mercado aumentem, particularmente do leite e das batatas.
2. Peixes sofrem estresse térmico sem precedentes
Vários rios e riachos bateram os recordes de temperatura estabelecidos nas ondas de calor dos verões de 2003 e 2018. Em 14 de julho, o rio Aare, em Berna, chegou a 24,82 °C, enquanto os níveis baixos de água e a vazão reduzida aceleraram o aquecimento e reduziram os níveis de oxigênio.
A seca fez com que dezenas, talvez centenas, de riachos secassem, principalmente no Planalto Suíço e nos Pré-Alpes [faixa de montanhas mais baixas que precede a cordilheira dos Alpes].
Os principais lagos suíços também registraramLink externo temperaturas médias de superfície mais altas de todos os verões desde o início dos registros, em 1981.
As consequências para a vida aquática foram graves. David Bittner, presidente da Associação Suíça de Pesca, afirmaLink externo que o saldo final pode chegar a “milhões de peixes mortos” e a recuperação deve levar anos. Espécies de água fria, como a truta, o peixe-sombra e o peixe-lima, estiveram particularmente vulneráveis.
Em algumas regiões, foi necessária a intervenção das autoridades para evitar perdas em massa. No cantão de Berna, mais de 100 mil peixes foram realocados manualmenteLink externo de cursos d’água ameaçados. Proibições temporárias de pesca foram implementadas em diversas áreas.
3. Saúde humana: pressão no sistema de saúde
A plataforma de monitoramento EuroMomoLink externo estima que a Europa registrou mais de 32 mil mortes excedentes entre meados de julho e meados de agosto.
A Suíça ainda não divulgou dados consolidados para este verão, mas acredita-se que as ondas de calor sucessivas e intensas tenham custado a vida de muitos idosos.
De acordo com dados semanais publicados pelo Escritório Federal de Estatística, a taxa de mortalidade entre as pessoas com mais de 65 anos ficou acima do projetado em diversas semanas do verão. Na última semana de junho, por exemplo, foram registradas 1.281 mortes nessa faixa etária. A previsão era de 1.104 mortes, 177 a menos que o número registrado.
O Instituto Suíço de Saúde Tropical e Pública (Swiss TPH) estima que cerca de 500 mortes relacionadas ao calor têm ocorrido todos os verões na Suíça nos últimos anos. Durante o verão de 2003, o Swiss TPH registrou cerca de 1.400 óbitos adicionais. Em 2015, foram 747.
Uma pesquisa do 20 Minutes/Tamedia constatouLink externo que o calor extremo deste verão afetou duramente a população suíça: 74% das pessoas descreveram a situação como “bastante” ou “muito” difícil. As mulheres foram desproporcionalmente afetadas – 46% relataram que o calor foi muito difícil de suportar, contra 31% dos homens. Mais de um terço dos entrevistados relatou efeitos físicos importantes, inclusive distúrbios do sono e problemas circulatórios, com as mulheres novamente apresentando taxas mais altas do que os homens (46% contra 29%).
O Hospital Universitário de Lausanne (CHUV, na sigla em francês) registrou um aumento de 10 a 15% na atividade de emergência neste verão, segundo um porta-voz informou à Swissinfo.
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4. Com queda no nível do Reno, preço do combustível dispara
Neste verão, os baixos níveis de água no rio Reno interromperam uma rota de transporte fundamental para as importações suíças, elevando os custos logísticos e os preços dos combustíveis.
A Suíça importa combustível, produtos químicos, bens industriais e de consumo, produtos para alimentação animal e cereais, metais e materiais de construção pelo Reno. Em 2024, os Portos Suíços do Reno movimentaramLink externo 5,4 milhões de toneladas de mercadorias, o equivalente a 8% das importações e exportações do país.
As tarifas de frete no Reno subiram quase dez vezes neste verão, passando de cerca de CHF 25 para CHF 240 por tonelada, uma vez que as embarcações foram forçadas a reduzir a carga devido às águas rasas.
Segundo a organização sem fins lucrativos Touring Club Switzerland (TCS), somente os custos de transporte adicionaram aproximadamente CHF 0,16 por litro aos preços dos combustíveis. A gasolina sem chumbo 98 subiuLink externo para CHF 2,13 por litro, enquanto o diesel chegou a CHF 2,27 no final de agosto.
5. Energia: mais resfriamento, menos água… mas mais solar
As temperaturas recordes foram uma dor de cabeça para as autoridades energéticas: houve um aumento na demanda de eletricidade para resfriamento, atrelado a uma redução na capacidade de produção hidrelétrica e nuclear.
As vendas de ar-condicionado e ventiladores dispararamLink externo. Além disso, a seca teve um grande impacto na produção de eletricidade. Os níveis de água nos reservatórios hidrelétricos da Suíça chegaram ao menor patamar em 20 anos, segundo o Escritório Federal de Energia. Pequenos rios se transformaram em meros filetes de água. A vazão em grandes hidrovias, incluindo o Aare, o Reno e o Ródano, atingiu patamares mínimos históricos, reduzindo a produção de eletricidade. A energia hidrelétrica fornece pouco mais de metade da eletricidade da Suíça.
Rios aquecidos e níveis baixos de água forçaram usinas nucleares a reduzirem a produção em toda a Europa. A Suíça tem três usinas nucleares ativas, com quatro reatores em operação, que geram entre um quarto e um terço da eletricidade do país. A água aquecida dos rios também forçou reduções temporárias na produção da usina nuclear de Beznau. Os dois reatores retornaramLink externo ao funcionamento pleno somente no final de agosto, após meses de restrições e paralisações.
Apesar dessas pressões, a Suíça evitou problemas no abastecimento de energia, em parte graças à abundância de sol e ao forte crescimento da energia solar.
“Hoje, a energia solar atua como um importante amortecedor contra as condições hidrológicas desfavoráveis na Suíça”, disse a Comissão Federal de Eletricidade (Elcom) à emissora pública suíça de língua alemã SRF.
Edição: Reto Gysi von Wartburg/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
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